Farol do Mucuripe: Estado prepara programação cultural e gestão compartilhada para o 1º semestre

Demandas são reivindicações da população e, entre as atividades, estão exposição e apresentações artísticas.

Escrito por
Diego Barbosa diego.barbosa@svm.com.br
Na imagem, o Farol do Mucuripe, localizado em Fortaleza, Ceará. O edifício histórico possui um formato octogonal e é pintado em um amarelo vibrante, com detalhes em branco nas molduras e janelas. Ele está situado no topo de uma pequena colina gramada, sob um céu azul intenso com nuvens brancas finas e alongadas que parecem irradiar de trás da estrutura. No primeiro plano, há uma escadaria de pedra cinza com corrimãos metálicos que leva até a entrada do farol. A base do terreno é cercada por um guarda-corpo de vidro moderno. A iluminação é de luz do dia natural, realçando o contraste entre o amarelo do prédio, o verde da grama e o azul do céu.
Legenda: Decisão de tornar o Farol do Mucuripe um espaço para fruição de arte e cultura ocorreu durante a reforma dele.
Foto: Ismael Soares.

Para além de ponto turístico, o Farol do Mucuripe, um marco histórico na cidade de Fortaleza, será algo mais: equipamento cultural com série de atividades e participação direta da comunidade. Essa, pelo menos, é a proposta da Secretaria da Cultura do Ceará para um dos patrimônios mais emblemáticos do Estado, com previsão de realização ainda no primeiro semestre deste ano.

A pasta – responsável pelo Farol após ele sair da tutela da Secretaria do Turismo – explica que a decisão de tornar o lugar um espaço para fruição de arte e cultura ocorreu durante a reforma dele, concluída em outubro do ano passado

“A partir desse momento, tivemos que começar um processo, muito em diálogo com a comunidade ao entorno do Farol, de criar um grupo de trabalho com várias organizações para pensar isso”, introduz Viana Júnior, Chefe de Gabinete na Secult-CE.

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A reivindicação para uma gestão compartilhada, de fato – modelo no qual decisões são tomadas em conjunto, quando diferentes atores sociais entram em consenso sobre projetos –, iniciou antes mesmo de o Farol integrar a rede de equipamentos culturais do Estado. Era demanda antiga. Uma vez que a área do Grande Mucuripe concentra sem-número de associações, coletivos, museus orgânicos e pontos de cultura, pareceu natural o atual movimento.

Hoje, a ideia é fazer um contrato de gestão – algo que, segundo Viana Júnior, está em andamento e será o gatilho para diversidade de atividades no Farol alinhadas com essa construção coletiva, “desde ações que estabeleçam parcerias e fortalecimento da rede cultural que já existe em torno do Farol até programação artística e visitas mediadas”.

Na imagem, uma fotografia em ângulo baixo (contra-plongée) do Farol do Mucuripe, em Fortaleza. A estrutura octogonal de cor amarela intensa domina o centro da composição, destacando-se contra um céu azul claro com nuvens esparsas. No topo do edifício, veem-se ameias que lembram uma fortificação e a cúpula branca da lanterna com uma biruta metálica. No centro da parte inferior, uma larga escadaria de pedra cinza sobe em direção à entrada principal, que possui um arco branco. Corrimãos metálicos duplos e modernos dividem a escada e margeiam as laterais, que também contam com guarda-corpos de vidro. A perspectiva acentua a imponência do monumento histórico restaurado.
Legenda: Contrato de gestão será gatilho para diversidade de atividades no Farol alinhadas com uma construção coletiva.
Foto: Ismael Soares.

A previsão é de que tudo aconteça ainda no primeiro semestre deste ano. Conforme o Chefe de Gabinete da Secult, estes primeiros quatro meses de reabertura do Farol sem nenhum tipo de atividade foram concentrados em reuniões de GT e trabalho interno da Secult a fim de maturar e transformar cada proposta em um plano de trabalho “viável e potente”.

