Farol do Mucuripe: Estado prepara programação cultural e gestão compartilhada para o 1º semestre
Demandas são reivindicações da população e, entre as atividades, estão exposição e apresentações artísticas.
Para além de ponto turístico, o Farol do Mucuripe, um marco histórico na cidade de Fortaleza, será algo mais: equipamento cultural com série de atividades e participação direta da comunidade. Essa, pelo menos, é a proposta da Secretaria da Cultura do Ceará para um dos patrimônios mais emblemáticos do Estado, com previsão de realização ainda no primeiro semestre deste ano.
A pasta – responsável pelo Farol após ele sair da tutela da Secretaria do Turismo – explica que a decisão de tornar o lugar um espaço para fruição de arte e cultura ocorreu durante a reforma dele, concluída em outubro do ano passado.
“A partir desse momento, tivemos que começar um processo, muito em diálogo com a comunidade ao entorno do Farol, de criar um grupo de trabalho com várias organizações para pensar isso”, introduz Viana Júnior, Chefe de Gabinete na Secult-CE.
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A reivindicação para uma gestão compartilhada, de fato – modelo no qual decisões são tomadas em conjunto, quando diferentes atores sociais entram em consenso sobre projetos –, iniciou antes mesmo de o Farol integrar a rede de equipamentos culturais do Estado. Era demanda antiga. Uma vez que a área do Grande Mucuripe concentra sem-número de associações, coletivos, museus orgânicos e pontos de cultura, pareceu natural o atual movimento.
Hoje, a ideia é fazer um contrato de gestão – algo que, segundo Viana Júnior, está em andamento e será o gatilho para diversidade de atividades no Farol alinhadas com essa construção coletiva, “desde ações que estabeleçam parcerias e fortalecimento da rede cultural que já existe em torno do Farol até programação artística e visitas mediadas”.
A previsão é de que tudo aconteça ainda no primeiro semestre deste ano. Conforme o Chefe de Gabinete da Secult, estes primeiros quatro meses de reabertura do Farol sem nenhum tipo de atividade foram concentrados em reuniões de GT e trabalho interno da Secult a fim de maturar e transformar cada proposta em um plano de trabalho “viável e potente”.
Necessidade de melhorias
De forma mais específica, o contrato de gestão deve otimizar outros ajustes para além do estabelecimento de uma programação cultural. Horário de funcionamento e manutenção da estrutura do Farol são pontos de discussão na fala de Diego Di Paula. Turismólogo e idealizador do Acervo Mucuripe – projeto de história e memória do bairro – ele tensiona o fato de não ser possível observar nem o nascer nem o pôr do sol a partir do Farol.
O funcionamento é de 9h ao meio-dia e de 13h às 17h. “A visitação se resume a subir 50 degraus. Você dá um giro no Farol, mas não entra porque, como está sem programação, não tem quadros, fotos, nada”, descreve.
“O Farol foi inaugurado em 5 de outubro, e foi prometida a construção de uma gestão compartilhada antes mesmo da inauguração. Só que deixaram pros 30 segundos do último tempo, e não deu tempo de organizar algo”.
Ele também destaca a necessidade de manutenção constante na estrutura do equipamento, sobretudo devido à localização dele: em frente ao mar, exposto ao sol e ao vento e, portanto, vulnerável aos efeitos naturais da maresia.
Equipe de reportagem do Diário do Nordeste esteve no local na última quinta-feira (19) e, de fato, constatou a ação da oxidação em algumas calhas e degraus, além do desgaste em pequenas partes das paredes externas.
“Tem outra coisa: a acessibilidade não foi incluída no Farol do Mucuripe. Foi algo desejado pelos moradores, mas não tem elevador, não tem rampa… É um imóvel, e precisa ser cuidado. Há dois guardas contratados e uma pessoa de Serviços Gerais trabalhando lá, mas até aparador de grama falta. É preciso abrir mais as portas, melhorar o horário de visitação, criar uma gestão compartilhada pra gente dizer o que a gente quer”.
Viana Júnior reitera o fato de que o contrato de gestão alavancará benfeitorias feito essas, citadas por Diego Di Paula. De acordo com o gestor, uma vez o Farol do Mucuripe ser um bem tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), há limitações quanto a ajustes na estrutura do equipamento.
