Cearense de 47 anos é aprovada em Medicina na Uece: ‘vitória que não é só minha’
Mãe de dois filhos, professora e mestre em Matemática, Ivy Girão conquistou uma vaga no curso do campus localizado no Sertão dos Crateús.
Nas próximas semanas, o que era antes um sonho de infância, adormecido durante muito tempo na vida de Ivy Girão, de 47 anos, se tornará realidade. Fruto de esforço e de muitas batalhas vencidas, a bacharel em Matemática e mãe de dois meninos iniciará o curso de Medicina no Campus Crateús da Universidade Estadual do Ceará (Uece), a 350 km de Fortaleza.
Formada há 22 anos pela Universidade Federal do Ceará (UFC), ela conta que foram quatro anos de estudos intensos para as provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e da Uece, com nove vezes recebendo o não. “Quando vi meu nome na lista de aprovados, juro que fechei a página e abri de novo três vezes para ter certeza que não tinha nenhum erro”, afirma.
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Depois da confirmação, foram cinco minutos de êxtase e felicidade, pulando, gritando, chorando e rindo. Tudo ao mesmo tempo. Era a criança interior que se soltava após muitos anos e dificuldades que a moldaram.
O sonho se concretizava depois de uma graduação, mudanças de país, duas gestações e o mais difícil: o luto pela perda do marido, o também matemático Darlan Girão, após um ano de tratamento contra o câncer. “Durante toda minha vida pensava em fazer Medicina, mas sempre houve alguma ou muitas coisas no caminho”, afirma.
Início da trajetória
Desde que “se entendia por gente”, Ivy conta que sonhava em cursar Medicina. Só que a vida, segundo ela, não acontece da forma que se planeja. Nesse caminhar, acabou chegando no curso de Matemática da UFC, onde conquistou mais que um grau de bacharel, encontrou o amor da vida e constituiu uma família.
No Departamento de Matemática, no Centro de Ciências do Campus do Pici, ela conheceu Darlan, um colega de curso que se tornou um amigo, depois namorado, marido e pai dos dois filhos, Murilo e Álvaro. Foi um encontro de almas. “Nós tínhamos uma relação simbiótica, que não sabia que eu era sem o Darlan”, afirma.
Caminharam juntos na graduação — concluída em 2004 — e fizeram o Mestrado na mesma área. Depois, seguiram para o Texas, em Austin, nos Estados Unidos, onde ele cursara o Doutorado em 2011. Voltaram para o Brasil um ano depois e, com o retorno, reacendeu o chamado pela Medicina.
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“Aqui, eu tinha a família, estava perto dos amigos, mas no exterior gostava muito de uma qualidade de vida que tinha lá”, comenta. Assim, acabou convencida de fazer o doutorado sanduíche em Matemática, iniciado no Brasil e a ser continuado na Austrália.
O curso de pós-graduação lhe daria mais oportunidades no exterior do que a Medicina “porque é um processo difícil para conseguir validar e trabalhar em outro país”. O sonho foi postergado mais uma vez.
No país da Oceania, ela conseguiu um emprego e a vida estava se encaixando, até que veio o baque que transformou tudo. O marido Darlan descobriu um câncer raro e só tinha três meses de vida. Diante disso, decidiram retornar ao Brasil, em 2017, para realizar o tratamento de imunoterapia em uma rotina intensa, mas cheia de carinho e cuidado.
“Uma vez minha psicóloga falou que às vezes a gente tende a achar que o momento feliz é só felicidade e o triste é só tristeza. O ano em que o Darlan esteve se tratando do câncer foi um dos mais felizes da minha vida porque a gente recebeu tanto amor. Nossa casa estava sempre cheia de amigos. Houve essa alegria enorme dentro daquele cenário desolador, que era saber que ele ia morrer”
Do dia que foi descoberto o câncer ao dia do falecimento de Darlan, foram 12 meses exatos. “Antes, eu me imaginava envelhecendo numa praia, tipo Fortim e Aracati, de mãos dadas com o Darlan, olhando o pôr do sol, de frente para o mar. E agora? O que vou fazer?”, conta.
Ivy recebeu uma mensagem da orientadora do doutorado na Austrália. “Ela dizia que quando eu estivesse pronta, podia voltar que minha vaga estava lá. Mas como eu ia fazer isso sozinha e com dois filhos? Então, abdiquei desse projeto e nesse momento pensei: é a Medicina que eu quero”, afirma.
