Faixa azul para motos pode dobrar mortes no trânsito, aponta estudo da UFC e da USP
Pesquisa mostra que circulação “livre” induz comportamento de risco em motociclistas.
Uma intervenção no trânsito prevista para vias de Fortaleza e já aplicada na cidade de São Paulo pode ter, na prática, um efeito inverso ao planejado: a “Faixa Azul”, preferencial para motocicletas, pode dobrar o número de mortes em acidentes envolvendo pilotos em cruzamentos.
Os dados são de estudo elaborado na capital paulista pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Universidade de São Paulo (USP) e Instituto Cordial, em parceria com a Vital Strategies, organização global de saúde pública. O relatório foi divulgado nesta sexta-feira (30). Fortaleza não sediou etapas da pesquisa.
Em entrevista ao Diário do Nordeste, nesta manhã, o superintendente da Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC), Sérgio Costa, afirmou que conclusões com base em outra cidade são prematuras, devido às particularidades de Fortaleza, e que ainda não foram feitos estudos locais sobre o tema.
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Partindo de registros de acidentes e de monitoramento por drones em São Paulo, em 2024 e 2025, os pesquisadores de engenharia de transportes verificaram que o número de sinistros fatais em cruzamentos envolvendo motociclistas é de 100% a 120% maior com as faixas azuis – dobra ou mais do que dobra.
Foram estudados quatro recortes de acidentes de trânsito:
- Fatais em cruzamentos;
- Fatais em meios de quadra;
- Feridos em cruzamentos;
- Feridos em meios de quadra.
Os dados foram significativos e conclusivos para confirmar o primeiro cenário, como explica Flávio Cunto, membro da pesquisa, professor do Departamento de Engenharia de Transportes da UFC e presidente da Associação Nacional de Ensino e Pesquisa em Transportes (Anpet).
“Quando temos resultado estatístico significativo, como observamos nas vítimas fatais em cruzamentos, é porque a diferença (do número de acidentes) foi muito grande no antes e depois da intervenção (instalação da faixa azul). Não temos dúvidas de que piorou”, destaca o pesquisador.
O estudo analisou, de forma paralela, as vias com faixa azul e as vias similares, ou seja, aquelas que não receberam a intervenção. Essas “vias de comparação” servem para os pesquisadores chegarem a resultados mais precisos e conseguirem atestar a relação direta entre os acidentes e a faixa azul.
Altas velocidades
Um dos fatores de risco para aumento dos sinistros é a velocidade: nas vias com faixa azul, a probabilidade de os pilotos excederem os limites cresce. Em trechos distantes de semáforos ou de outro veículo, a velocidade média dos motociclistas aumentou de 58,3 km/h para 72,2 km/h.
Longe de pontos semaforizados, conforme a pesquisa, 81,1% das motos circulam acima de 60 km/h, enquanto nas vias de comparação – que permitem estimar o que teria ocorrido caso a faixa azul não tivesse sido implantada – esse índice é de apenas 34,6%.
Além disso, o pesquisador Flávio Cunto pontua um problema adicional da faixa azul: a “turbulência” ocasionada pela posição dela. Ao entrar ou sair da faixa em momentos de conversão, por exemplo, as motos se “entrelaçam” a outros veículos, gerando cenário propício a sinistros.
Diante dos resultados, a pesquisa conclui que a “faixa azul não configura medida de segurança viária”, e contra recomenda a expansão ou regulamentação da intervenção – mas sugere condições que devem ser seguidas pelas prefeituras caso insistam na implementação:
- gestão ativa de velocidades (incluindo fiscalização por velocidade média);
- tratamentos de redesenho viário nos corredores, com atenção especial aos cruzamentos;
- reforço e continuidade de sinalização horizontal nas aproximações e travessias;
- transições mais legíveis para entradas e saídas do corredor de motos; e
- monitoramento antes-depois com grupo de comparação.
Faixa de rolamento dedicada aos motociclistas, a “faixa azul” foi criada em São Paulo pela prefeitura, em 2022, como projeto-piloto. Em 2025, já haviam sido implantados 221 km de extensão dessa medida.
Regulamentação das motofaixas
Em Fortaleza, uma faixa azul em caráter experimental foi instalada em outubro de 2025 na Avenida Humberto Monte, entre as ruas José de Pontes e Rio Grande do Sul. A segunda, prevista para novembro passado na Av. Santos Dumont, ainda não foi concretizada.
