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Cinco pontos para entender por que Juazeiro do Norte virou central na disputa entre base e oposição

Localizado em uma região onde lideranças de esquerda têm forte influência, o município virou uma base de resistência da oposição.

Escrito por
Igor Cavalcante igor.cavalcante@svm.com.br

Neste sábado (7), a Câmara Municipal de Juazeiro do Norte entrega a mais alta honraria da Casa ao ex-ministro Ciro Gomes (PSDB). A concessão da comenda, justificada como um reconhecimento ao legado político do ex-governador, também mira em uma eventual candidatura do tucano como nome de oposição ao governo Elmano de Freitas (PT).

A escolha de Juazeiro do Norte não é casual. O município ocupa posição central em uma região historicamente associada à esquerda no Ceará, mas que, nos últimos anos, passou a concentrar embates diretos entre a base governista e a oposição. Nesse contexto, a cidade se consolidou como uma das principais frentes de resistência ao Palácio da Abolição.

Um sinal dessa força ocorrerá no próprio sábado, quando Ciro, após receber a homenagem, deve reunir aliados na Câmara Municipal para um “café da oposição” no município. Há pouco mais de uma semana, foi a vez do senador Eduardo Girão (Novo) lançar sua pré-candidatura ao Governo do Ceará em Juazeiro do Norte

Para a cientista política Cleris Albuquerque, às vésperas de uma eleição que se desenha acirrada, Juazeiro do Norte, o maior colégio eleitoral fora da Região Metropolitana da Capital, aparece como território estratégico para os dois campos que disputam o comando político do Estado.

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era o tamanho do eleitorado de Juazeiro do Norte nas últimas eleições.

"Além de ser a maior cidade (do interior), seu colégio eleitoral pode ser decisivo na disputa política em 2026. Não por acaso, as articulações políticas da base e da oposição buscam trazer esse importante eleitorado para o seu lado. Ter bons padrinhos políticos na região não é garantia de vitória, mas pode fazer a diferença e tornar a disputa mais acirrada", ressaltou.

Movimentos pré-eleitorais e reflexos na gestão

Desde 2021, o município se tornou um ponto de tensão para a articulação política do governo estadual. O desgaste se aprofundou ao longo do tempo e ganhou novos contornos no pleito municipal de 2024, quando colocou frente a frente o amplo arco de aliança das lideranças estaduais e uma frente ampla de nomes que integram a oposição ao governador Elmano de Freitas. 

O episódio mais recente desse tensionamento envolveu a vice-governadora Jade Romero (MDB). Em meio a um embate político com o ex-deputado federal e presidente estadual do União Brasil, Capitão Wagner, ela afirmou que Juazeiro demorou a aderir a uma iniciativa estadual de enfrentamento à violência contra a mulher e questionou o prefeito Glêdson Bezerra (Podemos) sobre a ausência da Casa da Mulher no município.

Em resposta, o gestor municipal disse que a vice-governadora foi contraditória, acusou o Governo do Estado de usar sua imagem para promoção política e afirmou que Juazeiro não recebe recursos suficientes por “picuinha política”.

A troca de acusações se intensificou na última segunda-feira (2), quando o secretário-chefe da Casa Civil, Chagas Vieira, também entrou no embate. Ele contestou as críticas do prefeito e garantiu que o governo atua de forma institucional junto aos municípios. “É lamentável, ele não fala a verdade. Infelizmente ele tem transformado algo que deveria ser uma relação amistosa. O governo respeita todos os municípios”, afirmou.

O conflito entre Glêdson e Chagas, porém, não é recente. No fim do ano passado, o prefeito acusou o Estado de atrasar o pagamento de dívidas com o município. À época, o secretário rebateu as declarações acusando o gestor de ser “fanfarrão” e de tentar “esconder sua incompetência”.

Um prefeito fiel à oposição

Eleito em 2020 como um candidato outsider, sem apoio de grandes grupos da política estadual, Glêdson Bezerra passou a ser visto pela oposição como uma vitrine administrativa e eleitoral. Mesmo tendo sido cortejado por governistas em diferentes momentos, o prefeito manteve alinhamento com os oposicionistas.

No fim do ano passado, o gestor foi elogiado publicamente por Ciro Gomes, sendo referenciado como um dos maiores prefeitos do Ceará. O reconhecimento ocorreu durante o evento de filiação do ex-ministro ao PSDB, ato em que, nos bastidores, o nome de Glêdson chegou a ser citado como possível candidato a vice-governador em uma eventual chapa liderada pelo tucano.

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Questionado sobre essa possibilidade, o prefeito foi cauteloso. “Não vou dizer que ‘dessa água eu não beberei’”, pontuou.

O fortalecimento da figura de Glêdson cresceu em 2024. Mesmo disputando o pleito contra Fernando Santana (PT), que recebeu apoio de toda a base governista, o prefeito foi reeleito em Juazeiro do Norte. O feito foi considerado histórico para analistas políticos, já que o município nunca havia reeleito um prefeito.

