Quarentenário e dietas: o que é feito no Zoológico de Fortaleza para garantir bem-estar dos animais
O comportamento inadequado de parte da população que visitou o local pode prejudicar a qualidade de vida dos bichos.
O Zoológico Municipal Sargento Prata, localizado no bairro Passaré, em Fortaleza, teve o horário de funcionamento readequado após registrar grande fluxo de visitantes — além de episódios de comportamento inadequado por parte de alguns frequentadores — durante a reabertura do espaço, ocorrida no último fim de semana. Diante desse cenário, o quê tem sido feito no equipamento para garantir o bem-estar dos animais?
Ao todo, são 350 animais, de 95 espécies, que ainda estão em fase de adaptação à presença do público e aos novos recintos, já que o local foi reaberto após mais de 2 anos fechado para reforma. O equipamento, gerido pela Autarquia de Urbanismo e Paisagismo de Fortaleza (UrbFor), passa a funcionar de quarta-feira a domingo, das 9h às 16h, reservando as segundas e terças-feiras exclusivamente para manutenção e estruturas e realização de “manuseios que sejam necessários com os animais”.
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Segundo Raphael Martins, diretor de Conservação e Monitoramento da UrbFor, o intervalo temporário foi essencial para garantir a avaliação minuciosa do comportamento e do bem-estar dos animais.
“Zoológicos de outros estados e países possuem esse lapso temporal para que seja possível fazer, como em qualquer equipamento, a manutenção e o acompanhamento de qualquer atividade interna”, afirma em entrevista ao Diário do Nordeste.
Assim, são realizadas adequações como o cuidado das mudas, dos jardins, manutenção de placas e sinalizações, manejo de observação de algum animal que seja necessário, e outras ações.
Respeito ao comportamento animal é prioridade
Os animais do Zoológico de Fortaleza são acompanhados por uma equipe técnica multidisciplinar, que envolve biólogos, veterinários e técnicos. Dietas, cuidados, ambientação e serviços são realizados pelos tratadores diariamente — até mesmo quando há público no espaço.
“É uma avaliação contínua de como esse animal está, de qual comportamento apresenta [...] Mesmo quando tem público, os tratadores estão ali fazendo os trabalhos necessários, colocando um poleiro, colocando um outra atividade para que aquele animal possa passar seu tempo, possa se ocupar, porque são atividades que eles precisam, já que eles estão em cativeiro e por algum motivo, não podem ser devolvidos à natureza.”
Esse acompanhamento diário possibilita, por exemplo, o estabelecimento de parâmetros de comodidade dos animais e identificação de qualquer comportamento fora do padrão.
“Ao ser identificado algum animal que não se adequa à visitação especificamente, certamente ele será retirado desse recinto onde o público tem acesso e será levado para uma área restrita que a gente chama de quarentenário ou setor extra, que é restrito ao público”, diz Raphael.
Além disso, cada recinto é preparado de forma a possibilitar o melhor bem-estar possível das espécies e seguindo as normas determinadas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
A legislação estabelece “cada tipo de substrato, tamanho e altura do recinto, quantos animais tem em cada espaço, se vai ser um animal que tem o hábito de viver em grupo ou solitário”, explica Raphael, e acrescenta que "tudo isso é avaliado, analisado, até porque o empreendimento por si só só funciona se ele atender a essas questões legais”.
“Todos possuem ponto de fuga, onde esse animal pode se esconder se ele não quiser ser visto. Tem ponto de solário, onde esse animal pode pegar só um banho de sol caso ele tenha essa necessidade. Tem também ponto coberto para ele conseguir se proteger da chuva, além de água fresca todo dia, recintos lavados, tanques lavados com água fresca, alimentação fresca que é ofertada todos os dias”, explica Martins.
O respeito ao comportamento natural é prioridade no Zoológico Municipal Sargento Prata, reforça Raphael. Se um animal estiver dormindo ou escondido em seu "ponto de fuga", sua vontade deve ser respeitada.
Por exemplo, orienta que as pessoas não fiquem gritando e tentando chamar atenção do animal, porque esses bichos estão expressando comportamento natural deles no momento em que eles querem.
“Se não conseguiu ver aquele animal naquele momento acordado, termina de fazer a visita. Vai lá no horto, faz um piquenique, leva o menino para brincar no parquinho, lancha, volta um pouco depois, vê se ela acordou, porque esses animais vão expressar o comportamento natural deles”, afirma.
Públio Rocha esteve de volta ao Zoológico Municipal nesta quinta-feira (16) após 30 anos. Ele conta ao Diário do Nordeste que visitou o equipamento quando criança e relembrou da mãe em muitos momentos da visita. Agora, ele retornou com a esposa, os filhos e a neta de 3 anos, Beatriz.
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“Muito bom, principalmente para as crianças... um espaço legal, fica marcado na vida das pessoas”, disse Fátima Rocha, esposa de Públio. “Minha netinha está super empolgada com os animais. Todo mundo quer ver a onça, mas a onça tava dormindo. Acho que ela tava no momento dela de dormir”, completa Públio.
