No mês do Orgulho LGBTQIA+, conheça o trabalho artístico de travestis negras da cultura cearense

Inspiradas na travesti negra que liderou o movimento de 28 de junho, no bar Stonewall Inn (NY), cearenses constroem narrativas de vida na cultura do Estado

mumu, sy, miranda e yara
Legenda: Mumu, Sy, Miranda e Yara Canta atuam na cena cultural cearense
Foto: Jorge Silvestre/Henrique Cardozo/Anie Barreto/@freakestudiocriativo

Antes de tudo, é preciso dizer que esse texto é escrito a quatro mãos. Comigo, a comunicadora trans e multiartista Ella Monstra conta aquela que é uma história sobre sua vida, mas também de outras pessoas que ainda precisam travar batalhas para o reconhecimento de suas identidades. Miranda, Mumu, Sy e Yara protagonizam aqui a narrativa das próprias existências na produção cultural do Ceará, tendo como uma das inspirações Marsha P. Johnson, uma das líderes mundiais do movimento de conquista de direitos civis da comunidade LGBTQIA+.

Mas quem foi realmente Marsha? Uma resposta possível para essa pergunta é que ela teve papel fundamental nas revoltas de Stonewall, iniciadas em 28 de junho de 1969, em Nova York, e que mais tarde seriam lembradas como marco inicial para as Paradas pela Diversidade em todo o mundo. É possível responder também que Marsha foi mais uma das travestis encontradas mortas e cujo caso foi negligenciado pelas investigações policiais da época, realidade que teima em se repetir até hoje.

Uma narrativa ainda mais representativa dessa personagem, talvez, seja a de que ela segue lembrada por seu sorriso, sua forma positiva de encarar a vida e uma história repleta de conquistas. É nesse percurso também que jovens artistas residentes no Ceará se encontram.

Sy Gomes Barbosa, 21 anos, é estudante de História na UFC, mas também trabalha com música e artes visuais, sendo uma das selecionadas para o Salão de Abril deste ano. Ela credita a vida que tem hoje à existência de outras pessoas trans e travestis.

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Legenda: Sy, com trabalho focado nas artes visuais, investe na pesquisa "Travestis são como plantas"
Foto: M Dias Preto

"Marsha foi uma mulher trans que lutou ao lado de muitas pessoas e que por muito tempo foi esquecida, sabemos bem, por ser preta e por ser trans. Há ainda a dificuldade de construir uma memória travesti, mas eu confio que, assim como ela, muitas de nós não serão esquecidas, pois nós não vamos morrer", declara.

A construção dessa memória a qual Sy se refere perpassa também por um reconhecimento da própria comunidade, como explica Silvia Miranda. Aos 21 anos, ela é pioneira do movimento ballroom no Ceará (manifestação cultural de celebração de vidas LGBTQIA+ por meio de arte, performances e moda) e atuante na articulação da juventude de Fortaleza.

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Legenda: Conhecida na ballroom como Yagaga, Miranda é articuladora de diversas ações culturais para a juventude de Fortaleza
Foto: Carol Sousa

"Sinto que muitas pessoas trans ainda são desvalorizadas nas lutas e falas com a comunidade LGBT, parecem esquecer que os direitos e a luta que temos hoje, conquistamos por meio de vidas travestis pretas. Somos tão invisíveis que a Parada pela Diversidade é chamada de 'Parada Gay', e essas pessoas que conseguiram nossos direitos nem estão mais vivas para aproveitar o que conquistaram pra nós. A comunidade LGBT precisa escutar mais as pessoas trans porque essas pessoas estão na linha de frente dessa luta", defende.

É exatamente nesse sentido que a cantora, atriz e bailarina da Sabiaguaba, Muriel Cruz, 21 anos, mais conhecida como Mumu, afirma a importância de estar "aqui para as nossas", vivas e falando sobre vida.

