Além do Late Coração: versões brasileiras de músicas estrangeiras fazem sucesso desde a Jovem Guarda

Sucessos de Nirvana, Madonna, Cher, Scorpions e muitos outros nomes de peso do mercado internacional ganharam outra identidade na voz de músicos brasileiros

Um uivo conseguiu conectar diferentes universos musicais. James Blunt gostou de ouvir o seu "Ráh u, u, u, u, u" no refrão do sucesso "Coração Cachorro (Late Coração)". O dueto entre Ávine e Matheus Fernandes ganhou visibilidade internacional e rendeu um acordo camarada com o inglês. 

De homenageado, o cantor passou a coautor da música e assegurou 20% dos direitos. Talvez Blunt desconheça um detalhe. Ele não é o primeiro e nem será o último artista estrangeiro a ganhar uma versão brasileira. Da Jovem Guarda ao Forró Eletrônico, a lista é repleta de estrelas de ambos os lados.

The Beatles, Madonna, Pink Floyd, Celine Dion, Scorpions e muitos outros figuram neste filão. Até Kurt Cobain (1967-1994) ganhou espaço no som do paredão. Versões em português para sucessos lá de fora são comuns há décadas no mercado brasileiro.

Nesse quesito, a turma da Jovem Guarda demarcou território nos anos 1960. Sem exageros, é possível observar que o reinado de Roberto Carlos despertou assim. O capixaba começou a carreira gravando bossa nova, mas nada que chamasse atenção do público. 

Início da parceria entre o Tremendão e o Rei
Legenda: Início da parceria entre o Tremendão e o Rei

A virada veio em 1963 com o lançamento de "Splish splash". A leitura do sucesso norte-americano de Bobby Darin (1936-1973) foi o trampolim do sucesso. Outro fato aqui é bastante simbólico. Quem assina a versão é Erasmo Carlos. Ou seja, a partir de uma versão, começava uma das parcerias mais bem sucedidas da MPB, comercial e artisticamente falando. 

A banda que acompanha Roberto em "Splish splash" é o Renato e seus Blue Caps. Além dos trabalhos autorais, são deles algumas das mais conhecidas regravações dos Beatles no Brasil. Como não lembrar de "Feche os Olhos (All My Loving)".

Gosto popular

Outro fenômeno ocorre nos anos 1970. É quando cantores brasileiros estouram no mercado com nomes artísticos estrangeiros. Conhece o cantor Mark Davis? Pois bem, tratava-se do Fábio Júnior. Essa artimanha e outras histórias do pop nacional são contadas na série "Historia Secreta do Pop Brasileiro", dirigida pelo jornalista André Barcinski

Montagem com fotos de Ávine Vinny e Matheus Fernandes (à esquerda) e James Blunt (à direita)
Legenda: Cantor inglês chegou a publicar vídeo dançando a música dos brasileiros
Foto: divulgação; reprodução/Instagram

Recorrer a sucessos importados independe de ritmo ou nacionalidade. "Era um Garoto Que Como Eu Amava os Beatles e os Rolling Stones" é conhecida no repertório dos Engenheiros do Hawaii. Mas, antes, passou pelas mãos da banda Os Incríveis que adaptaram a italiana "C'era un ragazzo". 

Angélica anteviu os dilemas contemporâneos da mobilidade urbana cantado "Vou de Táxi" em 1988. A criançada cantava os versos "Mas no banho, foi só me tocar. De repente, lembrei do teu olhar" e não sabiam que a original "Joe Le Taxi" era da francesa Vanessa Paradis. Já nos 2000, Latino se ligou de uma boy band da Moldávia e se deu bem nas paradas com "Festa no Apê"

Forró na ponta

No artigo cientifico "Nem original, nem cópia: versões musicais entre o mainstream e a periferia", os pesquisadores Jeder Silveira Janotti Junior e Rafael Andrade de Oliveira e Silva lançam discussão acerca desta forma de consumo musical. A pesquisa ultrapassa a ideias de “original” e “cópia”. Traça reflexões de como o pop de grandes centros chegam e circulam em regiões  distantes.

"As versões musicais periféricas surgem a partir do acionamento de músicas produzidas inicialmente nos mercados dos países ditos desenvolvidos, mas são deslocadas do centro para a periferia através da articulação de gêneros musicais regionais, como o Forró Eletrônico e o Tecnobrega no Brasil".

E o Forró Eletrônico, atestam os autores, se destaca como um dos principais gêneros musicais brasileiros quando o assunto é versão de músicas do mainstream internacional. Para acompanhar esta leitura recomendada, nada melhor do que uma playlist com os forrós internacionais "Made in Nordeste".

Aviões do Forró ("Se Não Valorizar") X Rihanna (“Umbrella”)

Limão com Mel ("Um Sonho de Amor") X Simon & Garfunkel ("The Boxer")

Forró do Muído ("Sorte") X Jason Mraz feat. Colbie Caillat ("Lucky")

Forró Estourado ("Liga o Som") X Nirvana ("Come As You Are")

Noda de Caju ("Teu Calor") X Bee Gees (“How Deep Is Your Love”)

Calcinha Preta ("Falando Pra Lua") X Bruno Mars ("Talking to the Moon")

Painel de Controle ("Telefona-Me") X Madonna ("Like a Prayer") 

Forró Corpo De Mulher ("Te Amo Pra Sempre) X Europe ("The Final Countdown")

Forró da Brucelose & Gilson Neto ("Te Quero Mais") X Guns N' Roses (“Sweet Child O’Mine”)

Desejo de Menina ("A Força do Amor") X Kelly Clarkson (“Breakaway”)

 

De olho na lei

"Versão" caracteriza-se por ser uma nova obra, derivada de uma original já existente. A Lei 9.610/1998 considera "autor" como "pessoa física criadora". No território da música temos o "autor" ou o "compositor". Eles podem autorizar que seja feita uma versão da sua obra, nascendo aí a figura do "autor-versionista". 

A União Brasileira de Compositores (UBC) explica que "Não havendo autorização para a realização da versão, e/ou para a participação do versionista nos rendimentos, os valores arrecadados serão distribuídos exclusivamente para os titulares da obra original". 

O versionista precisa de autorização do autor da obra original para vender sua versão. Outra situação é possível, por exemplo, quando há o interesse de comercializar uma versão já existente. Nesse caso tem que ter permissão tanto do autor quanto do versionista. O Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) traz as regras para cadastro da versão aqui.  

 

 

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