Entenda por que a retomada econômica no Ceará em 2021 é mais promissora em relação a 2020

Manutenção das atividades da indústria e da construção civil no lockdown melhoram perspectiva de crescimento econômico do Estado neste ano, apontam especialistas

Legenda: A retomada no Estado, em 2021, tem acontecido mais rapidamente, em ciclos semanais, mas economistas projetam a necessidade de mais medidas de apoio durante a recuperação econômica
Foto: Carlos Marlon

Com o aprendizado da primeira experiência de fechamento e reabertura das atividades econômicas com a pandemia de Covid-19 no ano passado, economistas e empresários avaliam que o Ceará tem, na retomada de 2021, um potencial maior de recuperação que em 2020.

Contudo, o impacto financeiro em alguns setores mais afetados pelas medidas de isolamento social e a deterioração das finanças das famílias poderão ser um empecilho para o retorno à normalidade, que dependerá fortemente do processo de vacinação. 

Conforme o diretor-geral do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece), João Mário França, a expectativa de uma retomada com potencial maior em 2021 ante 2020 se baseia nos dados e cenários observados no ano passado e em um plano mais abrangente do Estado em relação aos setores da economia neste ano.

Indústria e construção

França citou os casos da indústria e da construção civil, que continuaram operando mesmo durante os momentos de maior restrição econômica no Estado em 2021. A exceção se deu por esses setores terem demonstrado baixa contaminação durante a pandemia.

O cenário pode fazer com que, no geral, a perspectiva da recuperação da economia estadual seja maior neste ano. 

"Eu acho que o processo de retomada desse ano teve um processo de aprendizagem. Quando tivemos a primeira onda de forma forte, o Governo fechou todas as atividades econômicas. Mas nessa segunda, tanto a indústria quanto construção puderam continuar operando, porque vimos que elas não eram foco", disse. 
João Mário França
Diretor-geral do Ipece

"Além disso temos, hoje, a perspectiva da vacinação que não tínhamos no ano passado. E com esses aspectos da retomada gradual, mesmo com  uma vacinação lenta, temos uma projeção que a recuperação seja mais forte, com um crescimento positivo do PIB para 2021 de 3,55%, então temos boas expectativas", completou.

Setores específicos

A opinião é corroborada pelo economista Alex Araújo, que projetou um impacto econômico menor da crise em 2021 por conta do funcionamento da indústria e da construção civil. Contudo, ele ponderou que ainda faltam dados de arrecadação e outros resultados financeiros do Estado e das empresas que possam confirmar o potencial da retomada no Ceará.

Além disso, Araújo comentou que, apesar do impacto reduzido e da possível alta do PIB do Estado, alguns setores já chegaram ao limite de caixa e muitas empresas estão fechando.

O cenário pode resultar em uma retomada de maior potencial, mas em segmentos específicos e com perspectivas de evolução diferentes em cada setor, avaliou o economista. 

Por conta das restrições impostas pelas taxas de contaminação e óbito causadas pela covid-19, os setores de comércio, serviços, bares e restaurantes, e turismo, e eventos, foram os mais impactados e deverão ter uma recuperação bem mais lenta que os demais. 

"Muitos setores ligaram o modo sobrevivência, negociando gastos prioritários como aluguel, e colocando compromissos mais para frente. Bares e restaurantes, que já não trabalham com reservas muito grandes, e escolas, que tiveram quedas de matrículas, foram segmentos que passaram do ponto de estrangulamento", disse.
Alex Araújo
Economista
 

"Outros setores vêm conseguindo passar pela crise em um modo de sobrevivência mesmo. E a corrosão da base da economia é muito grande. Por isso, vamos precisar de muita ajuda na hora da retomada, com medidas para aquecer a economia e movimentar recursos", completou. 

Diálogo com o Estado 

O cenário é confirmado pelo presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes no Ceará (Abrasel-CE), Taiene Righetto, ao afirmar que o faturamento dos bares e restaurantes no Estado caiu cerca de 60% durante a segunda onda da pandemia. 

