Óleo de praias do CE ‘colou’ em lixo plástico e chegou aos EUA, mostra estudo

Embalagens com escritos em português percorreram mais de 8 mil km pelo mar.

Escrito por
Theyse Viana theyse.viana@svm.com.br
Garrafas plásticas e de vidro enfileiradas no chão, totalmente cobertas por óleo, pretas.
Legenda: Lixo plástico e de vidro "oleado" no litoral brasileiro chegou aos EUA por correntes marítimas.
Foto: Reprodução/Labomar.

Há pouco mais de seis anos, espessas manchas de óleo surgiram em dezenas de praias e áreas protegidas do Ceará. Era 2019, mas o dano ambiental cruzou anos e fronteiras: o óleo percorreu mais de 8 mil km e chegou ao litoral da Flórida, nos Estados Unidos (EUA).

A constatação é de estudo da Universidade Federal do Ceará (UFC) em parceria com instituições internacionais, e provou que as porções de óleo derramadas – que geralmente se dissipam em 300 km – navegaram 8.500 km pelo Atlântico até a América do Norte.

O óleo resistiu, então, por uma distância quase 30 vezes maior que a usual, ampliando o alcance do prejuízo, e o que tornou isso possível foi a poluição do oceano. A substância “colou” em garrafas e sacolas, que funcionaram como transporte até a praia estadunidense.

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A chegada do lixo plástico à praia de Palm Beach, parte dele com embalagens escritas em português, ocorreu de maio a setembro de 2020, e foi identificada por uma ONG estadunidense, que já conhecia o trabalho científico do Instituto de Ciências do Mar (Labomar) da UFC e contatou os pesquisadores cearenses.

“Conectamos a ONG com um pesquisador parceiro nosso nos EUA. Ele fez as análises e identificou que eram os mesmos óleos daqui”, relata Rivelino Cavalcante, professor do Labomar e um dos autores do artigo publicado neste mês na revista Environmental Science & Technology.

Ele explica que cada “mancha” de óleo flagrada no litoral cearense em 2019 tem uma “impressão digital”, um perfil químico e uma composição única. Tudo isso está catalogado, o que permitiu a comparação e a constatação de que o lixo “oleado” que chegou nos EUA partiu daqui.

Mão com luva azul segura pequeno pedaço de óleo recolhido em praia do Ceará.
Legenda: Fragmentos de óleo derramado no oceano surgiram em diversos pontos do litoral cearense em 2019 e 2022.
Foto: Reprodução/Labomar.

Além da evidência química, os pesquisadores firmaram uma prova física. “Por modelagem matemática, oceânica, calculamos o trajeto da nossa costa até a da Flórida. Tínhamos mais ou menos a data (do surgimento do óleo no Ceará), nos meses finais de 2019, e por modelagem reversa chegamos à conclusão”, situa Rivelino.

Esse processo permitiu aos cientistas cravar que o óleo encontrado nas praias cearenses levou 240 dias, cerca de oito meses, para atravessar milhares de quilômetros e aportar em Palm Beach.

Provavelmente era muito óleo. As garrafas passaram por essa mancha, que deveria ser muito grande, se olearam demais e levaram o óleo por longas distâncias. Encontraram umas 12 garrafas lá (em Palm Beach).
Rivelino Cavalcante
Professor e pesquisador do Labomar/UFC

O artigo dos pesquisadores do Labomar teve apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap).

Organizações internacionais também colaboraram, como a Fundação Nacional de Ciência dos EUA, o Instituto Oceanográfico Woods Hole, o Conselho de Pesquisa em Ciências Naturais e Engenharia do Canadá e a ONG Friends of Palm Beach.

Risco à vida marinha

Garrafa plástica coberta por óleo derramado no oceano, disposta sobre a areia, com algas marinhas ao redor.
Legenda: Óleo se agregou ao lixo e resistiu por milhares de quilômetros sem se dissolver no oceano.
Foto: Reprodução/Labomar.

Os danos dos microplásticos e da poluição do oceano à vida marinha já são atestados, mas a “aliança” entre óleo e o lixo comprovada pelo estudo cearense “aumenta muito mais” os prejuízos – chegando, inclusive, ao ser humano, como destaca o professor Rivelino.

“Esses óleos têm constituintes tóxicos. É como se você aumentasse a dose do risco. Diretamente não chega ao ser humano, mas indiretamente o animal pode absorver um negócio desse e vai passando o contaminante na cadeia”, explica.

Os derramamentos de óleo são preocupações diárias de pesquisadores cearenses. Segundo o professor do Labomar, “desde 2019, quase todo ano chega óleo à nossa costa, de forma residual”. 

“Uma vez por mês, nós percorremos 100 km de orla de Fortaleza até depois do Beach Park, e sempre encontramos resquícios de óleo, todos diferentes.”

Em setembro de 2025, as equipes encontraram fragmentos oleosos em trechos das praias do Futuro, em Fortaleza, e do Presídio, em Aquiraz, na Região Metropolitana.

As longas viagens que as substâncias conseguem fazer, principalmente transportadas junto ao lixo, tornam ainda mais óbvia uma sentença: “o planeta é um só”.

“Nosso país tem muita dificuldade de fazer um gerenciamento adequado de resíduos, e os EUA já têm uma preocupação muito maior – mas nossa carência chegou até eles. O planeta é um só, e os governantes têm que se unir e focar no gerenciamento dos resíduos.”

Manchas de óleo no Ceará

Imagem mostra pés de quatro pessoas de costas em uma praia. Os pés estão sujos de manchas de óleo.
Legenda: Há cerca de seis anos, banhistas tiveram contato constante com manchas de óleo em praias do Ceará.
Foto: Natinho Rodrigues/SVM.

Os primeiros fragmentos de óleo, resultado de vazamento de petróleo cru, chegaram ao Ceará em agosto de 2019. Junto à areia, o material recolhido em 19 municípios cearenses atingidos superou 39 toneladas.

Três anos depois, em 2022, pelo menos 64 praias do Ceará foram contaminadas com manchas de óleo, de “impressões digitais” diferentes das de 2019, como noticiou o Diário do Nordeste com base no balanço da então Secretaria do Meio Ambiente (Sema).

A origem do óleo que contaminou o litoral do Nordeste em 2019 segue indefinida até hoje, embora o derramamento tenha sido considerado um dos mais severos do mundo, conforme estudo publicado em 2023 sobre o assunto na revista Marine Environmental Research.

O levantamento mostrou que, até 2023, o óleo atingiu oito unidades de conservação e dezenas de praias do Ceará, incluindo áreas preservadas, como as praias da Sabiaguaba, em Fortaleza; de Tremembé, reserva indígena em Icapuí; e do Canto Verde, em Beberibe.

Aves, tartarugas, corais e áreas de manguezal foram afetadas pelos prejuízos da poluição. Alguns animais ingeriram as toxinas, o que causou mudança na proporção de sexo e tamanho das populações, anormalidades em larvas e ovos, alterações comportamentais e aumento da mortalidade, conforme o estudo.

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