Rede na varanda, cuscuz e novelas: cearenses que vivem fora contam como lidam com a saudade
Neste 30 de janeiro é celebrado o Dia da Saudade, palavra única que representa a mistura de sentimentos como falta, ausência, perda e amor.
Para cearenses que vivem longe da terra natal, comer um cuscuz e deitar numa rede são atividades comuns que se transformam em maneiras de restabelecer conexões com as próprias raízes. Na história de quem migrou, a saudade é sentimento intrínseco que deixa acesa a memória do que foi vivido.
Derivada do latim “solitatem”, que significa solidão, saudade é uma expressão que possui um significado complexo e indissociável da cultura brasileira. O termo ganhou até uma celebração, a ser comemorada nesta sexta-feira, 30 de janeiro.
Em razão do Dia da Saudade, o Diário do Nordeste conversou com cearenses que criaram morada em outros estados e outros países. Eles revelam o que fazem para matar a saudades da família, dos amigos e da cultura.
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Entre o habitar e o pertencer
O Censo Demográfico 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revela que cerca de 1,5 milhão de cearenses vive em outras unidades da federação. Sair da terra natal não significa partir por completo. Em cada cearense, existem sotaques, hábitos e modos de viver que mostram que pertencer ao Ceará não depende de CEP.
São Paulo, cidade do Brasil que mais recebe cearenses, se tornou o lar de Franciele Bouviere há pouco mais de dois anos. Ela chegou à capital paulista em junho de 2024 movida por uma oportunidade de emprego como analista de inovação em uma empresa de seguros.
Essa foi a segunda mudança de cidade que ela passou nesses 33 anos de vida. Franciele é natural de Groaíras, na Região de Sobral, e aos 21 anos veio morar na Capital para cursar a faculdade de Administração na Universidade Federal do Ceará.
A separação física da mãe, Liduina Rodrigues, e a saudades da terra natal já eram vividas por Fran, mas agora essa distância se amplia e surgem mudanças de costumes e sotaque. “Existe uma saudade maior ainda da minha família, da cultura do Nordeste, do calor, do sol e do mar”, diz.
Fran também conta que sente falta de atividades rotineiras que fazia em Fortaleza com os amigos como ir à Beira-Mar, ver o por do sol, fazer uma canoa havaiana ou tomar água de coco. Quando voltar ao Ceará, em fevereiro deste ano, ela quer fazer tudo isso e, principalmente, comer “um bom feijão verde com queijo”.
Mesmo a mais de 3 mil quilômetros de distância, ela e o marido, o engenheiro de softwares William Bacelar Botelho, buscam levar itens da cultura nordestina para manter vivo o sentimento de pertencer. “Uma coisa que a gente pediu para colocar na nossa casa foi um armador para termos uma rede [...] E quando a família vem para cá, pedimos para trazer a carne de sol do Nordeste, que a gente gosta”, conta.
Essas ações são formas de recriar as boas memórias de um lugar ou de um momento. É o que explica a psicóloga e colunista do Diário do Nordeste, Alessandra Silva Xavier. Se reunir em comunidades, ir para festivais, frequentar restaurantes típicos são maneiras de trazer para si a conexão com algo que faz parte da identidade, diz.
“Esse lugar de onde a gente sai, de onde fomos criados, de onde temos as nossas memórias iniciais, isso é uma coisa muito forte, muito constituinte da identidade de quem a gente é”, fala.
Apesar desses artifícios para matar a saudade de casa, da família e dos amigos, existe um sentimento de culpa por morar longe de quem precisa de cuidado. “Sinto que fiquei mais distante e que agora é mais difícil ir até ela por questões financeiras mesmo. Esse é o sentimento que me pega mais. Por exemplo, o aniversário da minha mãe, dependendo de como eu esteja, eu não consigo ir e voltar”, desabafa Fran.
“Você deixa sempre um pedacinho de si. Sempre está faltando alguma coisa que te completa […] Uma das coisas que pensei muito era que vindo para cá eu teria uma oportunidade profissional melhor e iria ganhar um pouco mais para ajudar minha mãe. Essa foi o meu consolo e, se não fosse isso, ia ficar chorando mesmo”
Conforme a psicóloga, a saudade diz sobre algo que foi construído ou vivido e que deixou um impacto positivo. “A gente tem saudade de coisas que vivemos e a memória que dá a vontade de voltar a repetir. É como uma espécie de crise de abstinência, só que positiva”, exemplifica. Assim, o que mata a saudade é a “presença, o resgate da memória, o contato com alguma coisa que traz o objeto perdido para perto da gente”, diz Alessandra.
Novela e cuscuz para se sentir em casa
Vivendo há 3 anos em Paris, na França, o motion designer Kelvin Maciel assiste novelas para ficar ativo com a língua portuguesa. “Tem dias que eu nem falo português, então é a maneira que eu tenho de manter o idioma”, revela o cearense de 29 anos.
Ele chegou à cidade após a perda da mãe, fato que transformou sua relação com o Brasil. “Sinto que alguma coisa quebrou, é como se uma raiz tivesse sido cortada”, afirma. Assim, ele passou por um processo duplo de luto e saudade: da cidade natal e da referência de afeto.
Hoje, Kelvin já se adaptou à cultura e ao idioma, mas sente que sempre vai faltar algum detalhe. “No francês, a gente não tem a palavra saudade. Quando queremos dizer que sentimos saudades de alguém, a gente fala que essa pessoa nos falta. Mas sinto que isso não abrange a palavra saudade e tudo que ela significa”, diz.
