Corais do Ceará estão ‘passando fome’ devido a aumento da temperatura do mar; entenda o que é o fenômeno

O chamado “branqueamento” dos corais causa prejuízos desde ambientais até sociais e econômicos no litoral

Escrito por
Theyse Viana theyse.viana@svm.com.br
Mergulhador junto a corais no mar do Ceará
Legenda: Situação dos corais no mar do Ceará é monitorada por pesquisadores do Labomar, da UFC
Foto: Anne Gurgel/Labomar

Da terra ao mar, o planeta está agonizando. A alta nas temperaturas pelo aquecimento global tem refletido não apenas na sensação térmica e nos eventos climáticos extremos, mas até na vida marinha: no Ceará, os recifes de corais estão “passando fome” e morrendo devido ao esquentamento do oceano.

O fenômeno é chamado de “branqueamento de corais” e tem avançado em diversos pontos do litoral cearense, como nas praias de Iparana, Paracuru, Flecheiras, Taíba e no Parque Estadual Marinho da Pedra da Risca do Meio, que é uma unidade de conservação.

As informações são do professor Marcelo Soares, pesquisador do Instituto de Ciências do Mar (Labomar) da Universidade Federal do Ceará (UFC), que integra também o projeto Coral Vivo, grupo de pesquisadores que monitora o problema em todo o Brasil.

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Mas o que é “branqueamento de corais”?

Muitos podem não saber, mas os corais são animais marinhos. Conhecidos pela beleza que emprestam ao fundo do mar, eles são coloridos pela presença de algas, em uma relação simbiótica: elas se abrigam e, em troca, garantem alimento a eles por meio da fotossíntese.

“Porém, quando o oceano está muito quente ou poluído, as algas saem desse coral, e aí ele se torna branco. Ou seja, quando ele está branco, mostra uma condição de estresse. Ele está, digamos assim, passando fome”, explica Marcelo.

O oceanógrafo Miguel Mies, pesquisador do projeto Coral Vivo, acrescenta que, quando as algas “zooxantelas” que revestem e colorem os corais são perdidas, o “tecido vivo” do animal fica transparente, deixando o esqueleto dele à mostra – daí o nome “branqueamento”.

“Então o coral branqueado não está morto ainda, mas ele está na UTI. Agora, se você reverter, passar a onda de calor e o coral não estiver muito debilitado, ele consegue recuperar suas zooxantelas, sua cor e sobreviver”, esclarece Miguel.

Coral branqueado no fundo do mar, cercado por régua utilizada por pesquisadores
Legenda: Pesquisadores monitoram o processo de branqueamento na costa do Ceará
Foto: Anne Gurgel/Labomar

Essas ocorrências são monitoradas no Ceará desde 2010, quando já se registrava um aumento da temperatura média, segundo recorda Marcelo Soares. “Foi um dos anos mais quentes e já detectamos o branqueamento naquele momento”, inicia.

Antes, o fenômeno era “mais restrito, demorava muito a acontecer” – mas com a quebra de recordes de temperatura, nos últimos anos, tem se tornado frequente. “Detectamos de novo no Ceará em 2020, 2023 e 2024, praticamente em todo o litoral, porque todo o litoral está superaquecido”, completa.

No Brasil, o projeto Coral Vivo “visita” os animais de duas a três vezes por ano, se não houver onda de calor. “Quando tem onda de calor, vamos quatro vezes por ano, pode ser até mais. O ideal é que a gente consiga documentar muito bem o antes, o durante e o depois da onda”, pontua Miguel Mies.

Qual a importância dos corais

Peixe passando por coral no Ceará
Legenda: Corais são essenciais para sobrevivência de diversas espécies marinhas
Foto: Anne Gurgel/Labomar

“Na Terra, a gente tem as árvores, que formam a floresta. E a floresta forma um microclima, captura carbono, tem vida associada: de aves, de animais e até do próprio ser humano. Quando você perde árvores, você perde a floresta inteira. Um recife de coral é uma floresta marinha”, resume Marcelo Soares ao explicar a importância dos corais.

