55 crianças ou adolescentes são internados por mês por causa psiquiátrica em hospital de Fortaleza
Índice acende alerta a sociedade sobre uso excessivo de telas e lacunas na atenção primária.
Crises fortes de ansiedade, agressividade excessiva e perda de sono. Esses foram sinais que levaram à internação de uma criança de 11 anos no Hospital Infantil Filantrópico (Sopai), em Fortaleza. O caso revela o cenário da saúde mental infantojuvenil no Ceará: o aumento da demanda por hospitalização.
Em funcionamento desde 2014, o Posto 6 da Ala de Psiquiatria Infantojuvenil do Sopai atende pacientes de todos os municípios cearenses e mantém uma taxa média de ocupação de 100%. Em 2025, foram 693 internações de crianças e adolescentes de 0 a 17 anos — número 11% maior que o registrado em 2024, com 622 hospitalizações.
Desse número, 10% dos casos é referente a uso de álcool e drogas ilícitas e 90% envolvem quadros como: transtornos mentais, crises ansiosas e depressivas, comportamentos de risco à vida e transtornos do desenvolvimento e neurodiversidade.
Para especialistas ouvidos pelo Diário do Nordeste, uma combinação de mudanças sociais estruturais, o uso desenfreado de tecnologias e a fragilidade na rede de atenção básica explica essa demanda crescente.
Caso você esteja se sentindo sozinho, triste, angustiado, ansioso ou tendo sinais e sentimentos relacionados a suicídio, procure ajuda especializada em sua cidade.
É possível encontrar apoio em instituições como o Centro de Valorização da Vida (CVV), os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). O CVV funciona 24 horas pelo telefone 188 e também atende por e-mail e chat (acesse www.cvv.org.br).
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Internação como primeira opção
Uma das diretrizes da Lei da Reforma Psiquiátrica, sancionada há 25 anos no Brasil, é que a internação do paciente somente deve ser orientada se o tratamento fora do hospital se mostrar ineficaz. Contudo, há casos em que os gargalos enfrentados pela Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) leva as famílias diretamente para a urgência.
“Percebemos aqui, enquanto profissional, que a internação está sendo a primeira opção. Quando a criança ou adolescente apresenta uma crise, o primeiro contato da família está sendo a internação, que era para ser a última”, explica Elisabete Santos, psicóloga da unidade hospitalar.
Em Fortaleza, são apenas três unidades infantis dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPs) para atender demandas que só crescem. O cenário é agravado por déficit de profissionais e dificuldades para conseguir medicamentos.
Ou seja, a busca imediata pelo Sopai pode ser um reflexo dessa falta de orientação e de recursos preventivos na atenção básica, como também relata o médico psiquiatra Alfredo Holanda, fundador e coordenador da Ala de Psiquiatria Infantojuvenil do Sopai.
Ele descreve que chegam casos de crianças que não necessitam de hospitalização, mas acaba resultando na internação por ausências de respostas da atenção primária ou até mesmo desconhecimento familiar.
“Os pais precisam ser ensinados, por exemplo, a resolver agitações circunstanciais da própria infância ou dos transtornos do neurodesenvolvimento, como uma descompensação sensorial do autista”, diz.
“Às vezes chega uma criança com TEA que possui agitações quando estouram fogos de artifícios. Explicamos que isso acontece por uma alteração sensorial e a orientação é tentar acalmar, esperar passar, sem precisar passar por uma hospitalização”, completa Holanda.
Mudanças sociais e o uso das tecnologias
O médico explica que, até os cinco primeiros anos de existência do serviço do Sopai, os principais atendimentos eram por abuso de substâncias psicoativas por adolescentes. Com o tempo, o perfil do paciente foi se transformando conforme as mudanças da sociedade.
“Hoje, atendemos transtornos clássicos referentes à psiquiatria, como esquizofrenia, bipolaridade e depressão. Também tratamos a dependência química, surtos de agitação por comoção social, transtornos de conduta ou de comportamento que engloba a agressividade e agitação, além de tentativas de suicídio”, explica.
