Rosana Paulino analisa questões raciais nas artes visuais: ‘O Brasil é um país que não se enxerga’

Referência na arte contemporânea, a artista e educadora paulista tem obra exposta na Pinacoteca do Ceará e outras espalhadas pelo mundo.

Escrito por
Ana Beatriz Caldas beatriz.caldas@svm.com.br
(Atualizado às 15:33, em 24 de Novembro de 2025)
Artista visual e educadora, Rosana Paulino é um dos principais nomes da arte contemporânea brasileira.
Legenda: Artista visual e educadora, Rosana Paulino é um dos principais nomes da arte contemporânea brasileira.
Foto: Thiago Gadelha.

Quando começou a trabalhar com artes visuais, debruçando-se sobre tecidos e fotografias para “suturar” questões sociais do Brasil, Rosana Paulino, hoje com 58 anos, era praticamente a única artista visual negra que se propunha a essa análise sob um viés contemporâneo. “Trabalhei praticamente dez anos sozinha”, afirma.

“Tinham artistas que chegaram até o modernismo, que é o caso do Emanuel Araújo – que fez o Museu Afro-Brasil – mas não avançou até o contemporâneo”, completa. Por isso, ao avaliar o quanto a arte contemporânea produzida por mulheres e homens negros avançou nas últimas três décadas, a artista visual e educadora paulistana afirma estar positivamente surpresa.

“É um momento muito esperançoso. Realmente, eu não esperava ver esse panorama em vida”.  Parte desse avanço, acredita, vem do trabalho de pioneiros, como o seu próprio, que enfrentaram o racismo e o elitismo predominante na academia e nas artes visuais para produzir trabalhos de impacto a partir de histórias apagadas da arte considerada “clássica”.

Atualmente, Rosana colhe os frutos desse trabalho árduo, desenvolvido nos últimos 30 anos. Artista renomada com exposições em diversos países e doutora em Artes Visuais, ela se prepara para expor pela segunda vez na Bienal de Veneza, a mais antiga e uma das mais relevantes do mundo – e pela primeira no Pavilhão do Brasil, espaço de honra no evento, junto a outras duas mulheres.

Além de Rosana, a artista plástica Adriana Varejão também irá expor no Pavilhão. Ambas reuniram obras do acervo e novas peças para elaborar o projeto “Comigo Ninguém Pode”, com curadoria de Diane Lima. 

Neste mês de novembro, Rosana Paulino veio a Fortaleza pela primeira vez, para ministrar a aula aberta “Obra, pesquisa e ensino” na Pinacoteca do Ceará, em que discutiu alguns dos principais aspectos de seu trabalho, como a escolha por diferentes mídias a depender da temática de cada obra.

“Quando eu vou falar, por exemplo, do racismo, eu vou usar fotografia de época; mas quando vou falar da psicologia das mulheres negras, vou para o desenho”, explica.

“A fotografia é fria. Se eu vou trabalhar racismo científico, vou usar o mesmo meio que foi usado na época para desqualificar as pessoas negras. Agora, se vou falar de psicologia, tenho que ter um meio mais quente, mais íntimo, mais quente, aí eu vou para o desenho”, segue.

Durante a passagem pela capital cearense, Rosana aproveitou para conhecer alguns dos espaços culturais públicos da Cidade, como o Theatro José de Alencar. “Acho muito interessante essa movimentação que está sendo feita aqui no Ceará em relação aos equipamentos culturais”, comentou, em entrevista ao Verso.

“Essa é uma possibilidade gigantesca que nós, da cultura, temos; é uma cultura muito própria, que o Brasil desenvolveu, muito diferente, que é muito rica e tem muito a oferecer ao mundo"
Rosana Paulino
Artista e educadora

Arte de Rosana ‘sutura’ tecido social e resgata memória 

Artista posa em frente da obra 'Bastidores', atualmente em exposição na Pinacoteca do Ceará.
Legenda: Artista posa em frente da obra 'Bastidores', atualmente em exposição na Pinacoteca do Ceará.
Foto: Thiago Gadelha.

