Conheça o ‘Fuxiquinho Literário’, projeto de professora cearense que incentiva leitura na zona rural

A iniciativa começou durante a pandemia e hoje reúne 40 crianças, que são assistidas semanalmente de forma gratuita

Escrito por André Costa, andre.costa@svm.com.br

Ceará
Legenda: Em 2022, o projeto passou a ser presencial e, hoje, contempla 40 jovens da zona rural de Nova Olinda
Foto: Acervo Pessoal

É consenso entre os especialistas em educação: a leitura estimula o raciocínio e aprimora a capacidade interpretativa. É no ato de ler que a criança, ainda em fase de desenvolvimento, aguça a criatividade, a imaginação, o senso crítico e amplia a habilidade na escrita. Mas, como ter acesso a este universo em comunidades rurais cujo ensino não progride na mesma velocidade dos grandes centros? 

Embora a resposta para esta pergunta não seja tão simplória, a professora Ana Paula Ferreira Lima, 37 anos, a tinha na ponta da língua. “Com força de vontade eu sabia que iria conseguir levar o mundo da leitura aos jovens da minha comunidade”, disse. Essa comunidade é o Distrito de Triunfo, zona rural de Nova Olinda, no interior do Ceará. O desejo de Ana Paula foi posto em ação e hoje tem ganhado forma, sons e rostos. 

Neste ano de 2022, ela iniciou o projeto “Fuxiquinho Literário” com crianças de 3 a 12 anos de idade. O objetivo, segundo conta, é “estimular a leitura desde os primeiros anos de vida e, além disso, promover uma interação social que ficou tão abalada durante os longos meses de isolamento na pandemia”.  

A pandemia, inclusive, foi a época do nascedouro deste projeto. Ele começou de forma virtual, com nove jovens. “Como eles tinham acesso à internet, eu pensei em fazer algo para suprir a ausência das aulas. Queria que eles seguissem com as leituras e tivessem, ainda que virtualmente, contato com outros coleguinhas”, detalha Paulinha, como a professora é conhecida. 

Legenda: Paulinha diz que seu grande sonho e projeto de vida é difundir o ensino entre os jovens da comunidade em que vive
Foto: Acervo Pessoal

O projeto foi abraçado. Aos poucos, novos jovens aderiram e, logo nos primeiros meses, o número de crianças assistidas já era o dobro do que inicialmente começara o “Fuxiquinho”. Neste ano de 2022, Ana Paula deu importante passo na pavimentação de seu sonho. O que antes era online, passou a ser, “finalmente”, presencial. 

O advérbio escolhido por Paulinha mensura bem os seus anseios. “Quando a vacinação avançou e houve a flexibilização das restrições, eu senti a necessidade de fazer o projeto existir fisicamente, as crianças mereciam esse contato mais próximo. A interação é tão importante quanto. Quis acolher os jovens da minha comunidade”, relata. 

Senti que as crianças estavam tristes, ansiosas. Os próprios pais relatam isso. Trazê-las, presencialmente, para o mundo lúdico ajudou bastante. 
Ana Paula Ferreira Lima
Educadora

Mais um desejo que se fez realidade. Hoje o Projeto conta com 40 crianças. Todos os sábados, das 9h às 11h, eles se reúnem na quadra pública do Distrito de Triunfo e participam de um momento de imersão cultural, com contação de história, momentos de leitura e interpretação literária.

Legenda: Ana Paula iniciou sua trajetória em levar a leitura para a comunidade rural há mais de dez anos
Foto: Acervo Pessoal

“Além disso, ensino-os a escutar. Ouvir é uma arte que precisa ser trabalhada”, acrescenta Ana Paula. Todo o projeto é gratuito. 

A mensagem que a professora quer repassar aos pequenos tem sido bem captados. Com apenas 5 anos de idade, a pequena Maria Ysis já sabe bem a importância do 'ouvir.

