Do estilo de vida à poluição: câncer aumenta no Brasil e doença é maior causa de morte em 821 cidades

Fatores como obesidade, tabagismo e saneamento preocupam especialistas em prevenção

Escrito por Nícolas Paulino nicolas.paulino@svm.com.br
18 de Dezembro de 2024 - 18:24
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Legenda: Estudos vêm comprovando potencial cancerígeno de componentes da fumaça, inclusive de cigarros eletrônicos
Foto: Natinho Rodrigues

O câncer é uma preocupação global. Avançando em todas as camadas da população, a doença não escolhe idade ou condição socioeconômica. Não à toa, ela já representa a principal causa de morte em 821 cidades brasileiras, conforme levantamento do Instituto Lado a Lado pela Vida, organização social dedicada às duas principais causas da mortalidade brasileira.

O termo abrange mais de 100 enfermidades que têm em comum o crescimento desordenado de células, provocado por mutações que alteram sua estrutura genética, segundo o Ministério da Saúde. Elas formam tumores capazes de invadir tecidos, órgãos vizinhos e até distantes da origem - levanto à metástase.

Conhecer as causas dos câncer é um dos principais desafios da comunidade científica, que investiga fatores internos e externos. No primeiro caso, estão incluídos problemas geneticamente pré-determinados e a capacidade do organismo de se defender. No segundo, são avaliadas interações com o meio ambiente, hábitos e qualidade de vida da população.

Pensando nisso, as perspectivas para o enfrentamento do câncer foram debatidas no Global Forum Fronteiras da Saúde 2024, em Brasília, no fim de novembro. O evento reuniu especialistas para discutir soluções para o diagnóstico e tratamento, políticas públicas de saúde, financiamento e impacto dos determinantes sociais na saúde pública.

O oncologista Roberto Gil, diretor-geral do Instituto Nacional de Câncer (INCA), foi claro: o câncer está invertendo um ranking histórico e superando as doenças cardiovasculares como a primeira causa de morte em diversas localidades do país.

“No Amazonas, há um paradoxo: um Estado que tem uma incidência menor e já tem a principal causa de mortalidade mostra que, provavelmente, você está tendo poucas curas. Isso traz pra gente a responsabilidade de olhar toda a linha de cuidado”, observa.

Por isso, destaca o médico, é imprescindível que as gestões de saúde abordem a prevenção da doença, cujos principais determinantes são:

Tabagismo

Conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), o tabagismo é fator de risco para o desenvolvimento de vários tipos de câncer, incluindo pulmão, boca, esôfago, faringe e laringe.

Eloá Brabo, oncologista clínica e gerente da Unidade de Oncologia do Complexo Hospitalar da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), destaca que a prevalência de câncer de pulmão tem aumentado entre mulheres e pessoas não fumantes.

“O segundo principal carcinógeno depois do tabaco é a fumaça que o fumante exala quando sopra do cigarro. Por isso, a gente não pode fumar em lugar fechado. Você consegue detectar metabólitos dessa fumaça na urina de quem está ao lado”, afirma.

Além do cigarro comum, a especialista se preocupa com o aumento do consumo de vape, que “tem uma quantidade altíssima de nicotina”. 

Obesidade

O diretor do Inca lembra que a alimentação de má qualidade e a obesidade, no Brasil, estão relacionadas a mais de 20 tipos de câncer, como mama, rim, fígado e tireoide.

Alcoolismo

Estudos mostram que o consumo de bebidas alcoólicas aumenta o risco de desenvolver diferentes tipos de câncer como boca, faringe, laringe, esôfago, estômago, fígado, intestino (cólon e reto) e mama. 

Roberto Gil reitera que, para a prevenção de câncer, não existem limites seguros de ingestão. “A gente está num esforço de definir, talvez, a dose padrão de álcool para ter estudos melhor determinados”, observa. 

Vacinação

Parte dos cânceres humanos é provocada pelo papilomavírus humano (HPV), envolvido em casos de câncer de colo de útero, anal, de vulva, de vagina, de pênis e de orofaringe. A vacinação é a única forma de prevenir essas doenças.

