Rodovias do CE têm 66 ‘pontos críticos’ com risco sério à segurança de usuários; veja vias
Pesquisa aponta que menos da metade da malha viária cearense é considerada “boa ou ótima”.
Buracos grandes, erosão da pista, pontes estreitas e outros problemas que afetam o tráfego seguro de veículos foram identificados em pelo menos 66 trechos de BRs e CEs no Ceará. Eles são classificados como “pontos críticos” pela Pesquisa CNT de Rodovias 2025, divulgada neste mês pela Confederação Nacional do Transporte (CNT).
Neste ano, o estudo analisou 3.773 km de rodovias que atravessam o território cearense, e o principal dano encontrado foram os buracos: 60 pontos críticos apresentaram esse problema. Nos outros seis, o levantamento encontrou erosão e outras condições.
Um local é considerado crítico em uma rodovia quando “apresenta problemas graves de infraestrutura e exige intervenção imediata, por representar um risco elevado à segurança dos usuários e prejudicar a fluidez dos veículos na via”, como define a CNT.
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Fernanda Rezende, diretora executiva da CNT, acrescenta que “alguns pontos críticos são mais frequentes, como os buracos grandes, onde o pavimento pode ser classificado como perfeito, mas você está trafegando e aparece aquela ‘panela’ no meio do caminho”.
A pesquisa não detalha a localização exata dos pontos, no entanto informa que, no Ceará, os trechos comprometidos foram encontrados em seis BRs e nove CEs:
- BR-020
- BR-116
- BR-226
- BR-230
- BR-402
- BR-403
- CE-010
- CE-060
- CE-085
- CE-187
- CE-282
- CE-292
- CE-386
- CE-417
- CE-494
As vias cortam municípios como Tauá, no Sertão dos Inhamuns; Madalena e Canindé, no Sertão de Canindé; Russas e Morada Nova, no Vale do Jaguaribe; Quixadá, no Sertão Central; e até Fortaleza, em trecho na Sabiaguaba.
O Diário do Nordeste contatou a Superintendência de Obras Públicas (SOP), responsável pela manutenção das rodovias estaduais do Ceará, e o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), que cuida das federais, para saber:
- se há um monitoramento das condições das vias;
- quais são as que mais preocupam;
- com que periodicidade passam por requalificação;
- quantas foram requalificadas em 2025 e em que trechos;
- e qual deve ser o investimento nesse trabalho em 2026.
O DNIT não respondeu até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto para futuras manifestações.
Já a SOP informou, em nota, que “possui jurisdição sobre uma malha rodoviária pavimentada de aproximadamente 9.345 km, dos quais apenas 1.523 km são avaliados continuamente pela CNT, o que corresponde apenas a 16,29% da extensão total de rodovias estaduais”.
Assim, segundo o órgão, “o recorte é desproporcional à integralidade da malha viária sob jurisdição do Governo do Estado do Ceará”. A nota complementa que “a pesquisa utiliza metodologia própria” e não considera o volume de tráfego e as características de projeto inerentes das rodovias, que são diferentes”.
Má qualidade das 'estradas'
Além dos pontos críticos, a pesquisa faz um raio-x das condições gerais das rodovias. No Ceará, mais de 60% da extensão analisada é classificada como regular (43%), ruim (15,1%) ou péssima (4%), cenário compatível com a média brasileira.
Em relação ao pavimento, quase um terço dos trechos cearenses (32,5%) foi avaliado como “ótimo”. O restante se divide entre bom (11%), regular (37%), ruim (15%) e péssimo (4,5%). Além disso, “0,5%, está com o pavimento totalmente destruído”, conforme o estudo.
“Chama atenção no Ceará que, quando olho pro pavimento, só 2,3% da extensão foi classificada como ‘pavimento perfeito’. É um ponto de alerta: tem que se investir muito em recuperação e manutenção de rodovias”, reforça Fernanda Rezende.
das rodovias do Ceará têm sinalização boa ou ótima, contra apenas 16,1% dos trechos considerados ruins ou péssimos nesse quesito.
Outros dados se destacam em relação ao Estado: quase 90% das CEs e BRs cearenses são pistas simples de mão dupla, e 50% não têm acostamento, “combo” que afeta diretamente a segurança viária.
“Existem rodovias que não têm volume de tráfego pra serem duplicadas, mas o Ceará tem diversas que já poderiam ter sido duplicadas. Essa combinação pode agravar a ocorrência e aumentar a fatalidade de acidentes”, reflete a diretora executiva da CNT.
Fernanda observa ainda que os impactos de uma infraestrutura viária ruim à sociedade não incidem apenas em danos aos veículos ou acidentes: podem afetar o bolso no dia a dia, já que “o transporte rodoviário é o principal meio de levar cargas e pessoas”.
Uma rodovia ruim gera um custo adicional ao transportador para levar produtos a supermercados, por exemplo. Se o caminhão está em uma rodovia onde o pavimento não é ótimo, o custo operacional tem um acréscimo de 31% – que com certeza vai ser revertido no frete, o que é imputado na mercadoria.”
A solução para melhorar a infraestrutura viária do Ceará e de outros estados é tão essencial quanto óbvia: investimento. “O volume investido em rodovias é muito menor que o necessário. Ampliar esses recursos é de extrema importância”, frisa Fernanda.
“É preciso trabalhar pra que não haja corte no orçamento: em qualquer carência de recursos, o primeiro que se corta é o destinado a obras e infraestrutura. Também é importante pegar esses resultados da pesquisa e levar aos parlamentares para que as emendas sejam enviadas à área”, pondera a especialista.
Recuperação das vias do Ceará
Apesar de questionar a metodologia da pesquisa, que “analisa da mesma forma uma rodovia estadual e uma rodovia federal, exigindo critérios semelhantes para rodovias projetadas para finalidades diferentes”, a SOP destaca que o cenário do Ceará evoluiu em relação ao estudo de 2024.
“Houve uma variação positiva de 123% em rodovias ótimas, e um crescimento considerável nas avaliadas em estado bom e regular. Houve ainda uma queda de 43% nas rodovias avaliadas no conceito ruim e 87% nas consideradas péssimas”, lista a superintendência.
“O resultado alcançado evidencia uma melhora considerável nas rodovias cearenses, resultado das políticas públicas voltadas à infraestrutura de transportes adotadas pelo Governo Estadual e Federal dos últimos anos”, complementa a nota.
A SOP garante que a qualidade das rodovias é avaliada anualmente por meio do Levantamento Visual Contínuo (LVC), “o qual fornece, a partir da avaliação dos defeitos de superfície nos pavimentos das rodovias sob jurisdição da SOP, o indicador da qualidade da malha estadual”.
“Esse indicador em 2025 constatou que o pavimento das rodovias estaduais se encontra com 74,32% em qualidade boa”, completa.
De acordo com a SOP, o investimento na malha viária cearense pelo Governo do Estado é “contínuo”, e cerca de “R$ 300 milhões para a recuperação funcional” das pistas já estão previstos para 2026.