Apesar de elogiar o nível de diálogo do Governo do Estado com os representantes de entidades empresariais, Righetto afirmou que as medidas de apoio demoram a chegar na ponta, fazendo com que os empresários não consigam contornar os desafios. 

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Legenda: Segundo o presidente da Abrasel-CE, o faturamento dos bares e restaurantes está 60% em 2021 ante 2020

Ele criticou a demora da aprovação da Medida Provisória (MP) da redução de jornadas e suspensão de contratos de trabalho por parte do Governo Federal, que culminou na demissão de mais 3 mil trabalhadores de bares e restaurantes neste ano, e o andamento de iniciativas do Estado. 

"Eu acho que infelizmente as ajudas do Governo do Estado não vem na mesma velocidade que os decretos vêm: 80% dos restaurantes de Fortaleza estão com contas de energia atrasadas. A medida de apoio com a conta de energia, que foi aprovada em março, ainda não chegou. O que tivemos até agora foi um cadastro", disse. 

"Por mais que se tenha uma ajuda, isso tem demorado, então a matemática não fecha", completou Righetto.

Avaliação dos especialistas da saúde

A equação é, de fato, complicada. Mas o secretário executivo de Planejamento e Gestão do Governo do Estado e coordenador do Comitê de Retomada, Flávio Ataliba, também defendeu que as perspectivas são positivas para a recuperação econômica. 

Apesar de reconhecer que a pandemia tem afetado alguns setores de forma muito mais pesada, ele comentou que todas as decisões do comitê têm se baseado na avaliação dos especialistas da área da saúde, com base na capacidade de garantir atendimento à população. 

"A gente reconhece ser um momento difícil para todo mundo e para alguns segmentos que foram mais afetados, como bares e restaurantes, eventos, educação, mas a gente sabe que é uma dificuldade no Ceará e no mundo. O que nós queremos é passar mais rapidamente e poderíamos acelerar tudo isso com um plano de vacinação muito mais avançado e estamos pagando um preço pela falta da negociação dos laboratórios. Isso só vai se resolver com a vacinação", disse Ataliba.

O secretário executivo também explicou que a retomada de 2021 está sendo mais rápida que no ano passado, se baseando, também, no aprendizado gerado na primeira onda. 

"A retomada desse ano tem ciclos semanais ao contrário do ano passado, que tinha ciclos de 15 dias. A gente está acelerando dentro do possível, e há sempre um olho na questão sanitária e questão assistencial para calibrar a retomada econômica", afirmou. 
Flávio Ataliba
Secretário executivo de planejamento e gestão do Estado

Medidas de apoio

Além das dificuldades geradas pela situação sanitária, o presidente do Conselho Regional de Economia Ceará (Corecon-CE), Ricardo Coimbra, alertou para o valor reduzido do auxílio emergencial em 2021, que poderá gerar um impacto muito menor nas finanças das famílias.

"Com certeza, se temos menos dinheiro injetado na economia, como o auxílio, isso pode dificultar a retomada. Mas junto a esse direcionamento, tivemos a antecipação do 13º de pensionistas, então, quando se acabar o pagamento do auxílio, essa antecipação pode ajudar a termos um volume recursos na economia", explicou. 
Ricardo Coimbra
Presidente do Corecon-CE

A opinião é corroborada por Alex Araújo, que também ressaltou as preocupações com o auxílio emergencial. Além disso, o economista projetou que o Governo Federal e o Estado precisarão pensar em mais ações de apoio durante a retomada para que a dinâmica da economia seja normalizada quando houver controle da pandemia. 

"Mesmo durante a retomada, precisaremos remontar a capacidade produtiva. Precisaremos de linhas de crédito, de garantias públicas para as pessoas possam voltar a produzir e consumir", disse Araújo. 

Legenda: Redução do valor do auxílio emergencial poderá ser um entrave à retomada da economia em 2021 segundo economistas
Foto: Thiago Gadelha

"O estado acabou de criar uma secretária para a Retomada e parte disso pode ser feito pelas ferramentas Federais, até pelos bancos regionais, então precisamos aproximar os níveis federal e estadual e ter esse processo apoiado pelo Poder Público porque o caixa das empresas foi destruído nessa segunda onda", completou. 

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