Livro sobre o Cine Nazaré, último cinema de bairro ativo em Fortaleza, ganha lançamento virtual

Momento acontece nesta sexta-feira (10), às 16h, por meio do aplicativo Zoom; obra, de autoria da jornalista Julia Ionele, é publicada pelas Edições Inesp e narra os 79 anos de atuação e resistência do equipamento

Legenda: Localizado no bairro Otávio Bonfim, em Fortaleza, Cine Nazaré é símbolo de tradição e resistência
Foto: Sergio Poroger / Exposição Cine Mu(n)do

Pouco mais de oito décadas separam o instante atual do momento em que Raimundo Carneiro de Araújo, conhecido como seu Vavá, assistiu a um filme pela primeira vez. Foi em Fortaleza, no antigo Cineteatro São José, no Centro. As portas laterais do ambiente eram enormes, de modo que o menino, fugido de casa, se colocou numa posição em que era possível enxergar o que acontecia lá dentro. “Vi fotografias se mexendo, aquele pessoal passando na tela, os cowboys correndo... A minha paixão pelo cinema começou ali”, recorda o homem, cabelinho branco, de 89 anos.

A mesma ânsia infantil de saber o que se passava naquele ambiente escuro, onde apenas uma enorme tela iluminava rostos e poltronas, também acompanhou a jornalista Julia Ionele. Tinha pouco mais de quatro anos quando os pais compraram uma casa nos fundos de um cinema e ela ficava ali, a espreitar um senhor terminar as ocupações para, então, conversar sobre assuntos relacionados a filmes. Era seu Vavá. “Tudo isso ficou muito maior em mim quando fui chegando na adolescência e comecei a ter contato com a literatura. Daí, surgiu a vontade de, um dia, escrever um livro sobre isso”, conta Julia.

Legenda: Jornalista Julia Ionele e o proprietário do Cine Nazaré, Raimundo Carneiro de Araújo, o seu Vavá, conversam sobre o equipamento: décadas de ressonância da sétima arte
Foto: Filipe Pereira

A obra em questão é “Cine Nazaré - Um cinema vivo”, apresentada, em 2017, como Trabalho de Conclusão do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Ceará, e, agora, publicada pelas Edições Inesp, do Instituto de Estudos e Pesquisas sobre o Desenvolvimento do Estado do Ceará, órgão da Assembleia Legislativa.

O lançamento do livro acontece nesta sexta-feira (10), às 16h, por meio de transmissão ao vivo pela plataforma Zoom. O momento contará com a presença de Julia Ionele, autora do material, e do deputado estadual Acrísio Sena. A jornalista Luiza Batista fará a mediação.

Na conversa, ganhará destaque não apenas a maneira como o exemplar foi concebido, mas, sobretudo, a relevância do Cine Nazaré para a paisagem cultural de Fortaleza. O equipamento, localizado no bairro Otávio Bonfim, é o último cinema de bairro em atividade na Capital, conservando um maquinário das décadas de 1920 e 1930, além do acervo de duas mil películas, arquivos raríssimos que sustentam a paixão pela sétima arte em seus primórdios.

Aprofundamentos

O livro é dividido em quatro capítulos, entremeando diferentes períodos da trajetória do equipamento com relatos de seu Vavá e outras pessoas. “Nasce o Cine Nazaré” abre a obra, detalhando a construção do cinema e os anos iniciais de funcionamento; na sequência, “A reabertura do Nazaré” foca na segunda fase do empreendimento, no final dos anos 1960; “Cine Nazaré é resistência” joga luz sobre a reabertura dele nos anos 2000 e nova forma de funcionamento; por fim, “Cine Nazaré vive” busca suscitar reflexões sobre o que será do cinema nos próximos anos.

Legenda: Seu Vavá é proprietário do Cine Nazaré desde 1970 e segue, aos 89 anos, conservando o espaço
Foto: Filipe Pereira

Julia Ionele destaca o que já era do conhecimento dela acerca do Cine e o que foi surpresa no processo de apuração das informações. Sabia, por exemplo, que ele foi construído sobre uma lagoa, a antiga Lagoa da Onça. Quando chovia, o volume das águas subia e as pessoas tinham que assistir aos filmes com os pés levantados. “Também sabia que o muro caiu na inauguração devido à lotação para assistir ao filme ‘O ladrão de Bagdá’, em 1941”, detalha.

“Mas muita coisa eu desconhecia e soube por meio das pesquisas. Uma delas era o nome. Cine Nazaré é uma homenagem a Nossa Senhora de Nazaré, padroeira do Pará. Era de lá que dona Hernestina, primeira dona do equipamento, vinha”, completa. “Minha maior descoberta e presente foi também conhecer tantos filmes, atores, biografias, gêneros, músicas e a história de nossa cidade, que anda lado a lado com o Cine Nazaré”.

De fato, ao reconstruir os percursos do cinema como instrumento de pioneirismo e resistência, a obra passeia pela Fortaleza das décadas passadas, capturando o espírito de novidade dos diferentes períodos, especialmente com relação à apreciação da sétima arte.