Na Pinacoteca, além da aula aberta, Rosana se reencontrou com uma de suas obras mais emblemáticas, “Bastidores”, de 1997, que está em cartaz na exposição “Figura e paisagem, palavra e imagem”, mostra com obras cedidas do MAM São Paulo. A obra, que reúne imagens de seis mulheres negras em bastidores de costura, problematiza o imaginário estigmatizante sobre o papel das mulheres negras na formação do País. 

Por meio da obra, feita ainda quando a artista era estudante, Rosana elaborou um tratado sobre a violência e o apagamento impostos pelo racismo e pelo machismo no País – questões que a acompanhariam em muitos outros de seus principais trabalhos ao longo dos anos. 

Obra 'Bastidores' (1997), de Rosana Paulino.
Legenda: Obra 'Bastidores' (1997), de Rosana Paulino.
Foto: Thiago Gadelha.

Filha de uma bordadeira, a artista visual apoderou-se, no início da carreira, de plataformas que via em casa, como o tecido utilizado pela mãe para obter renda e as fotografias que aprendeu a apreciar nos álbuns de família. 

“Era muito comum, por exemplo, ficar vendo minha mãe entrar à noite bordando, ou então sentar em roda lá com as vizinhas e elas ficarem bordando. Isso me chamou a atenção desde muito cedo. Para mim, era uma coisa meio mágica, você ver o fio e o fio transformado em imagem”, lembra.

“Quando comecei a me expressar como artista, eu pensava: ‘ah, não quero ficar só no bidimensional, não quero ficar só no desenho’. Aí tentei algumas mídias, fui tentar madeira, mas morria de medo de cortar o dedo naquelas serras. [Pensei] que que eu sei fazer? Sei costurar, sei costurar desde sempre”, completa.

Por meio dessa escolha, também tomou para si o intuito de questionar o que pode ou não ser considerado arte – e o intuito de analisar de quem parte esse tipo de categorização. 

“As pessoas às vezes falam ‘bordado’, mas eu não faço bordado. Eu comecei fazendo costura, e ultimamente eu não falo nem costura, eu falo sutura, porque muda o sentido. Eu começo a suturar pontos da história do Brasil. E por que sutura? Porque tem uma dor ali, envolvida nos trabalhos”, aponta.

“Meu trabalho lida muito com as classificações, em vários sentidos, e essa é uma das classificações. Por que o que é feito pela mulher, esse trabalho de linha, de têxtil é desvalorizado? Ele também pode ser arte”, completa.

Além de expor em diversos países, Rosana também foi premiada diversas vezes ao longo da carreira. Recentemente, foi reconhecida em premiação do Munch Museum e ganhou o Jane Lombard Prize, do Vera List Center.

Levar mídias tidas como menos “artísticas” para o museu, especialmente posicionando-se como uma artista negra que trata de resgatar e ecoar a história negra do País, é também um posicionamento político. Rosana lembra que, quando estudava na Universidade de São Paulo, pensou na costura como arte pela primeira vez ao ver uma exposição de Arthur Bispo do Rosário (1911-1989). 

“Foi uma revelação. O Bispo era um negócio, a arte do Bispo é maravilhosa. Eu falei, ‘nossa, isso é arte também, também levantou questões’ Por que que tecido e linha é visto como coisa de mulher, sempre no diminutivo – ou é coisa de mulher ou coisa de louco”, comenta. 

“Mas quem faz essas classificações, e por que que faz? Também tem a ver com gênero, tem a ver com raça, tem a ver com quem tem acesso a determinados materiais”, completa.

Rodar o mundo para revelar o Brasil

'Paraíso Tropical', de Rosana Paulino.
Legenda: 'Paraíso Tropical', de Rosana Paulino.
Foto: Reprodução/Rosana Paulino.

A chegada de Rosana na 61ª Bienal de Veneza, que ocorre entre maio e novembro de 2026, tem importância redobrada em sua trajetória. Expondo em um local de ainda mais prestígio desta vez, ela também celebra a chegada de outra mulher negra ao evento: a curadora Diane Lima, que trabalha com Paulino e Adriana Varejão no projeto que ocupará o Pavilhão do Brasil. 

