Livros de Rogaciano Leite são lançados por editora cearense em evento do centenário do poeta

Organizados pela filha do escritor, o clássico “Carne e Alma” e a coletânea de poemas “Coração Sertanejo” são apresentados ao público nesta quinta-feira (1º)

Distinto fomentador da cultura nordestina e expoente do registro desses saberes em solo cearense, Rogaciano Leite (1920-1969) ganhou projeção nos últimos tempos sobretudo por conta do centenário de nascimento, celebrado no ano passado. A data não apenas potencializou perspectivas sobre o legado do jornalista e poeta, como também revisitou, por meio de algumas atividades, aspectos caros de sua trajetória pessoal e profissional.

Uma efeméride que ganha mais um capítulo nesta semana, quando acontecerá um evento virtual em continuidade a esse movimento de tributo. A partir desta quinta-feira (1º), seguindo até sábado (3), a Prefeitura do município de Itapetim, em Pernambuco, realiza uma série de ações virtuais cujo intuito é mergulhar na poética e relevância cultural de Rogaciano. É na cidade em questão onde está localizada a Fazenda Cacimba Nova, ambiente natal do literato, além de uma estátua dele de corpo inteiro na praça que o celebra.

Cacimba Nova, inclusive, pertencia ao segundo distrito de São José do Egito em 1920, quando Rogaciano nasceu. Entretanto, após a divisão geopolítica ocorrida em 1953, o território ficou sob jurisdição da até então recém-criada Itapetim. Dessa forma, ambas as cidades consideram o escritor como seu conterrâneo, embora não apenas. O Ceará também abraça como filho aquele que tanto realizou em solo alencarino.

Muitas dessas paisagens literárias percorridas quando Rogaciano aqui esteve são recuperadas agora em dois volumes: o livro “Carne e Alma”, sua obra de estreia, há muito esgotada; e “Coração Sertanejo”, uma coletânea de poemas que atestam a versatilidade do trovador em utilizar a arte poética em diferentes manifestações. 

Ambos os títulos serão lançados pela editora cearense Imeph – o primeiro já na abertura do evento do centenário, nesta quinta-feira (1º), às 19h; e o segundo em dinâmica de pré-lançamento, com previsão de publicação para setembro deste ano. Na ocasião da live que celebra os 100 anos do poeta, serão reveladas e discutidas as capas dos dois trabalhos. A do lviro "Corpo e Alma", contudo, você já pode conferir ao longo desta matéria.

Horizontes redescobertos

Considerado uma obra-prima da literatura brasileira, “Carne e Alma” chega com toda a pompa de uma publicação especial de centenário. Organizada por Helena Roraima, filha de Rogaciano Leite, a obra preserva o conteúdo da primeira edição, de 1950, além de ser cravejada de outros detalhes. A capa e ilustrações, por exemplo, são assinadas por Maurício Negro, renomado artista gráfico brasileiro, e possui uma distinta impressão gráfica.

“Ela também mantém as dedicatórias, a apresentação de Rogaciano (intitulada ‘A Santos’), o prefácio de Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), as impressões da crítica e o conteúdo das capas e contracapas da primeira e da terceira edição”, detalha Helena. “Incluímos um texto introdutório, ‘Esta edição’, assinado por mim”.
Helena Roraima
Organizadora das obras e filha de Rogaciano Leite

Por sua vez, “Coração Sertanejo” reúne mais de 100 poemas escritos pelo autor, muitos deles inéditos – entre trovas, glosas, cantorias, poemas românticos, poemas musicados, poemas-crônicas e poemas-reportagens. A edição também será especial: o livro possui um tamanho diferenciado e está ilustrado com fotos, recortes de jornais e manuscritos do acervo da família. 

O público ainda poderá desfrutar de mais informações nas seções Notas e Referências, disponíveis no fim do volume. Nelas, será possível imergir, ao lado do escritor e com mais profundidade, no contexto de cada poema. “Com certeza serão dois livros que terão o máximo sucesso, pois foram pensados a partir dos leitores e em honra a um dos maiores poetas do Brasil”, situa Helena Roraima.

À frente da editora Imeph, responsável pelas duas publicações, Lucinda Azevedo recupera algumas das preocupações editoriais no trato dos exemplares. No caso de “Carne e Alma”, o foco residiu em ser absolutamente fiel à primeira edição, observando-se, com muito critério, a escrita da época. “Porém, procurou-se também trazer beleza e contemporaneidade, não à toa as ilustrações de Maurício Negro”, diz.

“O novo livro, ‘Coração Sertanejo’, exigiu uma criteriosa seleção dos poemas por seu significado e beleza, bem como das imagens, tendo-se contado sempre com a imprescindível colaboração da filha de Rogaciano e organizadora da obra, Helena Roraima Iracema Cavalcante Leite”, completa.

