Filho de pedreiro se gradua em Arquitetura no CE e tem foto de formatura dada de presente a Lula

Emanuel Ferreira do Nascimento foi estudante da escola pública e morador do sertão.

Escrito por
Paulo Roberto Maciel* paulo.maciel@svm.com.br
(Atualizado às 16:37)
Jovem Emanuel Ferreira graduado em direito comemorando sua formatura cercado por familiares e amigos em festa de formatura, símbolo de conquista e sucesso acadêmico.
Legenda: Emanuel nasceu em Mombaça, no interior do Ceará, e desde pequeno amava a arte e a construção civil.
Foto: Viktor Braga/UFC

Quando completou a graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal do Ceará (UFC), em agosto de 2025, o jovem Emanuel Ferreira do Nascimento, 25, natural de Mombaça, Sertão do Ceará, não imaginava que a imagem da sua celebração, junto à família, seria tão marcante e simbólica a ponto de acabar se tornando um presente entregue ao presidente do País.  

Neste mês, a imagem em que Emanuel celebra com a família sua graduação foi entregue ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em Brasília, pelas mãos do reitor da UFC, Custódio Almeida, e do ministro da Educação, Camilo Santana. A foto se torna ainda mais marcante para o cearense porque é um dos últimos registros que tem ao lado da mãe, Maria das Dores Ferreira do Nascimento, que faleceu poucos meses após a celebração. 

O retrato mostra Emanuel, de beca e capelo, sorridente, enquanto abraça o pai, a mãe, vó, irmãs e os sobrinhos. Todos olham para ele orgulhosos e admirados. É um registro tão potente que até rendeu ao fotógrafo Viktor Braga, da UFC, o 2° lugar na Mostra de Design e Audiovisual das Universidades Federais, em novembro de 2025.

Lula, Custódio e Camilo apresentando uma foto de Emanuel Ferreira e família na sala de reuniões, com um mapa-múndi ao fundo. Evento relacionado à política ou educação.
Legenda: Custódio Almeida diz que só conseguiu levar a foto de Emanuel ao presidente graças ao ministro Camilo Santana.
Foto: Ricardo Stuckhert/PR

Diário do Nordeste conversou com Emanuel sobre as memórias desse dia e também da trajetória que o levou até a formatura. Para ele, o momento eternizado na fotografia representa um marco de anos de resistência, perseverança e, principalmente, amor. Principalmente porque ser a primeira pessoa da família a ser graduado em uma universidade pública.

"No dia da minha colação, que minha família inteira saiu do interior para me ver, foi quando eu entendi que aquele diploma era muito maior do que meu nome. Fiquei muito emocionado com o que aconteceu. Não estaria ali sem eles", relembra.

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Emanuel, caçula de seis irmãos, cresceu entre dificuldades e improvisos, mas sempre cercado de afeto. Ele cita que, desde cedo, foi ensinado pelos pais que amar é compartilhar.

"Minha mãe é semi-analfabeta, só conseguiu ir até o terceiro ano do ensino fundamental. E meu pai é analfabeto. Desde sempre os meus pais sempre cultivaram em mim a essa importância da educação como uma forma de transformar a vida. O que eles não tiveram, eles sempre queriam que eu tivesse", situa.

Ainda criança, Emanuel gostava de ajudar o pai, pedreiro, no trabalho. Foi quando teve o primeiro contato com a área que se tornaria o seu objetivo de vida. "Sempre estive presente dentro das obras que meu pai participava. Seja ajudando ele, ouvindo ele, levando comida. Então, a construção civil esteve na minha vida".

Emanuel Ferreira sorridente com cabelo dread, vestindo toga de formatura, ao lado de um senhor com camisa azul, em frente a uma residência colorida durante uma cerimônia de formatura na Universidade Federal do Ceará (UFC).
Legenda: Emanuel junto do pai, José Maria Alves Pereira do Nascimento.
Foto: Arquivo pessoal.

