Mais de 3h sentados: alunos de escolas privadas são mais sedentários que os da rede pública no CE
Quase metade dos jovens passa mais de 3 horas em frente a telas.
O comportamento sedentário, caracterizado pelo tempo prolongado em que o jovem permanece sentado ou deitado assistindo à televisão ou usando o celular, computador, tablet ou videogame, é uma realidade mais comum entre alunos da rede privada de ensino do Ceará do que entre os que frequentam escolas públicas.
A constatação é da última Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), divulgada no fim de março pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O levantamento reúne informações sobre fatores de risco e proteção à saúde de adolescentes de 13 a 17 anos do Brasil.
Segundo os dados, 57,7% dos alunos cearenses de escolas particulares relataram permanecer sentados por mais de três horas diárias (excluindo tempo de aula e deslocamento). Na rede pública, o índice foi de 38,8%.
Essa disparidade segue uma tendência nacional, pela qual os indicadores de sedentarismo são superiores entre estudantes de maior nível socioeconômico. No Brasil, de modo geral, o sedentarismo marcou 58,5% na rede privada e 41,9% na rede pública.
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Além disso, o levantamento constatou que a permanência sentada por mais de três horas diárias foi mais relevante entre os meninos cearenses (feminino: 40,9%; masculino: 41,3%). Nacionalmente, o percentual foi inverso: 44% entre rapazes e 45,1% entre moças.
A estimativa de alunos sedentários de escolas particulares superou 50% em todas as capitais brasileiras, tendo atingido o máximo de 63,8% no Recife. Em Fortaleza, o índice foi de 57,4%, contra 48,3% da rede pública.
“Essas evidências sinalizam a precocidade na incorporação de hábito cuja permanência está associada, em longo prazo, a aumento no risco de doenças cardiovasculares, câncer e mortalidade por todas as causas”, sublinha o IBGE, citando observações da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Para Welton Godinho, membro do Conselho Regional de Educação Física da 5ª Região (CREF-5) e do Conselho Estadual de Saúde do Ceará (Cesau-CE), o sedentarismo entre jovens tornou-se um desafio crítico de saúde pública: segundo o especialista, 84% dos adolescentes brasileiros são insuficientemente ativos.
Uma das hipóteses centrais para os índices de inatividade serem ainda maiores na rede privada em comparação à pública reside no acesso facilitado a dispositivos tecnológicos e no comportamento das classes mais altas. Excesso de telas e a falta de incentivo familiar, muitas vezes pautada pela insegurança em utilizar espaços públicos, moldam esse cenário.
“As redes sociais acabam substituindo os hábitos que as crianças antigamente tinham de estar praticando atividades ao ar livre, principalmente correndo, jogando e escalando", observa Godinho.
Os prejuízos a longo prazo para essa geração podem ser severos, ultrapassando a esfera física e atingindo, sobretudo, a saúde mental. O profissional de educação física destaca uma inversão preocupante: atualmente, há mais crianças com sobrepeso do que com desnutrição, o que tem gerado casos precoces de diabetes tipo 2 e hipertensão em jovens de 16 e 17 anos.
Além de possíveis problemas posturais e metabólicos, alerta, o isolamento físico pode impactar o psicológico, elevando quadros de ansiedade e depressão, uma vez que a baixa autoestima também é alimentada por padrões estéticos propagados pelas redes sociais.
Tempo vendo telas
O excesso de tempo em frente a telas é um dos principais vilões desse cenário. No País, mais de um terço dos escolares (36,7%) assiste a mais de duas horas diárias de televisão ou vídeos em plataformas digitais. Essa exposição precoce a telas é 13% superior entre os alunos mais jovens, de 13 a 15 anos, do que no grupo de 16 e 17 anos.
No Ceará, esse percentual é de 35,6%, superior entre os meninos (36,8%) em relação às meninas (34,3%). Mais uma vez, alunos da rede privada (41,1%) tiveram consumo de telas superior aos da rede pública (34,8%).
Embora o Ceará apresente esse contraste entre as redes, a infraestrutura escolar para a prática de exercícios também mostra gargalos. Segundo a PeNSE, 31,3% dos escolares cearenses de 13 a 17 anos relataram não ter tido nenhum dia de aula de educação física na escola, nos sete dias anteriores à pesquisa.
O maior acesso às atividades práticas ocorreu na rede pública, onde 30,2% dos estudantes mencionaram a falta de aulas. Na rede particular, o índice foi de 39,5%.
