Manchas de óleo afetaram 60 praias e 8 áreas protegidas no CE entre 2019 e 2022, aponta novo estudo
Substância poluente matou animais e prejudicou a vida marinha que ainda se recupera do desastre ambiental
Após 4 anos do surgimento de manchas de óleo no litoral nordestino, pesquisadores cearenses ainda se debruçam para dimensionar os prejuízos para a vida marinha. No Estado, 8 unidades de conservação e 61 praias foram contaminadas em 2019 e outra vez em 2022, como identificou um artigo científico publicado neste ano.
Espaços ambiental e socialmente importantes foram afetados nos dois momentos, como Sabiaguaba, em Fortaleza, Praia Tremembé (Reserva Indígena), em Icapuí, e Prainha do Canto Verde, em Beberibe. Foram analisados estudos sobre os prejuízos para aves, tartarugas, corais, áreas de manguezal, além de dados de recuperação ambiental.
O estudo “Impactos ecológicos severos causados por um dos piores derramamentos de óleo do mundo”, numa tradução de Severe ecological impacts caused by one of the worst orphan oil spills worldwide, publicado na revista internacional Marine Environmental Research.
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Os estudos feitos mostram que os animais ingeriram as substâncias, houve mudança na proporção de sexo e tamanho das populações, anormalidades em larvas e ovos, alterações comportamentais e aumento da mortalidade, por exemplo. Com a extensão da área de impacto do derramamento, foram atingidas inclusive regiões que abrigam pelo menos 35 espécies ameaçadas de extinção, incluindo elasmobrânquios (subclasse que inclui tubarões e raias), peixes, invertebrados, pássaros migratórios, tartarugas marinhas e mamíferos marinhos.
"Alguns organismos conseguiram se recuperar, outros reduziram mesmo e outros, que foram tolerantes ao vazamento de óleo, até aumentaram. Então, isso modificou muito os ecossistemas", detalha o cientista Marcelo Soares, do Labomar, responsável pelo artigo ao lado da pesquisadora Emanuelle Fontenele Rabelo.
O artigo foi produzido pelo Instituto de Ciências do Mar (Labomar) da Universidade Federal do Ceará (UFC) e pela Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA). Esse é um artigo de revisão, ou seja, que reúne as principais informações produzidas sobre o assunto.
"É importante reunir esses estudos após 4 anos do crime ambiental porque a gente precisa entender até que ponto alguns ecossistemas foram impactados, como a biodiversidade – e que componentes dela – foram afetados", explica Marcelo Soares, do Labomar.
Os estudos de mapeamento e de ocorrência do poluente mostram que, pelo menos, 10 ecossistemas foram afetados, mas só 5 deles tiveram um detalhamento considerável: bancos de rodolitos, praias, prados de ervas marinhas, estuários com manguezais e recifes.
Houve recursos, mas demorou bastante para isso – havia uma limitação da época diante do Governo Federal, o problema da Covid impediu que a gente fosse a campo e alguns locais são difíceis de serem estudados pela profundidade
Existe, então, ausência de informações que prejudicam medidas de reparação ambiental porque os dados são usados para políticas públicas de recuperação de ambientes e apoio às comunidades.
"Por exemplo, existem várias ações na Justiça Federal e Estadual cobrando os responsáveis, tanto Poder Público como quem possivelmente fez o derramamento de óleo", completa Marcelo.
Impactos no Nordeste
O Ceará, e outros estados nordestinos como Pernambuco e Bahia, são prejudicados por uma dinâmica do mar. "Temos visto um problema ambiental recorrente e isso devido a nossa posição geográfica nordestina, que tem correntes marinhas que vêm do Oceano e trazem lixo e óleo das águas internacionais", completa Marcelo.