Reconstrução da vida
Ainda em meio ao luto, ela decidiu retomar os estudos. A primeira tentativa foi em 2019, mas tudo ainda estava muito recente. Anos depois, em 2022, reiniciou o processo. “Foi pós-pandemia que comecei a sentir que estava pronta para olhar um pouquinho adiante. Nesses quatro anos, eu estava no mantra de um dia de cada vez. E cheguei num momento que comecei a pensar que quero olhar um pouquinho mais além do dia”, relembra.
“Correr atrás de uma carreira é o que me faz imaginar uma vida mais adiante. Não só o hoje, o presente. É uma visão mais ampla de que envelhecer não é tão assustador assim”, afirma.
Esse processo de reconstrução do “eu” foi inspirado por uma frase do filósofo brasileiro Mario Sergio Cortella. “Ouvi uma frase dele que dizia: ‘olhe para a pessoa que sua criança sonhou que seria. Quão perto ou longe você está dessa pessoa?’. Isso me fez pensar que, quando eu era criança, tudo que eu queria era ser médica. Então, eu vou ser o que eu sempre quis”, diz.
Ivy iniciou os estudos em casa por meio de videoaulas e depois conquistou uma bolsa de estudos em um curso pré-vestibular. Fez o Enem três vezes, passando por altos e baixos. Além do desafio da prova em si, ela conta precisar lutar contra o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e a ansiedade.
“Quando faço uma prova, nunca produzo aquilo que supostamente seria capaz de produzir. Sempre me achei uma fraude […] A prova do Enem, de cinco horas, é brutal para mim porque fico focada durante duas horas, mas depois fico ansiosa com horário”, diz.
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Por outro lado, o processo da Uece é diferente, com questões mais conteudistas e práticas. Então, Ivy passou a se dedicar para a instituição estadual. Só que o último vestibular da universidade teve outro sentido para ela.
“Quando terminei o Enem 2025, me voltei para minha família e descobri que minha mãe estava com sintomas de demência. Começou aquela peregrinação para descobrir o que ela tinha e acabei me envolvendo muito com isso”, comenta.
Em meio à tensão familiar e “com a cabeça a mil”, se questionava o porquê estava indo fazer aquela prova. Até que o filho lhe orientou: “só aproveita e se diverte, vão ser três horas sem pensar nos problemas”. Sem a “Ivy ansiosa” e a “Ivy que pensa que é uma fraude”, entregou o que era capaz e foi recompensada.
Inspiração e próximos passos
Desde que a história foi divulgada pelas páginas dos dois cursos pré-vestibulares que participava, a professora afirma que começou a receber diversas mensagens de pessoas que, assim como ela, são formados em alguma profissão, mas nunca deixaram de pensar no curso dos sonhos.
“Recebi muitas mensagens de pessoas dizendo que inspirei, que pensava em desistir, mas que agora iam continuar. Mensagens de uma arquiteta, uma enfermeira com 12 anos de carreira mas que tinha aquela vontade teimosa de fazer medicina. Fico toda arrepiada só de falar, porque foi tão legal, saber que essa vitória não é só minha. Recebi mensagens do tipo “essa vitória é a vitória das mães, das donas de casa, das pessoas que achavam que não dava mais tempo’”, revela.
De uma história fincada no instinto de sobrevivência, surge a vontade de ser espelho para os outros. “Cada pessoa que se sentir motivada e tocada de alguma forma, mesmo que não seja para a Medicina, pela minha história, já vai ser um negócio fenomenal”, afirma.
“Hoje, penso em como praticar uma medicina que faça a diferença na vida de quem quer for cruzar o meu caminho ou que o meu caminho vai cruzar. Não é sobre um plano de carreira, sim um plano de vida.”
Essa vontade de impactar positivamente vem da inspiração dos médicos que atravessaram sua vida em meio ao tratamento do marido. “Naquela época que a gente ia e voltava de hospital com o Darlan, eu olhava para os profissionais e tinha uma admiração de tiete mesmo, pensando ‘quero ser assim’”, diz.
Mesmo maravilhada e empolgada com tudo que vem vivendo nos últimos dias, Ivy revela que também convive com o receio de recomeçar em uma nova cidade e, pela primeira vez, longe dos filhos. Quando o mais novo chegar em casa, ela não vai estar presente para tirar as dúvidas dos estudos.
Filha única, ela também não vai estar em Fortaleza para lidar com os problemas de saúde da mãe. “Estou preparando meu pai para ter as ferramentas para lidar com essa situação, arrumar uma pessoa para ir morar com eles”, diz.
Processo difícil e doloroso, a professora diz que o segredo é “lutar contra os medos e as ansiedades”. “Não existe um cenário em que tudo seja perfeito. Pelo menos na minha vida, isso nunca aconteceu. Eu vou com medo, mas vou”, reforça.