“A peculiaridade do Cine Nazaré é porque ele existe, ainda está aqui, o que não podemos dizer do Cine Odeon, Cine Familiar, Cine Diogo, Cine América, Cine Luz, Cine Art Palácio, entre tantos outros que fecharam as portas. Ele é o que restou de uma Fortaleza tão rica e tão cheia de cinemas”, salienta Julia.

Legenda: Localizado no bairro Otávio Bonfim, na Capital cearense, Cine Nazaré mantém um acervo de mais de duas mil películas e muitas histórias para contar
Foto: Sergio Poroger / Exposição Cine Mu(n)do

Continuidade

Parado por medidas de segurança, devido à pandemia do novo coronavírus, o Cine Nazaré deve reabrir as portas tão logo o nebuloso momento passar. Será quando seu Vavá – proprietário do espaço desde 1970 – permitirá entrada gratuita às quartas-feiras de modo a lotar os 80 lugares que o tradicional ambiente comporta.

“Agora, estou colocando um piso novo e mandei fazer a porta de emergência, por conta das leis de nosso País, pra ficar tudo bonitinho”, diz, por telefone, com voz forte e lucidez tamanha. “Espero completar meus 90 anos em outubro com as pessoas por aqui, assistindo a um bom filme”.

É uma fala comovente e inspiradora de uma figura quixotesca, tida por muitos como maluco, segundo ele, por apostar no amor pela arte na telona. “Não bebo cachaça, não fumo, não jogo. Corri atrás de futebol até o dia que eu notei que estavam roubando lá dentro; caí fora e nunca mais voltei. Restou o cinema”, explica. “Só de VHS, tenho uns dois mil filmes; em DVD, também tenho um bocado. Ainda hoje, recebo mais material”.

O filme preferido ele não sabe dizer – cita “Casablanca” (1942), de Michael Curtiz, e “O Rei dos Reis” (1961), de Nicholas Ray, entre outros – mas alimenta a certeza de que não se fazem filmes como antigamente. É por meio dessa perspectiva que resiste com o Cine Nazaré, no número 65 da Rua Padre Graça, a fim de convidar novas e antigas gerações a conhecer ou re-conhecer as produções que entraram para a história do cinema.

Legenda: O equipamento deve reabrir após a pandemia do novo coronavírus, funcionando às quartas-feiras com entrada gratuita
Foto: Filipe Pereira

No fim das contas, seu Vavá também considera que o livro sobre o equipamento será valioso para que os leitores compreendam a força de resistir ao tempo por meio da paixão pela cultura. “Vai ser coisa de arquivo, de orientação. A pessoa vai olhar para aquele livro e vai dizer, ‘rapaz, mas não é possível’”, ri.

No posto de narradora dessa história, Julia Ionele também destaca a relevância de trazer o exemplar à tona.

“É importante para que as próximas gerações conheçam a verdadeira essência do cinema. As crianças de hoje conhecem o cinema de shopping, não o cinema como ele verdadeiramente é. Conhecem produções digitalizadas em 3D, 4D, e não a produção simples e de boa qualidade, com cenários manuais e performances que, como sabemos, nunca mais irão aparecer, como as de Oscarito, Vicente Celestino, Carmen Miranda... O Cine Nazaré é essencial para entender a sociedade de Fortaleza e os costumes das gerações passadas”.

Ela igualmente adianta que a tiragem de exemplares físicos da obra está pronta desde janeiro, aguardando a pandemia passar para chegar às mãos dos leitores.

E também deixa entrever um detalhe especial:  "O professor do curso de jornalismo da UFC e orientador do livro, Ronaldo Salgado, estará presente na transmissão via Zoom. O conhecimento e a dedicação dele foram essenciais para que o livro-reportagem saísse. Não teria como ter sido orientada por outro professor. Estou muito feliz. Posso dizer que, enfim, estou riscando da minha lista de sonhos a publicação do livro, aquele sonho que tive em 23 dezembro de 1999, quando conheci o cinema".

Presidente do Inesp, João Milton Cunha de Miranda ressalta que o fato de tornar o livro conhecido e acessível – está disponível para download gratuito no site da Assembleia Legislativa do Ceará – faz as Edições Inesp renovar o compromisso com a história do Ceará e a vida do povo cearense.

“Publicar sobre a história do cinema cearense pelas mãos da jornalista, assessora parlamentar e escritora Julia Ionele é mais do que historicizar a saga do Cine Nazaré: é emocionar pela pluralidade dos comportamentos, das nossas crenças, da nossa arte e da nossa intelectualidade coletiva”, conclui.

Serviço
Lançamento do livro “Cine Nazaré - Um cinema vivo”, de Julia Ionele
Nesta sexta-feira (10), às 16h, por meio de transmissão ao vivo pela plataforma Zoom (link: https://us02web.zoom.us/j/81823646241?pwd=S0o5RGZkc004eE1WSDRqcWRqWVo0Zz09 // Meeting ID: 818 2364 6241 / Senha: 799109)

Cine Nazaré - Um cinema vivo
Julia Ionele

Edições Inesp
2020, 62 páginas
Disponível gratuitamente para download no site do Inesp