Para Flávio Cunto, vias como a Av. Santos Dumont, com cruzamentos “a cada quase 100 metros”, não são adequadas para receber a intervenção. “Ela tem uma faixa de ônibus, mais três faixas e uma ciclofaixa. Imagine uma via como essa receber uma motofaixa. As motos precisarão buscar esse espaço a cada 100 metros para entrar e sair”, projeta.
“Tenho ainda mais temor quando a gente implementar isso em vias que não têm estrutura parecida em São Paulo, em que as interseções são a cada cerca de 300 metros”, compara.
O superintendente da AMC, Sérgio Costa, informa que a segunda faixa azul de Fortaleza está sendo implantada na Av. Perimetral – cuja conclusão atrasou, mas “deve sair agora na primeira quinzena de fevereiro”.
De acordo com a Prefeitura de Fortaleza, a autorização para o projeto-piloto das faixas foi concedida pelo Ministério dos Transportes, por meio da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), conforme a Portaria nº 752, publicada no Diário Oficial da União em 1º de outubro de 2025.
E é justamente o debate sobre regulamentação e incentivo da medida que preocupa os pesquisadores e especialistas em segurança viária, como pontua Cunto. “O principal risco de regulamentar sem estudo é a gente não ter visto e experienciado as possíveis configurações de onde implementar”, inicia.
“Descobrimos que nas interseções temos mais problemas do que em vias livres. O que acontece se essas interseções ficarem mais próximas? E quando tem ciclofaixa? E quando temos uma maior densidade de saídas de lotes (de estacionamentos)?”, questiona o pesquisador.
Os riscos concretos para a operação em si são que essas configurações tenham efeito rebote muito negativo. Vamos aumentar nossa inundação de pacientes em emergência no SUS, sem falar no aspecto econômico, custo de perda de produtividade, custo de recuperação de saúde. É algo que precisamos amadurecer.
Para o gestor da AMC, é prematuro afirmar que as faixas não funcionarão em Fortaleza. “Ainda não tem nenhum estudo finalizado. Vamos esperar pelo menos uns 6 meses pra ter noção. Os estudos são muito preliminares no Brasil todo. Não tem ainda uma coisa fechada, se é positiva, negativa, se trouxe benefício ou não”, declara.
Em relação à pesquisa feita na capital paulista, Sérgio destaca que “são características diferentes”. “Nós temos mais motos proporcionalmente em Fortaleza do que em São Paulo. Não dá pra gente pegar o estudo de lá e trazer pra cá. Lá não foi 100% aprovado, então aqui também não vai ser?”, rebate.
“É cultura, forma de trabalhar, de viver. Tudo é diferente, então a gente tem que testar aqui primeiro”, finaliza o gestor.
O que fazer com tanta moto?
A proposta das faixas azuis em todas as cidades que a adotam é simples: delimitar um espaço para as motos e, supostamente, reduzir os conflitos com os demais veículos. Para o pesquisador Flávio Cunto, é “uma sensação prematura de segurança”.
“Esse afastamento trouxe uma adaptação do comportamento do condutor que faz com que aumente a velocidade, que é o fator primordial para duas coisas que tentamos evitar: o sinistro ocorrer e o desfecho dele”, analisa.
Para ele, é inevitável: nos próximos anos, as motos vão aumentar. Entre as soluções de segurança viária listadas por ele, então, estão:
- Melhorar a integração de a qualidade do transporte público, para incentivar o retorno de passageiros;
- Aprimorar fiscalização e educação para o trânsito;
- Envolver e responsabilizar empresas de transporte e entrega por aplicativos.
Para esta última medida, o engenheiro de transportes sugere como exemplo a criação de um selo para empresas sem acidentes com entregadores. “Na minha empresa, trabalho com entrega de comidas, e recebo um selo de que, nos últimos anos, nenhum entregador meu sofreu um acidente ou perdeu a vida no trânsito”, cita.
Sobre políticas públicas, Cunto é categórico: “temos que proteger. Não podemos marginalizar o motociclista, e sim tentar ao máximo educar. É preciso passar ao motociclista a ideia de que piloto bom, experiente e habilidoso não é o que ‘dá o grau’, é o que chega em casa seguro. Reverter a lógica”.