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Segundo ele, o aumento das hospitalizações está ligado também à “mudança de paradigma estrutural, social, civilizatória, laboral e familiar”. “Muitos pais estão presentes, participam. As escolas são eficientes. Existe uma estrutura social para os jovens, mas o que falta é o sentido e o envolvimentos dos responsáveis com os conflitos próprios da criança e do adolescente”, afirma.
É isso que pode gerar, de acordo com Holanda, crianças e adolescentes estressados, agitados e em sofrimento. O resultado disso é que a tecnologia ocupa o espaço oriundo do abandono parental.
“A convivência tecnológica vai substituindo a convivência real e funciona como um fator desencadeante de crises mentais”, explica.
O diagnóstico da criança de 11 anos internada no Sopai foi de esgotamento físico e mental causado pelo uso excessivo e constante de dispositivos eletrônicos como celulares, tablets e computadores.
Essa intensa conectividade digital gera diversos estímulos mentais, que diminuem o exercício à criatividade e aceleram o cérebro ainda em desenvolvimento, como explica a psicóloga da unidade hospitalar.
“Uma criança exausta mentalmente vai responder com irritabilidade, insônia, dificuldade para aprender e nas relações sociais. Se isso não é visto, cuidado e orientado num contexto onde a gente vive dessa digitalização apressada, as crianças vão ficar enquadradas em diagnósticos”
Todo comportamento é uma comunicação
O caso da criança apresentado acima mostra que a mudança do comportamento é um sinalizador para os pais e para a comunidade que vive ao redor da criança de que alguma coisa está diferente.
“É uma atitude que não era rotina, que começa a atrapalhar as atividades diárias. Por exemplo, uma criança que não tinha problemas com sono e aparece com insônia, terror noturno ou com dificuldade de conciliar o sono. São sinais que já se pode buscar uma orientação ou ajuda especializada”, explica a psicóloga.
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Os sinais de comportamento podem ser, por exemplo, consequência de uma mudança na dinâmica familiar. Conforme explica a psicóloga, a criança é percebida como uma resposta ao ambiente em que ela vive.
Assim, não se deve responsabilizá-las pelo comportamento que apresentam, mas compreender porque essas atitudes estão diferentes.
“Saber a origem das coisas” é importante para não chegar à hospitalização ou ao uso precoce de medicamentos. “Deixar a internação e a medicação para casos que precisam de medicação e de internação”, diz Elisabete.
Ala de Psiquiatria Infantojuvenil
No Sopai, a Ala de Psiquiatria Infantojuvenil é configurada como Serviço Hospitalar de Referência (SHR).
O trabalho é voltado para a “atenção integral a crianças e adolescentes com sofrimento psíquico ou transtornos mentais, associados ou não ao uso de álcool e outras drogas psicoativas, transtornos de personalidade e comportamentos agressivos na infância e adolescência conforme as diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS)”, explica a nota.
São 25 leitos psicossociais que atendem pacientes de 0 a 17 anos oriundos de todos os 184 municípios do Ceará. A média de permanência hospitalar varia entre 12 e 15 dias, informa a unidade.
O objetivo central da unidade hospitalar, conforme os especialistas ouvidos pela reportagem, é fortalecer os vínculos e a reintegração sociofamiliar desse público.
Conforme explica o coordenador, o Sopai não busca diagnosticar os pacientes. “A função do serviço é tratar a urgência e emergência em psiquiatria e saúde mental da infância e da adolescência”, diz.
Solicite ajuda
No Ceará, os Centros de Atenção Psicossocial oferecem ajuda profissional às pessoas em intenso sofrimento psíquico, inclusive aquelas que enfrentam situações relacionadas ao uso prejudicial de álcool e outras drogas.
Além disso, o Hospital de Saúde Mental Professor Frota Pinto é referência em tratamento psiquiátrico, enquanto o Sopai é voltado para o público infantojuvenil.
Na lista abaixo, você pode encontrar uma unidade próxima em Fortaleza, conforme o perfil de atendimento que você precisa: