Usuários dos CAPS de Fortaleza denunciam déficit de profissionais e falta de remédios

Equipamentos de saúde mental enfrentam problemas históricos e passam por reformas para qualificar os atendimentos.

Escrito por
Nícolas Paulino, Clarice Nascimento e Ana Alice Freire* ceara@svm.com.br
(Atualizado às 16:14)
Muro amarelo e cinza com placa da Prefeitura de Fortaleza identifica o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS Geral) da Regional IV. Na entrada, pessoas circulam, e uma bicicleta com caixa vermelha está encostada no muro.
Legenda: Falta do medicamento risperidona é reclamação de pacientes do Caps AD do bairro Jardim América.
Foto: Ismael Soares.

Os Centros de Atenção Psicossocial de Fortaleza (Caps) são importantes portas de entrada para o acolhimento e tratamento de problemas de saúde mental da população. Contudo, as estruturas ainda enfrentam problemas históricos, como a deterioração ou inadequação de prédios, a falta de medicações e a demora na marcação de consultas.

As dificuldades afetam um serviço essencial e de alta procura: só no primeiro semestre de 2025, as 16 unidades do município realizaram 335 mil atendimentos, segundo a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), uma média de 55 mil por mês.

Atualmente, a capital cearense dispõe de:

  • 6 Caps Gerais, que atendem pessoas em sofrimentos psíquicos ou transtornos mentais severos e persistentes; 
  • 7 Caps Álcool e Drogas (Caps AD), sendo dois 24h, cujo foco é o cuidado a pessoas em uso problemático de substâncias psicoativas;
  • 3 Caps infanto-juvenis, com atendimentos a crianças e adolescentes em sofrimento psíquico/transtornos mentais graves e usos de substâncias psicoativas. 

A reportagem do Diário do Nordeste percorreu alguns Centros da cidade na manhã desta terça-feira (21). No CAPS Geral IV, na Av. Borges de Melo, no bairro Jardim América, uma dona de casa de 35 anos relatou as dificuldades para conseguir o medicamento risperidona para o esposo, de 58 anos.

“Já tá com mais de dois meses que a gente não consegue o remédio e tem que comprar, porque não pode ficar nessa situação”, ressalta. O antipsicótico é usado para diversos tratamentos psiquiátricos, como esquizofrenia, transtorno bipolar e Transtorno do Espectro Atenção e Hiperatividade (TDAH). 

A cada três meses, o esposo dela vai até o local para renovar a receita e realizar acompanhamento com o psiquiatra. “Tem também as terapias que ele faz aqui, toda semana ele vem para os grupos. Porque psicólogo para atendimento individual não tem. Então, geralmente são esses grupos”, afirma. 

Ela acrescenta que o esposo nunca realizou um atendimento psicológico, por falta de vaga. “É um psicólogo para atender praticamente a população inteira”, diz. 

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Essa falta de medicamento também é compartilhada por Benedita Sousa, de 58 anos. Ela acompanha o filho diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e utiliza o risperidona e fluoxetina. Além do tratamento psiquiátrico no CAPS, o jovem de 25 anos é acompanhado na Policlínica do Passaré por um neurologista. 

“Estou na fila de espera com ele faz anos para um atendimento com fonoaudióloga e terapia ocupacional. Não consegui, é muito difícil”, afirma.

No Caps AD II Dr. José Glauco Bezerra Lobo, no bairro Cidade 2000, uma dona de casa de 69 anos, que preferiu não ser identificada, detalha que há poucos profissionais para atender à demanda de pacientes. O local, assim como outros Centros de Fortaleza, está em reforma há, pelo menos, 15 dias. 

Durante a visita, outros pacientes que precisam ficar no local sendo observados relataram incômodo com o barulho e a poeira da obra. Alguns tentavam ler, mas eram atrapalhados pelos ruídos das máquinas.

Fachada branca com detalhes em azul mostra a entrada de uma unidade de saúde. Uma mulher senta em uma cadeira verde na calçada, enquanto duas pessoas são vistas no interior do prédio.
Legenda: Falta de profissionais suficientes para dar conta da demanda nos Caps de Fortaleza é uma das principais reclamações de usuários.
Foto: Ismael Soares

Necessidade de mais vagas

O Fórum Cearense da Luta Antimanicomial (FLCA) informou ao Diário do Nordeste que acompanha há anos uma saúde mental “defasada, abandonada e insistentemente ambulatorial” na capital. Até mesmo o quadro de equipes técnicas “permanece precarizado, sem educação permanente, com condições de trabalho sucateadas”. 

A entidade alerta que os 16 serviços atuais não dão conta da demanda como um todo, sendo necessária a ampliação de mais Caps gerais, AD e infantis, já que a cidade tem mais de 2 milhões de habitantes. 

“Atualmente, contabilizamos Caps 24h apenas para perfil de álcool e outras drogas na cidade e ainda, com leitos limitados. Não existe serviço psicossocial de urgência e emergência previsto em lei e alinhado com a política da reforma psiquiátrica e da luta antimanicomial operando atualmente em Fortaleza, para o quadro de sofrimento psíquico grave e persistente”, aborda.

A psicóloga Marta Clarice Nascimento, integrante do Fórum, explica ainda que faltam Centros de Convivência (Cecos) – espaços comunitários previstos em lei que promovem a saúde mental ao utilizar o convívio social como forma de cuidado –, e as Unidades de Acolhimento (residências temporárias) possuem extensas filas de espera.