"Ser eu artista em Fortaleza, carregando comigo a minha raça e meu gênero, é fortemente prazeroso e doloroso, mas me instiga a ir pra cima mais ainda. Avançar não é muito uma palavra que eu goste, mas acredito que por ser um movimento frontal possa ser que me contemple de alguma forma. Quero ir mais a fundo, mergulhar e olhar pra trás, só pra pedir força para meus ancestrais. O avanço que eu acredito é o avanço de busca de nós mesmas".

Orgulho

Este sentimento evoca, sobretudo, a necessidade de trabalhar em coletivo, como observa a também cantora, atriz e artivista Yara Canta, 26 anos.

"Sinto orgulho quando estou com as minhas e a nossa união me traz vida, força pra lutar, trabalhar, viver, amar, respirar... Pois sinto que não estou só. Vejo que existem outras iguais a mim e percebo que nos conectamos de alguma forma, e conseguimos juntas buscar estratégias não só para nos defender, mas principalmente para prosperar".

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Legenda: Yara Canta iniciou na música aos 19 anos e já pisou no palco de vários eventos e festivais
Foto: Lui Fontenele

Sy Gomes, que atualmente trabalha na pesquisa "Travestis são como plantas", traz a perspectiva de "construir vida travesti, cultivando-a como sementes que precisam de muitos cuidados". "Acredito que luto dentro da comunidade na medida em que construo espaço para bixas pretas, pessoas transmasculinas, travestis e trans não bináries. Ou seja, na medida em que não pretendo representar, mas dar espaço para que as pessoas falem e realizem as próprias existências", relata Sy.

E, dentro dessa perspectiva, Miranda lembra a importância de empregar, profissionalizar e remunerar pessoas trans. "Precisamos pagar a arte das pessoas trans, com dinheiro, não com bebida ou divulgação. Nosso hormônio não é pago com álcool ou 'free', nossas vidas precisam ser mais valorizadas", reforça. "Eu gostaria de dizer para as pessoas trans o seguinte: Você não está sozinhe, tem várias pessoas passando pelo que você está passando, vai tudo ficar bem. Fortaleça as pessoas trans que essa força vai te revitalizar. Pessoas trans juntes derrubam muralhas", completa.

Música

Uma oportunidade para isso é ouvir "Mergulho", Ep de estreia de Mumu, trabalho que fala sobre suas vivências, e carrega os traços de suas raízes. "Tenho orgulho da minha comunidade, pois é dela que eu tiro força e crio minhas tecnologias de sobrevivência a partir dos dispositivos de malandragem e esperteza. Transito em meio às guerras lembrando sempre de onde eu vim. Estamos vivendo o fim de um mundo, não é o fim por completo, é só mais um fim. Na verdade, são começos pra uma era de hackeamento de território e aparição. Temos agora a visão da eternidade, e nos permitimos imaginar nossos corpos nela".

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Legenda: Muriel, conhecida como Mumu, escolheu o mês representativo de junho para lançar seu primeiro Ep, Mergulho, produzido de forma independente com canções autorais
Foto: Ykaro Andrade

Marsha, Sy, Miranda, Mumu, Yara e tantas outras são símbolos de uma transancestralidade que não começa ontem nem termina hoje. Todas garantem, diariamente, o espaço que lhes pertence por direito. "Sempre faço questão de pontuar a importância das mulheres trans e travestis que lutaram antes de mim e que abriram portas para que hoje eu esteja, por exemplo, tendo a minha voz ouvida por este jornal. Eu fico extremamente feliz por saber que eu não sou a primeira e não vou ser a última", conclui Yara.

(*Colaborou: Ella Monstra)


Serviço

Mais sobre Marsha P. Johnson:
Filme "A morte e vida de Marsha P. Johnson", de David France - Netflix.

Mais sobre as entrevistadas:
Mumu: @mumutante
Silvia Miranda: @eysoumiranda
Sy Gomes: @synestesyaa
Yara Canta: @yaracanta