De início, pensou em enveredar para a mesma profissão do pai, mas mudou de ideia ao conhecer a Arquitetura. Unir construção e arte em uma só trabalho? "É o match perfeito", define Emanuel.

A partir de então, o jovem não parou. Egresso da rede pública, se formou como Técnico de Administração no Ensino Médio, em 2018. Fez o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) no mesmo ano e aplicou a nota para Engenharia de Petróleo. Passou um ano no curso, mas não se identificou. O coração dele estava em outro lugar.

"Refiz o Enem em 2019 e passei para Arquitetura através da cota racial. Foi meu segundo curso. Mas entrei na época da pandemia, também. Passei três semestres fazendo EaD, e ficou um pouco complicado. Minha família é muito grande, eu tenho sete sobrinhos, seis irmãos. Então, não tem aquele conforto, aquela calmaria para estudar", lembra.

Estudar em casa foi só um dos desafios. Emanuel também sentia dificuldades em não ter um professor por perto. A falta de um profissional que o orientasse e corrigisse seus erros era angustiante, mas ele persistiu. Dois anos depois, a pandemia relaxou, e chegou o momento de se mudar para Fortaleza. Mas não foi nada fácil.

Sem recursos, parecia impossível a ideia de se mudar para a capital. A saída de Emanuel foi contar, novamente, com o amor dos pais, além do apoio da universidade, o qual relembra com carinho. "O que me manteve em Fortaleza, principalmente, foram as políticas de assistencialismo da faculdade. As bolsas, os auxílios", explica.

Emanuel se mostra eternamente grato pela assistência da UFC, e deseja que as instituições de ensino público possam, cada vez mais, dar espaço para quem precisa. "Acho que o Brasil precisa continuar abrindo essas portas para quem vem de baixo, porque tem muita gente preparada, mas que às vezes sente falta de oportunidades", reflete.

Sonho não se vive sozinho

Os caminhos percorridos por Emanuel nem sempre foram os mais tranquilos, mas ele sabia com quem contar quando o laço apertava: antes conseguir um estágio na área que ama, ele contava com a ajuda da mãe, Maria das Dores Ferreira do Nascimento, nos momentos mais difíceis, e também nos felizes.

Hoje, falar da mãe vem carregado de um pesar. Ela faleceu no início de dezembro do ano passado, por complicações de um Acidente Vascular Cerebral (AVC).

Maria das Dores viu o filho alcançar lugares que ela nunca pode. Mulher preta, pobre, da roça, criou uma família inteira à base do chamego e batalhou para que todos os filhos tivessem acesso à educação. A memória dela ainda perdura em Emanuel.

A minha graduação, além de ser um sonho meu, era principalmente da mãe. Ela sempre dizia que esse diploma mudaria nosso destino. Quando chegou o dia da colação, foi muito forte pra mim, porque ela sempre repetia que a educação era a única herança que a poderia deixar para mim. A gente nunca teve muito recurso. Então, a herança que ela deixou para mim após seu falecimento foi a educação.
Emanuel Ferreira
Arquiteto e Urbanista

O esforço da mãe em garantir aos filhos um futuro melhor foi a força motriz por trás de cada obstáculo. Para o jovem, se formar  significava uma vitória não só dele, mas de toda uma comunidade.

"Quando uma pessoa da periferia, do interior, entra na universidade, um povo inteiro entra com ela. A minha vitória, além de minha, é do meu povo, é dos interioranos, é das pessoas pretas, é de quem vem que vem de baixo. A educação muda o destino, muda a renda, muda a autoestima, muda o nosso horizonte", acrescenta ele.

Mãe e filho celebrando uma conquista na cerimônia de formatura no exterior, símbolo de amor, orgulho e realização acadêmica.
Legenda: Emanuel dedica suas conquistas à memória da mãe.
Foto: Arquivo pessoal.

Estar na Concha Acústica junto da família, celebrando o fim de um ciclo e o início de uma nova jornada, será para sempre uma das lembranças mais felizes de Emanuel. Ele lembra, especialmente, da felicidade da mãe ao ver o filho graduado.