Enxergar o esplendor

Segundo Lucinda Azevedo, em ambos os trabalhos Rogaciano Leite esbanja toda a expressão de sua arte e, principalmente, o esplendor de sua poética. Afinal, o nordestino foi um artista de múltiplas facetas. Atuou sobremaneira como jornalista, poeta e cantador. No ofício da Comunicação, foi vencedor de dois prêmios Esso – hoje, Prêmio ExxonMobil, maior reconhecimento do Brasil no segmento. E junto ao amigo, o advogado Euclides Formiga (1924-1983), também era capaz de improvisar sonetos

Igualmente, foi o primeiro idealizador de festivais de cantoria, que realizava com muito êxito no Teatro Santa Isabel, no Recife (PE), e no Theatro José de Alencar, em Fortaleza. “A poesia não envelhece, pois é contemporânea do próprio tempo. No caso de Rogaciano, embora seja um mestre da nossa literatura, é de muito fácil leitura. Sua linguagem, ainda que rebuscada, é de simples assimilação. Ele é insuperável em inspiração, dominando também com maestria a poesia clássica”, destaca a editora.

Tendo nascido no berço dos cantadores de viola, o escritor foi um dos encarregados da urbanização da cantoria, outrora totalmente rural, trabalhando temáticas como o amor, o sertão e a natureza. Trata-se, assim, de uma das maiores expressões literárias da cultura pernambucana e cearense, uma vez tendo sido o poeta um grande caminhante entre esses dois territórios.

No posto de filha desse grande vulto, Helena Roraima considera que o Brasil atual desconhece um autor como Rogaciano Leite, que viveu pouco, mas deixou um extenso e importante legado para a cultura do País. 

“‘Um poeta diferente’, ‘Um fenômeno’, ‘Um poeta de outro mundo’, já estampavam as manchetes dos jornais da época. Um poeta com a capacidade de prender a atenção do público, em silêncio, durante três horas seguidas, nos principais teatros do país”, sublinha Helena.

“Um poeta que também fez calar uma multidão de quase 300 mil pessoas, no Vale do Anhangabaú, quando declamava emocionado um poema de improviso a Francisco Alves, em ‘Serenata ao cantor’, organizado por ele em 1952. Esse fenômeno na poesia precisa ser relembrado por nossa geração, e conhecido pelas novas”, percebe.
Helena Roraima
Organizadora das obras e filha de Rogaciano Leite

Por isso mesmo, a família alimenta o desejo de lançar os novos livros em todos os estados e cidades por onde Rogaciano passou e viveu. Serão também publicados no exterior e haverá um esforço para que cheguem às principais feiras de livros e literatura do mundo.

Nessa dinâmica, Helena ainda traz à superfície alguns dos aspectos mais relevantes da produção rogaciana, rica em vertentes que vão da poesia ao sertão, do repente ao improviso, abraçando uma brasilidade que também alcança reflexões mais elevadas, a exemplo de temáticas sociais e humanísticas.

“Sua escrita e a emoção que transmite em suas obras fazem o leitor viajar nesse mundo encantado da poesia. Numa linguagem bonita e intelectualizada, mas de fácil compreensão, unidas à musicalidade e à rima, transporta o público ao mundo mágico dos poetas”, sintetiza.

Outros passos

Iniciada no ano passado, a celebração do centenário de Rogaciano seguirá até o próximo ano. A proposta é editar todas as obras literárias de autoria do escritor – um acervo que ainda engloba crônicas, reportagens, pesquisas sobre os cantadores nordestinos, entre outros assuntos e gêneros.

Há também um projeto iniciado em 2020 que deve ganhar maior fôlego tão logo a pandemia de Covid-19 termine: o documentário “O Voo do Albatroz”, recuperando a vida e a obra do poeta. Além disso, a família está organizando um cordel ilustrado, a ser editado ainda neste ano, e um livro que conta a trajetória de Rogaciano Leite por meio da imprensa. Este último título será assinado pelos acadêmicos Aldo Branquinho Nunes e Lindoaldo Campos.

“Ideias não faltam para celebrar e lembrar Rogaciano. Um grupo de poetas repentistas se organiza para produzir glosas sobre a obra e vida do poeta para homenageá-lo em seu centenário. O conjunto das produções poéticas será organizada em livro”, conclui Helena.
Helena Roraima
Organizadora das obras e filha de Rogaciano Leite


Serviço
Lançamento dos livros “Carne e Alma” e “Coração Selvagem”, de Rogaciano Leite
Nesta quinta-feira (1º), às 19h, por meio de transmissão ao vivo pelo perfil da Prefeitura do município de Itapetim (PE), no facebook; pelo canal de poesia popular Bisaco do Doido, no YouTube; e pela Rádio Pedras Soltas FM. Programação virtual do centenário do poeta e jornalista segue até sábado (3), nas mesmas plataformas. A comercialização e distribuição dos exemplares das duas obras será feita pela Editora Imeph após o lançamento nas livrarias e na própria sede da editora, na Rua Carlos Vasconcelos, 1926, Aldeota, Fortaleza.


Carne e Alma
Rogaciano Leite
Organização: Helena Roraima

Imeph
2021, 264 páginas
R$ 60

 

Coração Sertanejo
Rogaciano Leite
Organização: Helena Roraima

Imeph
2021, 264 páginas
R$ 100

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