Na avaliação de Cleris Albuquerque, a reeleição de Glêdson alterou o desenho político da região e cacifou o político como um aliado estratégico no Estado.

"Esse feito mostra um novo delineamento político para aquela região, principalmente por ter derrotado um candidato do PT, mostrando-se como uma força de destaque na oposição, Com isso, Gledson tornou-se referência em um contexto político polarizado. O apoio dele a nível estadual pode dar muita dor de cabeça para a reeleição de Elmano de Freitas. Destaca-se o movimento de outros prefeitos que aderiram à base, dando, de certo modo, mais destaque a atuação oposicionista de Gledson"
Cleris Albuquerque
Cientista política

Berço político de Camilo Santana e fortaleza da base petista

Juazeiro do Norte também é estratégica por concentrar a maior força econômica do Cariri, região essa considerada um reduto do PT no Ceará. Nas últimas eleições gerais, por exemplo, o presidente Lula (PT) ultrapassou 90% dos votos em alguns municípios caririenses.

A região concentrou, inclusive, os cinco municípios onde o PT obteve seus melhores desempenhos eleitorais. Em Juazeiro do Norte, Lula alcançou 76,3% dos votos no segundo turno.

Além dos números eleitorais, a região tem peso simbólico para o campo governista por ser o berço político do ministro Camilo Santana, principal liderança do grupo no Estado. Natural de Barbalha, ele iniciou sua trajetória política no Cariri e disputou duas eleições para prefeito do município, mas não conseguiu ser eleito.

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Em 2006, o petista coordenou a campanha de Cid Gomes ao governo do Ceará, experiência que o projetou para assumir uma secretaria no Executivo estadual após a vitória. Em 2022, já como governador, ele reforçou a relação com a região ao reservar para o Cariri suas últimas agendas no cargo antes de deixar o Palácio da Abolição para disputar o Senado. O território também concentra investimentos estruturantes do Estado e do governo federal, frequentemente citados por aliados dos petistas como evidência de alinhamento institucional.

Juazeiro como polo de resistência da oposição

Apesar da força governista no Cariri, Juazeiro do Norte se consolidou como um polo de resistência oposicionista, sobretudo pela atuação política de Glêdson Bezerra. Com postura pragmática desde o primeiro mandato, o prefeito chegou a apoiar Jair Bolsonaro (PL) e, ainda durante o governo Camilo Santana, ensaiou uma aproximação com a base estadual ao apoiar a candidatura do petista ao Senado.

Desde então, porém, manteve-se na oposição. No mesmo período, outros gestores eleitos fora da base, como Vitor Valim (PSB), em Caucaia, Professor Marcelão (PT), em São Gonçalo do Amarante, e Roberto Pessoa (União), acabaram aderindo ao governo estadual. Já Glêdson permaneceu como exceção.

Essa fidelidade tornou-se um laboratório político da aproximação entre ciristas e bolsonaristas no Ceará. Ainda em 2024, Ciro Gomes, o ex-prefeito Roberto Cláudio, Carmelo Neto (PL) e lideranças do PSDB e do União Brasil dividiram o mesmo palanque em Juazeiro do Norte. Aquela articulação inédita serviu de base para a construção de uma frente ampla de oposição no Estado.

"Naquele momento, o resultado mostrou-se positivo. A estratégia esse ano vai ser aprimorada para tentar alçar voos mais altos. Será uma eleição desafiadora? Sim. Mas os padrinhos políticos podem ter grande influência e ser decisivos", completou a cientista política Cleris Albuquerque.

Lideranças políticas em cima de um palanque. Um locutor fala ao microfone enquanto Glêdson Bezerra faz um sinal com o polegar. Ao lado dele, políticos como Ciro Gomes, Roberto Cláudio, Carmelo Neto, entre outros.
Legenda: Ciro Gomes, Roberto Cláudio e Carmelo Neto dividiram palanques no Cariri durante as eleições de 2024.
Foto: Reprodução/Instagram Roberto Cláudio

Peso religioso, cultural e político de Juazeiro do Norte

O papel do município na disputa política estadual também se explica pela própria origem, profundamente ligada à política e ao poder simbólico exercido por lideranças locais desde o início de sua formação. A cidade nasceu e se estruturou a partir da figura de Padre Cícero, cuja influência extrapolou o campo religioso e moldou alianças políticas no Ceará. Ele, inclusive, foi o primeiro prefeito do município, que é parada recorrente de candidatos ao Governo do Ceará e até à Presidência da República.  

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Esse traço faz do terceiro maior colégio eleitoral do Estado um polo permanente de disputa no interior do Estado. Essa influência se revela ainda com o surgimento de lideranças locais que passaram a ter alcance estadual.

A reputação de cidade avessa à continuidade administrativa, rejeitando a reeleição dos mandatários — com exceção de Glêdson —, também reforça essa posição estratégia para lideranças estaduais. 

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