“É preciso que haja ampliação de Unidades de Acolhimento no município, principalmente para o público feminino, que segue sendo o perfil mais desassistido nesses espaços”, observa. “É um desafio pensar um cuidado antimanicomial, territorializado e alinhado com a vida do sujeito com a precariedade de uma rede que, mesmo com novos ares de gestão, permanece em último plano”.

Fachada amarela e cinza da unidade Dr. Silas Munguba, com motos estacionadas em frente e pessoas conversando na entrada. O logotipo da Prefeitura de Fortaleza aparece pintado na parede.
Legenda: Caps AD do bairro Rodolfo Teófilo recebe pacientes de Caps Geral do bairro, que está em reforma.
Foto: Ismael Soares.

Em maio deste ano, a Comissão de Direitos Humanos e Cidadania (CDHC) da Assembleia Legislativa do Ceará (Alece) também realizou audiência pública para discutir a situação da Rede de Atenção Psicossocial (Raps), apontando recomendações para serem implantadas melhorias nos equipamentos.

Após visita a quatro Caps, uma equipe técnica colheu relatos de demora para conseguir atendimento, com espera que pode chegar a 9 meses; dificuldade para conseguir consulta de retorno; estruturas físicas precárias e até falta de água potável; constantes remarcações de consultas; falta de medicamentos; ausência de leitos femininos para desintoxicação; falta de insumos e alimentação não considerada satisfatória.

Na ocasião, também foi cobrado um cronograma para implantação de mais Caps 24 horas e atendimento a vítimas de violência que demandem atendimento em saúde mental.

Carta relata problemas

Em maio de 2024, uma carta de trabalhadores da saúde do Caps Geral V, no bairro Bom Jardim, já escancarava condições precárias de trabalho e atendimento. ​Entre os principais, estavam:

  • estrutura física precária, que afetava a segurança e a dignidade dos usuários e trabalhadores; ​
  • localização em uma área de alta criminalidade, com assaltos frequentes;
  • demanda que superava a capacidade do serviço, com um número insuficiente de salas e profissionais para cobrir cerca de 600 mil pessoas; ​
  • falta de áreas adequadas para acolhimento e espera;
  • acessibilidade limitada, especialmente para idosos e pessoas com mobilidade reduzida.

À época, os trabalhadores solicitaram à SMS urgência na mudança para uma nova estrutura física, além de um ambiente de trabalho mais saudável.

O que a Prefeitura vai fazer?

Em entrevista à reportagem na tarde desta terça-feira (21), a secretária adjunta da SMS, Aline Gouveia, afirma que a Raps passa por um processo de reestruturação em três frentes: infraestrutura, recursos humanos e medicamentos. Segundo ela, sete unidades estão em reforma, sendo cinco Caps, escolhidos com base em critérios técnicos de engenharia.

“Recebemos, em janeiro, uma situação delicada, tanto financeira quanto estrutural. Por isso, lançamos o programa Saúde que Cuida, que inclui a recuperação das unidades mais comprometidas primeiro”, explicou. 

Enquanto as obras acontecem, parte dos atendimentos foi redirecionada para outros serviços e, em alguns casos, a Prefeitura fez a locação de imóveis temporários para suprir o funcionamento.

No eixo de recursos humanos, ela destaca a convocação de 178 novos profissionais para a Raps, no mês de agosto, e a incorporação de 311 servidores da antiga Fagifor, que também foram destinados à equipe de alguns Caps. 

Os efeitos, prevê, devem ser sentidos ao longo do ano, à medida em que a reorganização das escalas for efetivada. As equipes médicas também foram reforçadas com o apoio de cooperativas. Novos chamamentos de profissionais devem ser feitos em 2026, 2027 e 2028, adiciona.

Entrada de Caps Infantil com muro branco e detalhes em tijolos aparentes, decorado com desenhos infantis coloridos. Carros estacionados em frente e pessoas entrando e saindo do local.
Legenda: Fortaleza tem três Caps para o público infanto-juvenil e deve receber nova unidade no Centro.
Foto: Ismael Soares.

Já em relação à falta de medicamentos, a gestora reconheceu que houve desabastecimento nas farmácias municipais, situação que já foi tornada pública. Contudo, “dois novos lotes de risperidona, enviados pelo Governo Federal”, serão enviados neste mês e permitirão regularizar a entrega.

A meta da SMS é concluir as reformas “o mais rápido possível”, para devolver à população equipamentos requalificados e em condições adequadas de funcionamento. “Reforma sempre exige contingenciamento, mas buscamos publicizar nos postos de saúde”, conclui Gouveia.

Ainda nos planos da gestão, há a construção de um novo Caps Infantil com Espaço Girassol, no Centro, e a implantação do atendimento 24 horas no Caps Geral do bairro José Walter.

Para que servem os Caps?

Os Caps prestam atendimentos individuais em especialidades como clínica médica, psiquiatria, psicologia, terapia ocupacional e enfermagem.

Além disso, os serviços buscam fornecer cuidado em saúde através de acolhimento, atividades coletivas, visitas domiciliares, ações de arte/cultura, estratégias de reinserção social, práticas integrativas e complementares e assistência farmacêutica.

O horário de funcionamento vai de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h. Os serviços 24 horas são o CAPS AD da Regional I, no bairro Cristo Redentor, e o CAPS AD Regional II, na Cidade 2000.

Como acessar o serviço dos Caps?

A procura deve começar pela Atenção Primária, em postos de saúde, que podem referenciar o atendimento para os Caps. Eles proporcionam acolhimento inicial a casos de maior complexidade. Porém, também pode ser porta aberta para transtornos mentais graves e persistentes.

Veja aqui a lista e a localização dos Caps de Fortaleza. 

*Estagiária sob supervisão da jornalista Dahiana Araújo.

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