Cantador Geraldo Amâncio detalha influências de Rogaciano Leite em seu trabalho

Vencedor de 150 títulos de primeiro lugar em festivais de improviso no Brasil, artista dimensiona a herança deixada pelo poeta e jornalista pernambucano

Legenda: Geraldo Amâncio já promoveu mais de uma centena de festivais de viola, sendo referência nessa área
Foto: Natinho Rodrigues

Mais importante nome da cantoria cearense em atividade, Geraldo Amâncio já vivia há cinco anos dessa arte quando Rogaciano Leite faleceu, em 1969. Não à toa, lamenta por não ter tido oportunidade de conhecê-lo presencialmente, mas festeja o contato com a genialidade do poeta, iniciada por meio do livro “Carne e alma”. Era o enlace que precisava para adentrar, com mais profundidade, no ofício.

“Creio que a vontade de escrever poesia nasceu depois da leitura desse livro. Inclusive, já publiquei dez obras. O pioneirismo de Rogaciano também na promoção de festivais igualmente me serviu de luz, e já promovi vários”, conta o cantador, no posto há 56 anos.

“Rogaciano Leite nasceu no município na região do Sertão do Pajeú, em Pernambuco. A cidade é tão vocacional para a poesia que lá não se diz ‘bom dia, João' ou 'boa tarde, José’. Seja quem for é: ‘bom dia, poeta'; 'boa tarde, poeta'; 'como vai, poeta?’. Sou  testemunha ocular desse tratamento”, completa. “Ali nasceram os mais famosos cantadores do Brasil: os irmãos Batista, Lourival, Dimas e Otacílio. Ainda Jó Patriota, Zé Catota, Antônio Marinho e outros. Rogaciano foi contemporâneo da maioria”.

Participante de 200 festivais de improviso no Brasil – trazendo para casa 150 títulos de primeiro lugar – além de ter promovido mais de uma centena de festivais de viola e dos CDs gravados e cordéis escritos, Geraldo Amâncio enumera os nomes que hoje abrilhantam os palcos da cantoria em solo cearense, herdeiros da sementes cultivadas por Rogaciano Leite e Cego Aderaldo, por exemplo.

“Jonas Bezerra, Charles Gomes, Cicero Vieira,  Joás Rodrigues, Guilherme Nobre, Antonio Jocélio, e outros”, contabiliza. “Mas temos algumas carências na cantoria. Eu citaria carência de renovação de público, de inovação na cantoria e, principalmente, de apoio dos poderes públicos”.

Legenda: Geraldo Amâncio e Mestre Bule-Bule na Bienal Internacional do Livro do Ceará de 2017: poética que ressoa
Foto: Thiago Gadelha

Tributo

Referindo-se a Rogaciano como “astro insubstituível”, Geraldo lamenta o fato de o centenário do poeta, devido ao atual contexto, não ser comemorado como merece. 

Contudo, a parcela de contribuição dele para a data manteve o espírito de singularidade do momento. Amâncio escreveu três estrofes, as quais se encontram logo abaixo. São versos de grande reverência a um homem que revolucionou contextos e paradigmas.

Centenário de Rogaciano
Geraldo Amâncio Pereira

Nasceste no chão das rimas,
vieste como um tesouro, 
cinco anos depois de Louro,
um ano antes de Dimas.
Colheste as doces vindimas
da tua terra natal,
do teu estro genial
fizeste o teu passaporte
que te deu como suporte 
fama internacional.

O jornalismo te fez
merecedor de sucesso,
Inclusive o prêmio "Esso"
ganhaste mais de uma vez.
Gritaste com altivez
por um mundo igualitário.
Defendendo o proletário 
muitos artigos fizeste.
O Pajeú e o Nordeste
festejam teu centenário. 

Ninguém é como ele era,
No raciocínio humano,
um outro Rogaciano
um ser humano não gera. 
O Nordeste não espera,
a natureza  não cria. 
A morte chegou um dia
Interrompeu o seu canto,
O chão se cobriu de pranto,
O céu se encheu de poesia