"Ela até comentou, não sei se foi um presságio, que se Deus quisesse levar ela naquele dia, ela estava com a missão cumprida. Tudo que ela plantou em mim estava sendo colhido ali, naquele momento. Quando eu subi na Concha Acústica, eu tenho certeza que levei ela junto de mim, do meu coração", diz.

Tristeza não é a palavra para descrever a saudade que a mãe deixou no filho, mas sim, gratidão por tudo o que ela o ensinou. "Essa minha história só existe porque ela (a mãe) acreditou em mim, acreditou que eu poderia mudar o destino da nossa família. A minha mãe não me viu entrando no mercado de trabalho, mas viu eu me formar. Meu diploma tem meu nome, a assinatura é dela", sintetizou.

Trajetória para o futuro

Após quatro anos de graduação, e com o primeiro emprego, Emanuel planeja retornar às origens com os conhecimentos que adquiriu. "Meu sonho é voltar para o interior e levar o que aprendi aqui na universidade para lá. Quero construir no semiárido e retribuir aquilo que o sertão me deu, que foi aprendizado e foi inspiração", expressa.

O jovem também não quer deixar de aprender. Pelo contrário, quer investir no mestrado e continuar a pesquisa que iniciou na graduação. "Quero investigar a arquitetura sertaneja e levar a arquitetura popular, que a gente chama de arquitetura vernacular, e trazer isso para a academia", explica.

Emanuel compartilhou com a equipe de reportagem o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) dele, que apresenta um projeto arquitetônico para uma escola rural em Mombaça, orientado por princípios de sustentabilidade, valorização cultural e viabilidade técnica.

Projetos de arquitetura moderna de escolas com estrutura de vidro e tijolos, incluindo ambientes internos com móveis escolares e alunos em sala de aula.
Legenda: Proposta arquitetônica de uma escola em Mombaça, cidade natal de Emanuel, baseada na arquitetura vernicular.
Foto: Emanuel Ferreira

Reitor da UFC destaca importância da política de cotas

Em declaração enviada à reportagem, o reitor da UFC, Custódio Almeida, afirma que a foto "tornou-se muito significativa, virou para nós uma imagem icônica da política pública de cotas no Brasil, e vimos, naquela oportunidade, que ela representava a transformação"

O reitor ainda informou que a Lei de Cotas é essencial para o ingresso de muitos estudantes em situações de vulnerabilidade social no ensino superior público - como aconteceu com Emanuel.

"Para nós, isso [a formatura de Emanuel] foi muito significativo, porque reafirma o desejo de que muitos estudantes tenham suas vidas transformadas quando entram na Universidade", diz.

O reitor lembra que "o próprio Emanuel Ferreira fez uma postagem nas redes sociais ao tomar conhecimento de que o presidente Lula havia recebido a foto, dizendo justamente que só conseguiu acessar a UFC por conta dessa política pública de cotas e que também estava muito feliz, porque a Universidade transformou a vida dele".

Obviamente, o acesso com a Lei de Cotas mudou bastante. As portas ficaram mais abertas para os estudantes de baixa renda e também aqueles que estudam escola pública, além de pretos, pardos, indígenas e quilombolas. No entanto, o desafio é a permanência e, para garantir a permanência, nós damos prioridade às políticas públicas de assistência estudantil.
Custódio Almeida
Reitor da Universidade Federal do Ceará (UFC)

A declaração ainda menciona a lei Nº 14914/2024, aprovada recentemente no Brasil, que cria o Plano Nacional de Assistência Estudantil (PNAES) para grantir a quem mais precisa a permanência nas universidades e institutos federais.

"Receber alunos carentes e dar todas as condições para que eles fiquem é essencial. Eles precisam, por exemplo, comer na universidade. Nós precisamos ter uma política de bolsas, que garantirão que esses estudantes não precisem deixar a universidade para ingressar em trabalhos precarizados", ressalta.

*Estagiário sob supervisão da jornalista Dahiana Araújo.

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