Jabuti destaca obras sobre racismo e premia poeta pernambucana

O romance "Torto Arado", de Itamar Vieira Junior, e "Pequeno Manual Antirracista", de Djamila Ribeiro, também venceram em suas categorias

Legenda: O Livro do Ano foi "Solo para Vialejo", da pernambucana Cida Pedrosa
Foto: Divulgação/ Prêmio Jabuti

Na sua 62ª edição, o prêmio Jabuti seguiu sua tendência recente de destacar obras publicadas por casas independentes. O Livro do Ano foi "Solo para Vialejo", da pernambucana Cida Pedrosa, publicada pela Cepe Editora, também de Pernambuco.

No ano passado, o escolhido foi o ensaio "Uma História da Desigualdade", da editora especializada Hucitec, e dois anos atrás o também poeta Mailson Viana chamou atenção ao ser premiado por um livro publicado de forma autônoma.

"Este é um livro da volta, uma migração ao contrário, do mar para o sertão", disse a autora em seu agradecimento. "Eu conto onde encontro minha ancestralidade, minha avó índia, meu pai, descendente de portugueses. As palavras e os sons da minha memória não cabiam mais na cabeça e tinham que se espraiar na forma de um livro."

Não é a única vitória da autora este mês, aliás. Pedrosa foi eleita vereadora do Recife no último dia 15, pelo PC do B, partido para o qual ela diz que vai ceder parte do prêmio. Ela foi titular da Secretaria da Mulher da capital pernambucana.

Na categoria Capa, foi premiado "Penitentes - Dos Ritos de Sangue à Fascinação do Fim do Mundo", da editora cearense Tempo d'Imagem. As capistas responsáveis pela obra são Isabel Santana Terron, Beatriz Matuck e Luisa Malzoni.

O romance "Torto Arado", de Itamar Vieira Junior, confirmou o favoritismo em sua categoria, batendo concorrentes fortes como Chico Buarque, Paulo Scott, Maria Valéria Rezende e Adriana Lisboa.

O livro, publicado pela Todavia, narra o crescimento de duas irmãs em uma fazenda no interior do Brasil, numa trama que se desenvolve para refletir sobre a ancestralidade negra e a resistência dos povos quilombolas.

O debate sobre racismo deu o tom de várias das escolhas da edição deste ano. Djamila Ribeiro teve seu "Pequeno Manual Antirracista" premiado como Melhor Livro de Ciências Humanas, vencendo concorrentes fortes como Ailton Krenak, Lilia Schwarcz e Heloisa Starling.

Além disso, saíram com prêmios o primeiro volume do projeto "Escravidão", do jornalista Laurentino Gomes, na categoria de biografia, documentário e reportagem, e o juvenil "Palmares de Zumbi", de Leonardo Chalub.

Entre os livros infantis, o escolhido foi "Da Minha Janela", de Otávio Júnior, contado do ponto de vista do morador de uma favela do Rio de Janeiro. A Festa Literária das Periferias (Flup) foi premiada na categoria fomento à leitura.

A veterana Nélida Piñon ganhou entre as crônicas com "Uma Furtiva Lágrima", livro que publicou ano passado pela Record logo antes de voltar aos romances com "Um Dia Chegarei a Sagres". O romance anterior da ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, "Vozes do Deserto", ganhou o Jabuti de Livro do Ano há 16 anos.

Carla Bessa foi a contista laureada desta edição por "Urubus", que saiu pela editora Confraria do Vento. Na nova categoria de romance de entretenimento, inaugurada este ano, o escolhido foi Raphael Montes, pelo thriller "Uma Mulher no Escuro".

Detalhes

A homenageada da edição foi a poeta mineira Adélia Prado. A autora fez uma rara aparição por vídeo, defendendo o poder da literatura de "fraternizar as pessoas". "Que toda aquela letra que possa produzir beleza possa continuar levando para pessoa aquilo que há de mais importante, o sentimento, aquilo que nos torna humanos". A poesia, disse ela, "é o rastro divino na brutalidade das coisas".

Apresentado pela jornalista Maju Coutinho, o prêmio começou com manifestações em defesa das livrarias, fortemente afetadas pela crise do coronavírus –divulgando projetos como o Retomada, que direcionou R$ 10 mil a mais de 50 estabelecimentos– e contra a taxação de livros proposta na reforma tributária do governo Jair Bolsonaro.

"O livro não deve ser qualificado e muito menos taxado como um produto para a elite", afirmou Vitor Tavares, presidente da Câmara Brasileira do Livro, trazendo dados que apontavam o interesse das classes sociais mbais baixas em consumir obras literárias.

Ao final da cerimônia, Tavares agradeceu ao editor Pedro Almeida, que renunciou à curadoria do Jabuti no começo do ano após se envolver em polêmica. Uma carta com mais de 5.000 assinaturas pediu sua saída do cargo após o editor fazer uma publicação, em redes sociais, que minimizava as mortes pelo coronavírus.

Ruy Castro e Reinaldo José Lopes, ambos colunistas deste jornal, estavam entre os finalistas da premiação, respectivamente, nas categorias de biografias e de ciências.

Você tem interesse em receber mais conteúdo de entretenimento?

Assuntos Relacionados