“Nós temos uma taxa de cobertura hoje de 81% das meninas, mas só de 56% dos meninos”, lamenta o médico. “Nós precisamos melhorar isso”.

Saneamento e agronegócio

Ainda segundo Gil, é preciso melhorar as condições de saneamento em relação à bactéria H. pylori, relacionada ao câncer de estômago, e reavaliar o uso de determinados agrotóxicos já descritos como determinantes de neoplasias. “A gente precisa adaptar o agronegócio, que pra gente tem um valor importante”, destaca.

Poluição

Outro fator em estudos é a poluição ambiental sobre o câncer de pulmão, conforme a oncologista Eloá Brabo. Primeiro, pela circulação de carros com motor a diesel, cuja fumaça já é comprovadamente cancerígena.

Depois, pelo monitoramento do gás radônio, um subproduto do urânio que está nas partes profundas do solo. “Ele não tem cheiro e não tem cor. A gente não conhece quanto tem de radônio no nosso meio, e precisamos começar a nos preocupar com isso”. 

Segundo a especialista, isso reforça a importância de se ampliarem áreas verdes nos centros urbanos, para que os moradores possam passar algum tempo em locais não tão poluídos.

Atenção regionalizada ao câncer foi um dos principais debates do Global Fórum Fronteiras da Saúde 2024
Legenda: Atenção regionalizada ao câncer foi um dos principais debates do Global Fórum Fronteiras da Saúde 2024
Foto: Divulgação Instituto Lado a Lado pela Vida

Melhorar a assistência

O diretor-geral do Inca enfatiza a responsabilidade da gestão pública em viabilizar a detecção precoce do câncer e melhorar o padrão de tratamento no Brasil, dadas as desigualdades regionais de acesso, a existência de vazios assistenciais e o sucateamento de alguns serviços. 

“Precisamos diminuir a navegação errática dos pacientes na busca do diagnóstico. Temos mais ou menos 40% das mulheres brasileiras chegando em fases avançadas de doença, quando é muito mais difícil de tratar. A gente precisa modificar esse perfil e trazer as mulheres pro diagnóstico numa fase precoce”, descreve. 

Para Marlene Oliveira, fundadora e presidente do Instituto Lado a Lado Pela Vida, a regulação - conjunto de ações para garantir o cuidado adequado em tempo oportuno - é atualmente o principal gargalo dos pacientes diagnosticados com câncer no país.

“É nela que você enxerga todo o caminho da linha de cuidado do paciente, onde ele vai entrar e onde vai percorrer”, explica. “Hoje, ele demora pra agendar consulta, pra fazer biópsia e cirurgia. Muitos nem estão chegando, estão morrendo antes. Outros vão navegando, trocando de especialista, e quando tem o diagnóstico assertivo, já está numa fase avançada da doença”.

Marlene Oliveira defende maior financiamento de prevenção e tratamento da doença
Legenda: Marlene Oliveira defende maior financiamento de prevenção e tratamento da doença
Foto: Divulgação Instituto Lado a Lado pela Vida

Em dezembro de 2023, o Governo Federal sancionou a Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), justamente para garantir o acesso adequado ao cuidado integral, passando por prevenção, diagnóstico precoce, tratamento e a reabilitação. Porém, a presidente considera sua efetivação “complexa e difícil”.

Não podemos ter paciente chegando no sistema com uma fase avançada da doença, sendo que, enquanto país, temos a responsabilidade de atuar antes. Não podemos perder tanta gente como estamos perdendo.
Marlene Oliveira
Presidente do Instituto Lado a Lado pela Vida

Na leitura dela, é urgente estabelecer um modelo nacional e transparente de regulação, com critérios que levem em conta o tipo e o estágio de cada câncer, porque “hoje cada um [cada rede de saúde] regula do seu jeito”. Atualmente, essa discussão está a cargo da Secretaria de Informação e Saúde Digital (Seidigi), do Ministério da Saúde. A área quer unificar dados fragmentados para diminuir a fila do tratamento de câncer.

*O repórter viajou a Brasília a convite do Instituto Lado a Lado pela Vida.

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