“O Farol é um sítio arqueológico, então ele tem toda uma área preservada, o que reflete na nossa dificuldade de talvez fazer uma construção extra, um anexo, por exemplo. Tudo isso precisou ser observado pra montar um Grupo de Trabalho e fazer um contrato de gestão condizente com os desejos da comunidade e com nossa vontade de construção de uma política que não seja passageira, mas de inserção no bairro”
É o que talvez responde outro apelo de Diego Di Paula: o de, no Carnaval deste ano, o Farol ter sido um dos pólos da folia, em conformidade com a política de descentralização da festa. Não foi o que ocorreu. “Infelizmente, quebramos a cara”, lamenta.
“Aí vem aquela pergunta, que a gente sempre faz: e se fosse na Beira-Mar? Por que sempre na periferia existe essa demora com as coisas? Até agora, por exemplo, aguardamos uma reunião neste ano com a Secretaria da Cultura para decidir os próximos passos”.
Viana Júnior, por sua vez, diz: “Entendemos que não é só colocar um palco, uma programação e pronto. Tem uma comunidade ali, as expectativas dessa comunidade, então fomos para dentro dela criar o GT e pensar em possibilidades”.
E completa: “Temos uma preocupação com a política cultural e, por isso, fomos entender o entorno para não ser a cultura do evento – que é algo muito bom, mas passa. Queremos algo que, de fato, fortaleça a luta da comunidade pelo território, a rede cultural que já tem ali, com museus orgânicos, associações, coletivos, grupos culturais e artísticos. Já temos um equipamento lá, que é a Escola de Gastronomia Social, e queríamos saber como poderíamos complementar essa ação. É um pouco essa a nossa tarefa junto à comunidade”.
O que ainda virá
A próxima reunião do GT ainda está indefinida. Viana Júnior diz que a Secult aguarda uma data com uma pessoa mediadora da comunidade para atualização do processo. “A gente faz questão que a agenda venha de lá, do próprio GT. Demos uma pausa porque precisamos entrar em um processo mais interno de elaboração do plano de trabalho, e agora daremos um retorno com a coisa mais concreta, em andamento, com o processo bem mais avançado”.
Até lá, adianta que é desejo iniciar a programação cultural do Farol com uma exposição sobre a história do equipamento, e incluir no roteiro atividades como ações educativas, visitas mediadas, apresentações artísticas, rodas de conversa, feiras de economia criativa, entre outros projetos.
“Já tem cultura no Mucuripe, ninguém vai levar programação, tem coisa acontecendo. O ponto é pensar como fortalecemos isso e criamos conexões com coisas que estão acontecendo no Ceará. É um pouco do que temos desenhado”.
Diego Di Paula, por outro lado, recorda: “O Farol funcionava mais antes, no abandono, do que agora. Tinha sarau, cinema, movimento… Agora, que ele foi inaugurado com um complexo – que inclui academia ao ar livre e uma praça que escolhemos o nome de Praça da Resistência – ainda não há nada”.
“Deveria haver alguma exposição que pudesse contar a história do farol, da comunidade, da memória afro-indígena, do surf… É algo que precisa ser conversado. Se a gestão compartilhada realmente acontecer, pode haver essa rotatividade de exposições e de outras atividades”, complementa.
Qual a história do Farol do Mucuripe
Estampado na bandeira do Estado do Ceará e tombado como patrimônio histórico e artístico do povo cearense, o Farol do Mucuripe fica no bairro Cais do Porto, região do Grande Mucuripe, e iluminava aproximadamente 24 km da costa litorânea, na zona portuária de Fortaleza, por onde diariamente as embarcações chegavam e partiam.
No século XIX, a edificação reinava absoluta, com possibilidade de ser avistada de vários pontos da cidade. Desde 1958, quando foi inutilizado como instrumento de navegação, o monumento passou por períodos de reformas e abandonos.
Quando, na última década, quase teve fim, atuação do Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE) deu novo contorno ao espaço e garantiu a permanência dele na paisagem da Capital. A luta foi travada por moradores da comunidade do Serviluz e espelhou a resistência para a preservação de um símbolo tão forte para a cidade e o Estado como um todo.