“São três mulheres, e duas delas negras. Isso é uma mudança de paradigma absolutamente gigantesca”, aponta. O nome da exposição, “Comigo Ninguém Pode”, dialoga com a necessidade de mostrar uma face diferente do País, escancarando fissuras sociais e mostrando novas possibilidades artísticas que têm sido produzidas por aqui.

“É um espaço de muito prestígio. Eu não me lembro de ter visto nada parecido. Aliás, não me lembro nem de pessoas negras na Bienal de Veneza. E a gente começa: tá, o que o Brasil quer mostrar para o mundo? É um país que não se mostra, o Brasil é um país não se enxerga e não se mostra”, destaca.

Rosana conta que, ao expor em outros países, já ouviu muitos questionamentos sobre a presença negra no País, algo que atribui à política de apagamento histórica que chega, inclusive, às escolas artísticas brasileiras.

“As pessoas [de outros países] falam ‘nossa, tem muito negro no Brasil?’ Poxa, é quase 60% da população. Não é um país branco, nunca foi. Mas a gente tem que pensar que as [artes] visuais ocuparam sempre um lugar muito elitista, e a imagem que tentaram vender pro mundo é como se fosse um pedacinho cravado da Europa no mundo – uma coisa absolutamente ridícula”, declara. 

O projeto apresentado na Bienal tem o intuito de ir além dessa imagem, mostrando tanto a violência e os apagamentos que formaram o Brasil, mas também a criatividade e os avanços na produção cultural brasileira nos últimos anos

Para Rosana, esse tipo de iniciativa e reconhecimento auxilia na construção de um Brasil real, com questões e abordagens artísticas muito próprias de nossa formação sociocultural. “Acho que agora o Brasil está começando a se construir como nação”, ressalta.

“Se a gente for pensar em termos de artes visuais, o Brasil tem uma história totalmente colonizada, desde a missão artística francesa que apostou aqui no Brasil, trazendo um modelo do que seria cultura, do que seria bom, do que seria belo, do que seria digno, e que não tem nada a ver com a gente”, completa. 

A gente vai ter que botar isso sobre a mesa, essas influências existem, estão aí, elas tem que ser discutidas. Então, é bom que se coloque isso, que os artistas jovens venham trazendo isso, porque a gente vai ter que pensar. Já passou da hora da gente se olhar enquanto país e falar: tá, o que a gente tem de força? Essa é a nossa força.”
Rosana Paulino
Artista visual

Rosana conta que tem olhado para as novas gerações com certo distanciamento – já que tem se ocupado em outras frentes, como a conexão do Brasil com outros países e a formulação do Instituto Rosana Paulino, que deve focar na formação teórica de artistas e ganhar CNPJ nos próximos anos –, mas com muito otimismo e admiração.

“A gente está com um momento bem interessante onde estão aparecendo muitos críticos, críticas de arte, curadoras, curadores, artistas, então eles já estão dando conta”, afirma.  “Está entregue”, brinca.

Protagonismo negro nas artes ainda está distante

Rosana veio a Fortaleza pela primeira vez para uma aula na Pinacoteca do Ceará.
Legenda: Rosana veio a Fortaleza pela primeira vez para ministrar uma aula aberta na Pinacoteca.
Foto: Thiago Gadelha.

Apesar de acreditar com esperança em um cenário artístico e social mais potente e representativo, Rosana destaca que ainda não é possível falar em um momento de real protagonismo negro, nem nas artes visuais, nem na academia.

“A gente ainda tá longe do protagonismo, muito longe, não tem nada ganho. Se a gente olhar que a população negra é quase 60% da população brasileira, tá muito longe disso, não se  chega a 30% ainda nas universidades – e geralmente nos cursos menos prestigiados”, relembra. 

Ainda que insuficientes, esses avanços, destaca, têm sido fortemente repelidos por uma onda conservadora e “absolutamente brutal” que tem pautado a política no Brasil e no mundo. “A reação é esperada, seria muita ingenuidade achar que não teria reação. A diferença é que agora nós estamos olhando isso, respondendo”, destaca. “Agora as pessoas não estão mais se calando”.

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