Necessidade de melhorias

De forma mais específica, o contrato de gestão deve otimizar outros ajustes para além do estabelecimento de uma programação cultural. Horário de funcionamento e manutenção da estrutura do Farol são pontos de discussão na fala de Diego Di Paula. Turismólogo e  idealizador do Acervo Mucuripe – projeto de história e memória do bairro – ele tensiona o fato de não ser possível observar nem o nascer nem o pôr do sol a partir do Farol.

O funcionamento é de 9h ao meio-dia e de 13h às 17h. “A visitação se resume a subir 50 degraus. Você dá um giro no Farol, mas não entra porque, como está sem programação, não tem quadros, fotos, nada”, descreve.

“O Farol foi inaugurado em 5 de outubro, e foi prometida a construção de uma gestão compartilhada antes mesmo da inauguração. Só que deixaram pros 30 segundos do último tempo, e não deu tempo de organizar algo”.

Na imagem, close-up do interior do farol mostrando uma escada caracol de metal preto. Os degraus triangulares apresentam marcas de desgaste e ferrugem dourada, revelando a idade da estrutura. A escada é sustentada por um eixo central cilíndrico preto e possui um corrimão fino de barras metálicas à esquerda. As paredes ao fundo são brancas e simples, criando um contraste industrial com o metal escuro da escadaria.
Legenda: Oxidação já atinde determinadas estruturas do Farol do Mucuripe.
Foto: Ismael Soares.

Ele também destaca a necessidade de manutenção constante na estrutura do equipamento, sobretudo devido à localização dele: em frente ao mar, exposto ao sol e ao vento e, portanto, vulnerável aos efeitos naturais da maresia.

Equipe de reportagem do Diário do Nordeste esteve no local na última quinta-feira (19) e, de fato, constatou a ação da oxidação em algumas calhas e degraus, além do desgaste em pequenas partes das paredes externas. 

“Tem outra coisa: a acessibilidade não foi incluída no Farol do Mucuripe. Foi algo desejado pelos moradores, mas não tem elevador, não tem rampa… É um imóvel, e precisa ser cuidado. Há dois guardas contratados e uma pessoa de Serviços Gerais trabalhando lá, mas até aparador de grama falta. É preciso abrir mais as portas, melhorar o horário de visitação, criar uma gestão compartilhada pra gente dizer o que a gente quer”.

Viana Júnior reitera o fato de que o contrato de gestão alavancará benfeitorias feito essas, citadas por Diego Di Paula. De acordo com o gestor, uma vez o Farol do Mucuripe ser um bem tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), há limitações quanto a ajustes na estrutura do equipamento.

“O Farol é um sítio arqueológico, então ele tem toda uma área preservada, o que reflete na nossa dificuldade de talvez fazer uma construção extra, um anexo, por exemplo. Tudo isso precisou ser observado pra montar um Grupo de Trabalho e fazer um contrato de gestão condizente com os desejos da comunidade e com nossa vontade de construção de uma política que não seja passageira, mas de inserção no bairro”
Viana Júnior
Chefe de Gabinete na Secult-CE

É o que talvez responde outro apelo de Diego Di Paula: o de, no Carnaval deste ano, o Farol ter sido um dos pólos da folia, em conformidade com a política de descentralização da festa. Não foi o que ocorreu. “Infelizmente, quebramos a cara”, lamenta.

“Aí vem aquela pergunta, que a gente sempre faz: e se fosse na Beira-Mar? Por que sempre na periferia existe essa demora com as coisas? Até agora, por exemplo, aguardamos uma reunião neste ano com a Secretaria da Cultura para decidir os próximos passos”.

Na imagem, uma janela de madeira em tons de terracota centralizada em uma parede de cor amarelo-mostarda. A janela possui venezianas fechadas na parte inferior e três pequenos painéis retangulares de vidro no topo. Ela é emoldurada por um arco branco em relevo, com detalhes geométricos na base e no topo. Na parte inferior esquerda da parede amarela, há uma pequena área onde o reboco está descascado, revelando a textura marrom por baixo. O chão à frente é composto por placas de pedra cinza.
Legenda: Partes das paredes externas do Farol apresentam desgaste.
Foto: Ismael Soares.

Viana Júnior, por sua vez, diz: “Entendemos que não é só colocar um palco, uma programação e pronto. Tem uma comunidade ali, as expectativas dessa comunidade, então fomos para dentro dela criar o GT e pensar em possibilidades”.