Disciplina obrigatória nas escolas
O Ministério da Educação (MEC) ressalta que, pela Lei Federal nº 10.793/2003, a Educação Física é um componente curricular obrigatório da Educação Básica, sendo sua prática facultativa ao aluno que:
- trabalha 6 horas ou mais por dia
- tem mais de 30 anos
- está no serviço militar
- tem condição de saúde que justifique dispensa
- tem filhos (prole)
Já a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) descreve a disciplina em seis unidades temáticas possíveis de abordagem no cotidiano escolar:
- Brincadeiras e jogos
- Danças
- Lutas
- Ginásticas
- Esportes
- Práticas corporais de aventura
Em complemento, o Conselho Estadual de Educação do Ceará (CEE) estabelece, na resolução Nº 412/2006, que cada escola deve “dispor de espaço para Educação Física, proporcional ao número de matrículas e de material adequado para a parte teórica e prática”, podendo celebrar parcerias com instituições que tenham espaços adequados.
Além disso, na prática, a Educação Física deve ser ministrada por professor habilitado em curso de licenciatura na área. Sob a forma de recreação, pode ser ministrada por professor polivalente na Educação Infantil e nas séries iniciais do Ensino Fundamental.
Em nota, a Secretaria da Educação do Ceará (Seduc) – responsável por ofertar o Ensino Médio público – declarou que, no currículo das escolas estaduais, o componente Educação Física tem 1 hora/aula semanal. Nas Escolas que ofertam o Tempo Integral (hoje presente em 88% das escolas), são garantidas 2 horas/aula semanais a mais.
A parte prática, ressalta, “não depende unicamente da existência e funcionamento de atividades ligadas à quadra poliesportiva, mas demais atividades de movimento e consciência corporal”.
Importante destacar que nas aulas de outros componentes curriculares essa perspectiva de movimento também acontece. O planejamento deve respeitar as especificidades dos estudantes, sua faixa etária, interesses, necessidades e possíveis restrições, garantindo participação inclusiva.
Na rede municipal Fortaleza, o componente curricular Educação Física é ofertado do 1º ao 9º ano do Ensino Fundamental, com carga horária de 2 horas semanais, de acordo com a Secretaria Municipal da Educação (SME).
No Documento Curricular Referencial de Fortaleza (DCRFor), a área é compreendida não apenas pelo movimento corporal, “mas também aprendizagens relacionadas à convivência, à inclusão, ao protagonismo estudantil e à promoção da saúde”.
“A rede municipal trabalha a prevenção ao sedentarismo em duas frentes complementares: pela garantia de um tempo mínimo semanal de prática corporal nas aulas de Educação Física e pela abordagem ampliada da saúde no currículo, incentivando hábitos de vida mais ativos, saudáveis e conscientes”, conclui a Secretaria.
A reportagem fez os mesmos questionamentos ao Sindicato de Educação da Livre Iniciativa do Estado do Ceará (Sinepe), que agrega diversas escolas particulares do Estado, mas não obteve retorno até esta publicação.
Adesão deve crescer
Para enfrentar o sedentarismo, segundo o profissional de educação física Welton Godinho, o CREF-5 estabeleceu diálogo com a Seduc para promover a formação de professores e dinamizar as aulas de Educação Física. O foco é otimizar o tempo de movimento, já que, em uma aula de 50 minutos, o aluno raramente permanece ativo por mais de 20 minutos.
Godinho explica que o objetivo é oferecer oficinas que tornem a prática mais atrativa e frequente. “A gente está propondo oficinas para dinamizar, para ter um acréscimo nesse tempo quando as crianças estão nessa aula prática”, afirma ele, visando combater a ociosidade dentro do ambiente escolar.
Entretanto, a expansão do ensino integral impõe dificuldades logísticas que precisam ser repensadas para não confinar o aluno apenas ao estudo teórico. A estratégia atual foca na utilização de disciplinas eletivas para incluir práticas esportivas e rítmicas, tentando garantir pelo menos três aulas semanais de atividade física no Ensino Médio.
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O especialista enfatiza que a mudança efetiva na saúde dos jovens começa no ambiente doméstico, onde os hábitos são consolidados. Ele recomenda que os pais busquem a conscientização e sirvam de exemplo, pois o comportamento dos filhos costuma ser reflexo direto do estilo de vida dos adultos, tanto na atividade física quanto na alimentação.
“Quando o pai acha que o filho está com sobrepeso, normalmente ele está numa casa onde os pais são inativos também”, conclui, sugerindo que a prática esportiva e a alimentação saudável devem ser compromissos de toda a família no combate à obesidade.