A trajetória de Padre Cícero na história e na política do Ceará

Cícero Romão Batista, o padre/herege, o coronel/benfeitor poderia ser facilmente parte da fauna política caótica de 2022, e foi

Escrito por
Paulo Airton Damasceno ceara@svm.com.br
(Atualizado às 12:22)
Imagem do Padre
Legenda: Minha avó não dormia com o retrato do vovô, nem de nenhum de nós, dormia com alguém que ela não conhecera, mas, por quem ela tinha profunda afeição
Foto: Kid Júnior

Quando estava nos primeiros anos do curso de História, encontrei debaixo do travesseiro da minha avó uma foto do Padre Cícero quando menino, joguei a foto fora, foram semanas sem o sorriso e a benção de D. Maria das Dores. Meu prepotente cientificismo juvenil justificava que “aquele coronel” não merecia todo aquele alvoroço. Não entendia à época o quão pouco acadêmico e científico eu fui diante daquele interessante fenômeno.

Minha avó não dormia com o retrato do vovô, nem de nenhum de nós, dormia com alguém que ela não conhecera, mas, por quem ela tinha profunda afeição.

Na transição do século XIX para o XX, a igreja católica romana recebeu notícia de um milagre, a hóstia dada por um padre do sertão brasileiro a uma beata negra e pobre teria se tornado sangue eucarístico. Milagre ou fraude, a crença no sangue derramado passou a reunir cada vez mais curiosos e fiéis.

Veja também

Sedentos de uma nova realidade, muitos sertanejos buscaram algum sinal de mudança, a migração em massa e a popularidade do padre do lugarejo gerou um confronto entre o milagreiro e o arcebispo, o veredito do Tribunal do Santo Ofício deveria ter posto fim à contenta, nada havia de sobrenatural nos milagres.

A arquidiocese, a beata e o padre, mas, a condenação, no lugar de silenciar o evento, o eleva à parte central da transformação da região em centro de fé e do padre em Santo popular. O Padim Pade Ciço vira uma das personagens mais marcantes da primeira república.

Cícero Romão Batista, o padre/herege, o coronel/benfeitor poderia ser facilmente parte da fauna política caótica de 2022, e foi. O presidente eleito Lula, em visita ao Cariri, se comparou ao Padre Cícero na luta contra os pobres e na perseguição política, o atual presidente Jair Bolsonaro declarou, com uma imagem do padre sobre a cabeça, que era a continuidade da defesa de suas bandeiras, ambos, então candidatos à presidência, buscavam angariar o capital social e político de Romão.

Veja também

A própria trajetória desses dois líderes de massa, cada um a seu modo, explica a busca pelo padim. Lira Neto, biógrafo do religioso, já destacou o magnetismo pessoal extraordinário do cearense, articulando políticos, grandes proprietários de terra, intelectuais, camponeses, marginais, desvalidos e toda a sorte de gente, o entorno do Padre é lócus privilegiado de estudo e compreensão do Ceará e do Brasil.

Padre Cícero costuma ser visto como o grande líder de Juazeiro do Norte, mas no âmbito religioso, social e político ele transcende o Cariri e deve ser, materialmente, colocado como um dos grandes nomes da política republicana nacional. Sua conexão com as camadas dominantes e inserção nas bases produtivas, contribuiu para a estabilização, investimento e a prosperidade de Juazeiro do Norte.

Ao lado do político Floro Bartolomeu debutou eleitoralmente, foi prefeito, deputado e vice-governador, capitaneou políticas públicas que moldaram toda a região, se correspondeu com os mais relevantes políticos do país e suas cartas indicam uma grande força de articulação.

Em tempos de presidencialismo de coalizão e de aproximação agressiva entre religião e voto, entender as estratégias políticas de Padre Cícero é de grande ajuda na leitura política do país.

Há no padre de Juazeiro do Norte uma proximidade, uma familiaridade, uma esperança de cuidado e salvação não apenas da alma, mas da matéria, como no caso do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, fundado em 1926 no Cariri, sob sua orientação e liderança do beato José Lourenço, importante líder campesino.

O Caldeirão foi uma experiência comunitarista singular e significativa, onde o que se produzia era dividido de forma igualitária, pensado na coletividade, o modo de produção da fazenda era perigoso à ordem vigente. O padre não foi o autor desse projeto, mas sua proteção o fez seguir, logo após sua morte os ataques se intensificaram até a destruição dessa rica experiência campesina.

Juazeiro do Norte
Legenda: Há no padre de Juazeiro do Norte uma proximidade, uma familiaridade, uma esperança de cuidado e salvação não apenas da alma, mas da matéria
Foto: Kid Júnior

Finalizo com o que acredito ser um dos mais importantes fatores históricos acerca do Padre Cícero. Não importa a metafísica do milagre, não importa se a foto de menino padre da minha avó era falsa, nem que ele atendesse e acolhesse bandidos, nem que ele fosse grande proprietário rural, como em fenômenos políticos recentes, isso deve ser entendido menos como contradição e mais como resultado de uma realidade social, ampla, complexa e multifacetada.

Esta notável figura, sem buscar um juízo de valor binário e dualista, é o epicentro de uma construção identitária nordestina. Floro Bartolomeu era baiano, José Lourenço era paraibano, Lampião, seu devoto, era pernambucano, milhões de “nortistas” que indo e vindo em torno da figura do ‘padre santo’ transformado em estátua criam uma gente.

Eric Hobsbawm, no seu “A invenção das tradições” demonstra como a repetição de ritos e práticas – as romarias, penitências, ex-votos – servem a formação de uma unidade regional. Em um momento em que tanto se pensa o Nordeste e o Nordestino, historicizar e discutir Padre Cícero é fundamental para entender tanto minha avó e sua a foto do Padim quanto os milhões de romeiros que rumando a Juazeiro movimentam e (re)criam nossa identidade.

Paulo Airton Damasceno é mestre em Ensino de História (UFRN) e professor da rede pública e privada em Fortaleza e Sobral

 

Este conteúdo é útil para você?
Assuntos Relacionados
Carla Picolotto é missionária
Carla Picolotto
21 de Março de 2026
Professor aposentado da UFC
Gonzaga Mota
20 de Março de 2026
Luiz Carlos Diógenes de Oliveira
Luiz Carlos Diógenes de Oliveira
19 de Março de 2026
Rosette Nunes Correia Lopes é advogada
Rosette Nunes Correia Lopes
18 de Março de 2026
Consultor pedagógico
Davi Marreiro
17 de Março de 2026
Filipe Papaiordanou é advogado
Filipe Papaiordanou
15 de Março de 2026
Mávia Ximenes é fisioterapeuta
Mávia Ximenes
14 de Março de 2026