"A gente brinca, conversa com os amiguinhos, mas tem a hora de prestar atenção e ouvir as histórias. É muito legal ouvir, a gente aprende bastante", relata, com uma maturidade que vai além da sua idade.

Legenda: Desde novos, os participantes do Projeto são instigados a ler e ouvir
Foto: Acervo Pessoal


Maria Eloisa, de 11 anos, corrobora. Segundo ela, "saber ouvir e silenciar tem sido muito importante para pegar todos os detalhes das histórias. A gente aprende muito mais".

A docente da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Nukácia Araújo, reforça a importância no "desenvolvimento da escuta" por considerar que é no ato de ouvir "que o jovem também pode aprender a escrever".

Segundo avalia a especialista, "quando a criança, na sua fase de desenvolvimento está ouvindo, no futuro, ela transporá todo esse aprenzidado para a escrita. Será uma escrita mais rica, crítica e criativa". 

“Acervo quase incontável” 

Mas, de onde saem os livros que são utilizados no “Fuxiquinho”? A resposta para esta indagação começou a ser escrita há mais de uma década.

Era 2009 quando a educadora teve o ato revolucionário de transformar um dos cômodos de sua casa em biblioteca. O objetivo, à época, se assemelhava ao de hoje: “sempre fui fã de leitura. E acredito no poder transformador dos livros”. 

Legenda: Especialistas apontam que a leitura beneficia o cognitivo, criatividade e criticidade dos jovens
Foto: Acervo Pessoal

Naquele ano, surgia o “Biblioteca Em Minha Casa”, com um singelo acervo de 20 livros. Assim como fora ao longo de toda sua trajetória, começar pequeno não era visto como problema, mas como combustível para o crescimento. Ela iniciou uma campanha de arrecadação, pediu doações e, mês após mês, seu acervo foi crescendo. 

Hoje, são muitos, quase incontáveis, brinca Ana Paula. “A última vez que contei para catalogar, tinham 2.830 livros”. O número traduz a força de vontade desta professora do Sertão cearense que fez de trajetória singular de vida, um processo plural. “Espalhar a educação é o grande legado que quero deixar”.  

Legenda: Hoje, a "Biblioteca Em Minha Casa" conta com quase 3 mil títulos, todos eles ficam à disposição da comunidade
Foto: Acervo Pessoal

Todos esses livros ficam à disposição da comunidade. Ana Paula cede os livros aos jovens de forma gratuita. Por meio de um cadastro simples, eles pegam emprestados os títulos e, após 8 dias, os devolvem.

“Se não ler neste período, não tem problema, a gente renova o empréstimo por mais 8 dias. Aqui não há pressão, o grande objetivo é que eles façam a leitura”, explica. Após a devolução, os jovens podem pegar outros livros.  

É uma comunidade pobre, com pouco acesso à leitura. Então naquela época isso já me angustiava. Eu queria fazer algo por eles e o que me veio à cabeça foi transformar minha casa em um ponto de apoio, um ponto de leitura. 
Ana Paula Ferreira Lima
Educadora

Importância do fomento à leitura 

A leitura, no Brasil, não é uma prática difundida. Conforme pesquisa do Instituto Pró-Livro, o brasileiro lê, em média, 2,43 livros por ano. Diante deste cenário, Nukácia Araújo destaca que, projetos que incentivem a leitura, como o desenvolvido por Ana Paula, ganham um peso ainda maior.

"O acesso a leitura contribui na formação de um cidadão crítico. Quando esses projetos contemplam crianças, é ainda mais fundamental, pois ela está em formação, em desenvolvimento. Certamente esse jovem que tem contato com a leitura será um cidadão mais preparado", avalia a professora da Uece.

Nukácia completa que os benefícios advindos da leitura, sobretudo aos jovens, são múltiplos. "Cognitivo, criatividade, criticidade, são alguns dos pontos que estes jovens certamente vão desenvolver de forma mais aguçada", conclui Araújo.

 

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