O pesquisador afirma que um dos grandes impactos da perda da biodiversidade associada aos corais é para a pesca. “Hoje em dia, mais de 500 mil pessoas no mundo vivem do alimento que vem do mar. Então, você vai perder grande parte da produção pesqueira, animais que a gente se alimenta”, lamenta.

10%
de toda a proteína animal vem de pescado extraído de recife de coral, e 25% de toda a vida marinha são abrigados pelos recifes, estima o oceanógrafo Miguel Mies.

Outra função fundamental exercida pelos corais é a de proteger as orlas do avanço do mar. “O recife, por ser uma barreira submersa, protege a costa de erosão, então protege as construções que lá estão”, alerta Miguel.

Marcelo, do Labomar, adiciona que “o avanço do mar gera perdas enormes de infraestrutura, de estradas e até casas”. “Hoje, no Ceará, 47% do litoral do Ceará está sujeito a erosão”, informa. 

“Estamos perdendo as nossas praias, que são um grande motor econômico do nosso Estado. Precisamos proteger os corais pra ter uma defesa que a natureza sempre nos forneceu.”

Trecho de estrada quebrado em Icaraí, Caucaia, Ceará, após avanço do mar
Legenda: Danos pelo avanço do mar na praia de Icaraí, em Caucaia, no Ceará, em 2020
Foto: Fabiane de Paula

Somados aos ambientais, estão os prejuízos econômicos. “Você vai perder áreas turísticas. O turismo de mergulho é muito importante em áreas de banho”, aponta Marcelo, endossado por Miguel. “E aí se estabelecem pousadas e restaurantes, tudo em torno daquela beleza natural.”

“São serviços ecossistêmicos, que beneficiam cerca de 500 milhões de pessoas ao redor do planeta e geram uma renda de 10 trilhões de dólares. Mas todos esses serviços só funcionam se o recife estiver vivo. Quando ele morre, nada disso funciona mais”, sentencia o oceanógrafo.

Como evitar o branqueamento

Coral branco no mar do Ceará
Legenda: Perda de algas coloridas causa branqueamento dos recifes de corais
Foto: Anne Gurgel/Labomar

Apesar dos danos profundos, o sofrimento dos corais é reversível. “O coral pode, sim, voltar a ficar colorido, vivo, bem de saúde. Porém, pra isso, ele precisa que o oceano não fique tão quente por tanto tempo, que a febre não dure muito tempo”, frisa o professor do Labomar.

A primeira condição é óbvia: o oceano não pode ficar mais quente. “A gente precisa reduzir urgente e drasticamente as nossas emissões de carbono. Com o oceano mais quente, há mais secas, inundações, aumento do nível do mar e destruição de toda a estrutura econômica e social que nós temos”, projeta Marcelo Soares.

É evitar desmatamento, incêndios, usar transporte público, melhorar a gestão dos resíduos sólidos, ter políticas ambientais fortes. Sem isso, eventos climáticos extremos vão ser extremamente frequentes. A hora de agir é agora para que haja um futuro para a humanidade.
Marcelo Soares
Professor e pesquisador do Labomar/UFC

O professor alerta para a importância de cumprimento do Acordo de Paris, tratado internacional que visa combater as mudanças climáticas. “Se a gente conseguir reduzir o problema das emissões de carbono, os corais vão branquear, mas vão conseguir se recuperar.”

“É algo muito parecido com o que vai acontecer nas florestas: vão haver queimadas, incêndios, mas as florestas vão se recuperar. Porém, se o aquecimento global continuar, não vai dar tempo, será impossível recuperar.”

Miguel, pesquisador do Coral Vivo, reconhece que solucionar um fenômeno de escala global “é muito difícil”, exigindo esforço coletivo. “A gente precisa se unir globalmente para uma produção de energia mais limpa, ter alguma chance de reduzir, quem sabe até parar, essa alta incidência de onda de calor.”

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