E completa: “Temos uma preocupação com a política cultural e, por isso, fomos entender o entorno para não ser a cultura do evento – que é algo muito bom, mas passa. Queremos algo que, de fato, fortaleça a luta da comunidade pelo território, a rede cultural que já tem ali, com museus orgânicos, associações, coletivos, grupos culturais e artísticos. Já temos um equipamento lá, que é a Escola de Gastronomia Social, e queríamos saber como poderíamos complementar essa ação. É um pouco essa a nossa tarefa junto à comunidade”.

O que ainda virá

A próxima reunião do GT ainda está indefinida. Viana Júnior diz que a Secult aguarda uma data com uma pessoa mediadora da comunidade para atualização do processo. “A gente faz questão que a agenda venha de lá, do próprio GT. Demos uma pausa porque precisamos entrar em um processo mais interno de elaboração do plano de trabalho, e agora daremos um retorno com a coisa mais concreta, em andamento, com o processo bem mais avançado”.

Até lá, adianta que é desejo iniciar a programação cultural do Farol com uma exposição sobre a história do equipamento, e incluir no roteiro atividades como ações educativas, visitas mediadas, apresentações artísticas, rodas de conversa, feiras de economia criativa, entre outros projetos.

“Já tem cultura no Mucuripe, ninguém vai levar programação, tem coisa acontecendo. O ponto é pensar como fortalecemos isso e criamos conexões com coisas que estão acontecendo no Ceará. É um pouco do que temos desenhado”.

Na imagem, vista aérea de um parquinho infantil colorido situado entre uma encosta gramada verde, em primeiro plano, e uma área portuária ao fundo. O parquinho possui estruturas de madeira com telhados verdes e azuis, escorregadores e pontes. Além do parquinho, vê-se uma rua pavimentada com uma faixa de pedestres, onde um ciclista transita. Ao fundo, a paisagem é composta por galpões, guindastes e contêineres de um porto, vizinhos à orla marítima com ondas quebrando na praia sob um céu azul com nuvens brancas.
Legenda: Reforma do Farol do Mucuripe incluiu academia ao ar livre e Praça da Resistência.
Foto: Ismael Soares.

Diego Di Paula, por outro lado, recorda: “O Farol funcionava mais antes, no abandono, do que agora. Tinha sarau, cinema, movimento… Agora, que ele foi inaugurado com um complexo – que inclui academia ao ar livre e uma praça que escolhemos o nome de Praça da Resistência – ainda não há nada”.

“Deveria haver alguma exposição que pudesse contar a história do farol, da comunidade, da memória afro-indígena, do surf… É algo que precisa ser conversado. Se a gestão compartilhada realmente acontecer, pode haver essa rotatividade de exposições e de outras atividades”, complementa.

Qual a história do Farol do Mucuripe

Estampado na bandeira do Estado do Ceará e tombado como patrimônio histórico e artístico do povo cearense, o Farol do Mucuripe fica no bairro Cais do Porto, região do Grande Mucuripe, e iluminava aproximadamente 24 km da costa litorânea, na zona portuária de Fortaleza, por onde diariamente as embarcações chegavam e partiam.

Fotografia antiga em preto e branco do Farol do Mucuripe, mostrando o farol em estrutura octogonal de alvenaria sobre uma duna de areia, cercado por vegetação rasteira e arbustos, sob céu claro.
Legenda: No século XIX, o Farol do Mucuripe, em Fortaleza, reinava absoluto, com possibilidade de ser avistado de vários pontos da cidade.
Foto: Arquivo Nirez

No século XIX, a edificação reinava absoluta, com possibilidade de ser avistada de vários pontos da cidade. Desde 1958, quando foi inutilizado como instrumento de navegação, o monumento passou por períodos de reformas e abandonos. 

Quando, na última década, quase teve fim, atuação do Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE) deu novo contorno ao espaço e garantiu a permanência dele na paisagem da Capital. A luta foi travada por moradores da comunidade do Serviluz e espelhou a resistência para a preservação de um símbolo tão forte para a cidade e o Estado como um todo.

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