Apesar da 4ª dose liberada, 580 mil pessoas sequer tomaram D2 da vacina contra a Covid no CE

Desinformação e atraso no esquema vacinal de crianças são dois dos principais fatores para ausências

Escrito por Theyse Viana, theyse.viana@svm.com.br

Ceará
Profissional de enfermagem prepara seringa com vacina contra a Covid
Legenda: Manter esquema vacinal completo, incluindo doses de reforço, é um dos caminhos para acabar com a pandemia de Covid
Foto: Fabiane de Paula

Completar o esquema de vacinação contra a Covid é não apenas uma forma de proteger a si e ao outro, mas uma exigência para acesso a vários locais. Apesar disso, quase 600 mil pessoas sequer completaram o esquema básico com a 2ª dose no Ceará.

Até essa terça-feira (21), 8,1 milhões de cearenses tomaram a 1ª dose, mas apenas 7,5 milhões voltaram para a segunda aplicação: ou seja, quase 582 mil pessoas não completaram a imunização, segundo o Vacinômetro da Secretaria Estadual da Saúde (Sesa).

O Diário do Nordeste calculou os resultados a partir da diferença entre o número de D1 e D2 aplicadas em cada grupo etário, disponível no Vacinômetro.

Veja as faixas etárias com mais faltosos à 2ª dose:

  • 75 ou mais - 28.780
  • 70 a 74 anos - 13.692
  • 65 a 69 anos - (sem atrasados)
  • 60 a 64 anos - (sem atrasados)
  • 55 a 59 anos - 9.935
  • 54 a 45 anos - 27.304
  • 40 a 44 anos - 29.569
  • 30 a 39 anos - 71.997
  • 18 a 29 anos - 126.646
  • 12 a 17 anos - 110.599
  • 5 a 11 anos - 236.877

Para Daniele Queiroz, epidemiologista e assessora especial da Secretaria Executiva de Vigilância e Regulação em Saúde da Sesa, três pontos críticos influenciam na baixa procura por imunização: a queda de casos da doença, as “fake news” e o avanço do movimento antivacina.

“A desinformação é uma séria ameaça não só à vacinação, mas à saúde pública. As pessoas têm medo do que as vacinas podem causar, mas toda vacina liberada passa por diversas etapas que garantem a efetividade e a segurança”, reforça.

Um dos públicos mais afetados por essa lacuna de proteção é o infantil, como aponta a epidemiologista.

Foto: Thiago Gadelha

Hoje, temos uma grande dificuldade com o público pediátrico, e isso tem a ver com aspectos sociais, culturais, econômicos e políticos dos pais – um discurso antivacina ativista, apoiado com argumentos pseudocientíficos.
Daniele Queiroz
Epidemiologista e assessora especial da Sesa
 

Em relação à vacina pediátrica com a Covid, Daniele pontua, ainda, que “o absenteísmo tem a ver com a rotina dos pais, porque crianças não vão se vacinar sozinhas”, fator que tem sido alertado aos municípios, gestores diretos da imunização.

O que fazer para a população se vacinar?

A busca pela vacina é voluntária, deve partir da consciência de que ela e as medidas preventivas são as únicas maneiras de pôr fim à pandemia no Ceará. Já que contar com isso não tem sido suficiente, Daniele aponta estratégias que a Sesa tem recomendado aos municípios para ampliar as coberturas:

  • Manter as salas de vacinação abertas durante todo o horário de funcionamento da unidade de saúde e, se possível, ampliar o horário para além do comercial;
  • Evitar barreiras de acesso, como a cobrança do comprovante de residência. Os postos de vacinação devem estar abertos para receber qualquer um que for se vacinar;
  • Aproveitar a oportunidade de vacinação: se o usuário for à unidade de saúde para uma consulta, exame, é importante verificar a situação vacinal e vacinar, caso necessário;
  • Monitorar a cobertura vacinal, identificar nominalmente quem não está vacinado ou tem pendência de dose e buscar por esse usuário;
  • Fazer comunicação de risco: mostrar à população a importância da vacinação, os riscos de não estar vacinado neste momento e como a vacina é segura.
  • Intensificar ações de vigilância: os municípios devem focar em localidades e regiões com menor cobertura vacinal, realizar vacinação volante, “dias D” e outras ações de estímulo.

“A vacinação é a maior descoberta da humanidade. Não podemos deixar que outros valores interfiram no acesso a ela”, complementa a epidemiologista.

Doses de reforço

A cobertura vacinal da 2ª dose no Ceará está em 91%, conforme o Vacinômetro. Já a dose de reforço, ou 3ª dose, ainda está abaixo da ideal: só 60% do público-alvo já garantiu a aplicação do imunizante contra o coronavírus.

Negligenciar as doses adicionais e de reforço cria bolsões de suscetíveis à Covid e prolonga a permanência da doença no Estado, como alertaram especialistas ouvidos pelo Diário do Nordeste.

A dose de reforço hoje é focada nos grupos mais sujeitos, que são mais facilmente infectados e mantêm o vírus circulando por mais tempo, facilitando o surgimento de mutações. Esse é o problema social da pandemia.
Samuel Arruda
Biomédico e microbiologista

O biomédico observa também que “à medida em que as doses de reforço são estabelecidas, menor adesão acontece, principalmente nos grupos prioritários”.

Veja as faixas etárias com mais faltosos à dose de reforço:

  • 75 ou mais - 40.768
  • 70 a 74 anos - 2.844
  • 65 a 69 anos - 30.232
  • 60 a 64 anos - 24.464
  • 55 a 59 anos - 6.503
  • 54 a 45 anos - 101.137
  • 40 a 44 anos - 106.335
  • 30 a 39 anos - 373.401
  • 18 a 29 anos - 527.059
  • 12 a 17 anos - 682.486

Com o ordenamento de prioridades, algumas pessoas podem “perder as contas” e desconhecer quantas doses da vacina contra a Covid já devem, obrigatoriamente, ter tomado. Para facilitar, segue o esquema:

  • 1ª e 2ª doses: todos a partir de 5 anos já devem ter tomado;
  • 3ª dose: todos a partir de 12 anos já devem ter tomado;
  • 4ª dose: adultos imunossuprimidos, trabalhadores da saúde e qualquer pessoa a partir de 40 anos de idade já podem tomar.

A escalada do coronavírus no Ceará tem voltado a aparecer em números: em junho, até o dia 15, um a cada 4 testes de Covid feitos no Estado teve resultado positivo, uma taxa de positividade de 25,3%. A maior desde fevereiro.

Só neste mês, até quarta-feira (22), mais de 6 mil cearenses já foram infectados pelo coronavírus e seis perderam a vida por complicações da doença.

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