É importante que se diga que a Ciência conseguiu produzir muitos dados para muitos estados. Por exemplo, na Bahia está acontecendo um processo grande na Justiça e no Ministério Público e todas as informações científicas estão sendo usadas para pedir a reparação de danos
O artigo aponta que 10 diferentes ecossistemas foram atingidos pelo óleo, sendo os principais:
Área atingida dos ecossistemas do Nordeste
- Estuários: 4.929,74 km²
- Florestas de mangue: 489,83 km²
- Prados de ervas marinhas: 324,77 km²
- Praias: 185,30 km²
- Planícies de maré: 63,64 km²
- Corais de águas profundas: 45,95 km²
- Corais de águas rasas: 9,69 km²
As pesquisas feitas no Nordeste também registram alterações mutagênicas e morfológicas de espécies, contaminação por metais e hidrocarbonetos tóxicos, mudanças nas taxas de sobrevivência, diminuição na riqueza geral das espécies e aumento oportunista de organismos mais tolerantes a óleos.
Controle do impacto
O Diário do Nordeste buscou a Secretaria de Meio Ambiente do Ceará para entender as ações realizadas durante o aparecimento de manchas de óleo e o que é feito para evitar novas contaminações.
Por meio de nota, a Sema informou que o monitoramento por via aérea, terrestre e marítima foi realizado para identificar a aproximação de manchas de óleo no litoral do Ceará. As ações foram acionadas em parte pelo Governo Federal e o acompanhamento feito pelo Grupo de Acompanhamento e Avaliação (GAA), com apoio da Marinha, do Ibama e da Agência Nacional de Petróleo (ANP).
Em parceria com instituições públicas e privadas, o Governo Estadual também fez o trabalho de quantificar as áreas afetadas pelas manchas de óleo, por meio de ações de limpeza das praias, pesquisa, coletas e análises.
A Sema, junto com a Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace), também atuou nas ações de limpeza nas Unidades de Conservação estaduais.
Foram feitas vistorias nos pontos afetados, aquisição de materiais e equipamentos de proteção individual (EPIs) e distribuição desses equipamentos às prefeituras litorâneas, organização de limpeza das praias, monitoramento, pesquisa em amostragem do óleo e das águas marinhas.
Ações da Sema:
- Monitoramento aéreo e terrestre;
- Organização de ações de limpeza das praias;
- Coleta, armazenamento e destinação do petróleo recolhido para o co-processamento de resíduo. Em todo o litoral (573 Km) foram recolhidos cerca de 25 toneladas de resíduos oleosos – todo o material recolhido foi transportado pela Semace para incineração em uma indústria cimenteira;
- Distribuição de EPI's para as prefeituras municipais, Defesa Civil e Capitania dos Portos;
- Também foram analisadas as Cartas SAO (Sensibilidade a Acidentes de Óleo), em que foram apresentados 10 pontos com maior sensibilidade e, por isso, o Rio Jaguaribe e o Rio Curu foram priorizados nas ações.
Em relação à prevenção de novas contaminações, a Sema destacou que foi aprovado o Projeto Planejamento Espacial Ambiental (PEA): uma ferramenta de inovação e gestão sustentável da Zona Costeira, no qual será elaborado o Plano de Ação Contingência por Derrame de Óleo;
A Sema também promoveu o encontro de apresentação da Equipe Técnica do Planejamento Espacial Ambiental (PEA), no contexto do Programa Cientista Chefe Meio Ambiente.
“O Ceará tem se destacado nos últimos anos como exemplo de união entre a academia e a gestão pública na área ambiental. Isso se deve à abordagem inovadora e às políticas públicas implementadas no estado nos últimos anos”, detalhou a Secretaria.
Quando surgiram as manchas
As primeiras manchas de óleo, associadas a um vazamento de petróleo cru, chegaram ao Ceará em agosto de 2019. O volume de material, somando petróleo cru e areia, chegou ao total de 39,55 toneladas retiradas em 19 municípios atingidos, com destaque para Caucaia e São Gonçalo do Amarante, com monitoramento feito em 101 localidades.
Já em fevereiro de 2022, pelo menos 64 praias do Ceará foram contaminadas com manchas de óleo, como noticiou o Diário do Nordeste com base no balanço da Secretaria do Meio Ambiente (Sema).
Na época, o professor Rivelino Cavalcante do Labomar – uma das referências científicas no estudo das manchas de óleo – identificou que a substância poluente de 2022 era diferente da de 2019.