Música instrumental é tema de live reunindo Ivan Lins, Ricardo Bacelar e Cainã Cavalcante
Em entrevista, o carioca fala sobre "Paracosmo", álbum recém-lançado pelos instrumentistas cearenses, e sobre as alegrias e desafios atuais da arte musical
“A música instrumental tem muito do improviso; é a liberdade de cada um poder se expressar da sua maneira”, explica Ivan Lins, um dos grandes nomes da MPB e, deste panteão, um dos mais celebrados fora do Brasil. O tema - caro ao cantor, instrumentista e compositor carioca - é o mote da live que ele divide, nesta segunda-feira (7), às 19 horas, com os músicos cearenses Ricardo Bacelar e Cainã Cavalvante.
O encontro reúne três artistas de gerações distintas. Em comum, eles partilham a paixão pelo formato instrumental; pela música sofisticada, que convida o ouvinte à apreciação; e pelas sonoridades brasileiras. Não à toa, a live terá como ponto de partida o álbum “Paracosmo”, de Bacelar e Cainã, lançado no fim de maio.
“O disco é maravilhoso”, avalia Ivan Lins, sem fazer rodeios. “São dois músicos bastante talentosos e compositores muito inspirados. Fizeram um álbum com uma sonoridade brasileira, autoral, muito bem gravado, com um som muito bonito. É uma bela performance dos dois, em todas as partes. As músicas são lindíssimas, tem temas maravilhosos”, descreve.
Para Ivan Lins, “Paracosmo” tem boas chances de fazer sucesso junto ao público de música instrumental, não apenas no país. Isso por conta de uma de suas características mais marcantes do trabalho de Ricardo Bacelar e Cainã Cavalcante: é um disco profundamente brasileiro. “Quanto mais brasileiro você for, mais internacional você é. Essa é a grande verdade”, ensina.
Sofisticação
O álbum tem a marca da carreira solo de Ricardo Bacelar: a música pensada como uma peça sofisticada, que escapa à apreciação distraída. "Gosto muito de escrever músicas que ocupem um espaço de audição, em que a pessoa possa ouvir, refletir e realmente mergulhar”, explicou, em entrevista ao Diário do Nordeste.
A posição é partilhada por Ivan Lins. Para ele, o espaço para a música mais trabalhada diminuiu. "A música mais sofisticada, mais criativa, mais ousada... O mercado para ela diminuiu, porque a capacidade de compreensão desse tipo de trabalho diminuiu", diz. Segundo o músico, em parte isso se deu por uma mudança de hábito, quando a música passou a ser usada como uma trilha sonora para os afazeres do dia. "O mundo se tornou cada vez mais imediatista. As pessoas hoje usam menos a música como momento de lazer, de reflexão, de percepção de sentimento", compara.
A live é, também, um momento de celebração e partilha de uma amor em comum por esse tipo de música. Celebra, ainda, a amizade de longa data de Ivan Lins e Ricardo Bacelar.
“Nossos laços começam exatamente pelo mesmo instrumento que tocamos, o piano, e pelo gosto musical. Gostamos muito de música instrumental e nós dois começamos como músicos. Antes de me tornar compositor, intérprete, eu fazia música instrumental, na minha época, era jazz e bossa nova; o Ricardo era tecladista de uma banda de rock; e, depois, com o bom gosto e o talento dele, enveredou mais por essa área do instrumental”.
O gosto musical dos dois, explica Ivan Lins, é o mesmo. E ele elogia o amigo pelos seus dotes artísticos - “é um pianista com muita boa técnica, e inspirado - e por sua atuação no campo do Direito. No exercício da advocacia, Bacelar é uma referência na relação entre as leis e a cultura, especialista em direitos autorais. “Sempre acompanhei essa questão. É uma luta que tivemos sempre no Brasil e isso aumentou muito mais a nossa conexão”, explica Lins.
O veterano explica que a temática ganhou ainda mais atualidade e urgência, no contexto da pandemia. Com o correr dos anos, já havia reduzida bastante a arrecadação com direitos autorais de quem produz música mais elaboradas, fora do filão de entretenimento. As apresentações ao vivo eram, desde então, a principal fonte de instrumentistas que, com as regras de distanciamento social, ainda não foram plenamente retomadas. Ivan Lins lamenta a situação, que tem afetado artistas em todo o país.
Inovações e criação
No palco, Ivan Lins explica que aprecia a liberdade com que os músicos que o acompanham podem criar. “Gosto muito de mostrar, nos meus espetáculos, a habilidade dos meus músicos”, explica. Quase todas as músicas têm solos, onde os parceiros podem criar. Assim, conta Ivan Lins, cada espetáculo se faz único. “Todo mundo se arrisca, e os músicos podem colocar uma parte deles no espetáculo”, conta.
O risco, no sentido da criação artística, casa com a inquietação do criador. Segundo Ivan Lins, a música exige sempre uma novidade. Para ele, ficar preso num estilo é se tornar velho, artisticamente.
Quando você é compositor, você precisa de fontes de criação. Utilizo as fontes do passado, que são ricas, e as novidades, que estão muito mais voltadas para a tecnologia. É sempre bom estar atualizado.
Estar antenado, passear pelas inovações técnicas e estéticas. Ouvir o passado, o presente, criar canções para o futuro. Ao transitar por estes territórios, Ivan Lins dá a lição de que é preciso ser fiel a si mesmo. “Não abro mão da minha personalidade, da minha formação humana musical”.
Serviço
Live com Ricardo Bacelar, Cainã Cavalcante e Ivan Lins sobre o disco “Paracosmo” e a temática da música instrumental
Nesta segunda-feira (7), às 19h, por meio do perfil @maisbrasil, no Instagram