A psicóloga explica que a linguagem está ligada à construção de identidade. “Quando moramos num local que temos que falar outro idioma, por mais que a gente domine, é uma experiência diferente, como se fosse uma parte sua mas que não é original e verdade”, diz.
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Assim, estar em contato com o idioma — da forma que Kelvin faz — é lembrar dos sons originários da língua mãe. “São as primeiras palavras que a gente ouviu, que nos conectam ao mundo. São as memórias de quando a gente começou a existir porque passamos a ser alguém pela voz”, afirma.
Além disso, Kelvin diz que a comida também o “teletransporta emocionalmente” ao Ceará. Ele costuma comprar cuscuz quando viaja para o Brasil ou em mercados especializados em produtos brasileiros que existem na França.
“Lembro de ter momentos de pegar o último pacote de cuscuz, que já tava acabando, fui fazer e comecei a chorar. Eu me senti a própria Juliette, do BBB, dizendo: ‘você não tem noção de quantas vidas o cuscuz ele salva”, brinca.
O prato típico, inclusive, ganhou um novo significado para Kelvin. Natural de Maracanaú, na Região Metropolitana de Fortaleza, ele conta, que antes de entrar na faculdade, conquistou uma bolsa de estudos parcial num cursinho na Capital. Pela realidade simples que vivia, levava um cuscuz na bolsa para servir de refeição enquanto estudava.
“Tinha vezes que eu passava o dia inteiro com fome e o que tinha para comer era um cuscuz que eu conseguia levar de casa. Só que às vezes estragava ou não dava tempo de fazer”, relata.
Calor do Ceará e dos cearenses
Assim como Kelvin, a tecnóloga em radiologia Karine Costa, de 30 anos, passou por uma mudança de continente, enfrentando a ausência do idioma materno e hábitos culturais diferentes. Há 4 anos, ela trocou o sol e o mar quentinho de Fortaleza pela fria e charmosa Dublin, a capital da Irlanda.
Karine entrou no país por meio de um intercâmbio de inglês, fez uma pós-graduação e conquistou um trabalho como garçonete. No início da mudança de país, a ausência e saudade da família eram sentimentos fortes que, por vezes, a deixavam triste.
“No primeiro mês, chorei bastante e me perguntava o tempo inteiro: ‘por que vim para cá? por que larguei minha vida para morar aqui?’. Só que depois você vai se acostumando, criando uma rotina e vai ficando tudo bem”, afirma.
Hoje, ela sente falta da praia, do calor das pessoas e da comida cearense. “Sinto falta daquela sensação de pegar um sol de verdade, que esquenta mesmo, sabe? O máximo que entrei no mar aqui foi até o meu joelho e já foi suficiente para congelar e nunca mais entrar [...] Somos muito amigáveis e abertos, muito calorosos e aqui não é assim”, diz.
Durante esses 4 anos, Karine vai voltar ao Brasil pela primeira vez em abril de 2026 e, assim que chegar em terras cearenses, já sabe o que vai fazer de início. “A primeira coisa que quero comer é um baião com peixe frito”, conta. “Aqui é tudo muito sem sal, sem sabor e sem tempero. A gente se acostuma, mas não é como nosso tempero não”, ressalta.
Apesar da saudade da família e dos amigos, ela revela o medo e o receio de retornar ao Estado. “Sinto medo das pessoas me esquecerem. Elas não sabem mais como é conviver comigo, como eu sou. Fico com receio de não ter mais essa conexão com as pessoas”, afirma.
“Às vezes fico pensando que será que não fui eu a pessoa que se desconectou? Porque eu não tô sentindo mais essa saudade tão avassaladora. Apesar que são as pessoas que amo e quero muito ir ver, mas acho que a rotina acaba te desconectando disso e, quando paro para pensar, esse medo volta”
Orgulho e patriotismo
Esses sentimentos são compartilhados tanto por Karine quanto por Fran, em suas devidas dimensões, e revelam algo maior. Segundo Alessandra, a saudade tem uma relação direta com a maneira como são vividos os vínculos familiares. “Se vivo vínculos saudáveis e seguros, que dá autoconfiança e me ajuda no processo de autonomia, quando eu me distancio, eu sinto falta mas é diferente de ficar inseguro, desesperado ou experimentando a culpa”, explica.
Assim, manter a memória e conexão com a cultura de onde nasceu proporcionam um senso de pertencimento, no qual a pessoa se sente compreendida e reconhecida. Isso gera conforto emocional, segurança e fortalecimento identitário. “Quando a gente vive a sensação de pertença e presença, isso assegura quem somos, quais nossos valores e conseguimos encontrar o reconhecimentos dos outros”, pontua Alessandra.
Apesar de toda a distância física, a cearensidade e o orgulho de pertencer ao Estado permanece intacto no relato dos cearenses. Viver longe da terra natal é aprender a conviver com uma falta constante, enquanto defende em si a própria cultura.
“Somos um povo muito engraçado e ao mesmo tempo muito inteligente. Eu me orgulho muito disso”, afirma Kelvin. “Uma coisa que acho que é comum entre os brasileiros que saem do país é que você vira mais patriota. A gente começa a defender o Brasil com unhas e dentes”, ressalta Karine.