Mudanças na rotina
Na terça-feira (14), a UrbFor informou que o Parque Zoobotânico de Fortaleza — que inclui o Zoológico e o Horto Municipal — ficaria fechado por dois dias “devido ao grande número de visitantes registrados na reinauguração”. Conforme a nota, os animais passaram “por uma mudança significativa na rotina, o que demanda um acompanhamento mais cuidadoso neste momento”.
Quem esteve no equipamento no domingo, dia após a reabertura, foi o casal de bancários Lívia Leite e João Barbosa. Ao Diário do Nordeste, eles afirmaram que o Zoológico estava “muito lotado” e só foi possível entrar no Horto. “A gente deu uma volta só no Parque, mas a parte mesmo de entrar no zoológico estava muito lotado, aí a gente deixou para ver outro dia”, diz Lívia.
Nesta quinta-feira (16), eles voltaram ao local, com mais tranquilidade, para observar as diferentes espécies. Lívia diz que já conhecia o Zoológico, enquanto João estava no equipamento pela primeira vez.
“Nós estávamos torcendo bastante [pelo retorno] porque é um ponto turístico. A gente espera que fique sempre bem cuidado para que até as pessoas de fora tenham curiosidade de conhecer”, completa.
Conscientização do público
O diretor também reforçou a importância dos visitantes seguirem normas rígidas de convivência para garantir o bem-estar dos animais. Nos dois primeiros dias de abertura, um grande fluxo de visitantes foi registrado e alterou significativamente a rotina da fauna.
Ele destaca que o Zoológico de Fortaleza não é apenas um local de exposição, mas um centro de conservação para os animais e de educação ambiental para as crianças.
“Ele é importante porque é um equipamento que recebe animais que participam de projetos de conservação, vieram de resgate, sofriam maus-tratos e agora eles estão tendo todo o aparato que precisam, como acompanhamento técnico e cuidados necessários”, diz Raphael.
“Quando a gente fala do lazer, o público pode vir até aqui para conhecer algumas espécies que provavelmente não viria se fosse um zoológico. Ele teria que ir para a natureza, para a mata, para a floresta para poder ver. Além disso, receber a educação ambiental, a conscientização sobre espécies que têm representatividade para o Brasil, até para que a gente consiga formar, principalmente crianças”
Assim, por ser uma unidade de preservação animal, o equipamento exige o cumprimento de regras rigorosas de convivência entre o público e os bichos do acervo:
- Proibição de alimentar os animais: eles possuem uma dieta balanceada e minuciosa, e alimentos externos podem causar doenças graves;
- Manutenção do silêncio: é proibido gritar ou fazer barulhos que assustem a fauna. Restrição de objetos: Não é permitido entrar com bolas, balões ou brinquedos que possam ultrapassar as barreiras de segurança e atingir os animais;
- Alimentos e bebidas dentro do parque: É proibida a entrada com qualquer alimento ou bebida, exceto água, para evitar o descarte incorreto de resíduos e a oferta inadequada aos animais.
“As pessoas precisam cuidar disso aqui como se fosse uma coisa sua. É pertencimento de todos. Na hora que se quebra um guarda-corpo, que quebra o banheiro, que não tem cuidado com o equipamento que é público, a própria visitação para eles vai ser prejudicada com isso. E principalmente que eles respeitem as regras de visitação”, diz Martins.
Reaberto após três anos
O Zoológico Municipal Sargento Prata teve sua reabertura realizada no último sábado (11), como parte das comemorações do tricentenário de Fortaleza. O equipamento que passou cerca de três anos fechado foi revitalizado e abriu as portas ao público com um acervo maior de animais.
O estabelecimento está localizado na avenida Prudente Brasil, número 685, no bairro Passaré, em Fortaleza.
Entre as novidades do espaço está a única família de primatas guariba-da-caatinga em cativeiro do mundo, as onças-pintadas e a possibilidade de o público ficar lado a lado com araras-vermelhas e outras aves em um viveiro de imersão.
Nesta primeira fase, o acesso ao zoológico é gratuito. O movimento de visitantes servirá de base para um estudo que definirá valores de ingressos e políticas de meia-entrada e gratuidade. Ainda não há uma data prevista para o início da cobrança.
Confira as principais regras para a visitação do Zoológico Municipal Sargento Prata:
- Não alimente os animais;
- Não ultrapasse, suba ou se incline nas barreiras de proteção;
- Não arremesse objetos nos animais;
- Não grite ou faça barulhos que possam assustar os animais;
- Evite fotos com flash;
- Não é permitido entrar com alimentos ou bebidas que não sejam água;
- Não é permitido entrar com bolas, balões, entre outros brinquedos (estes podem ultrapassar as barreiras de segurança e causar prejuízos à saúde dos animais);
- Proibido fumar (a fumaça pode causar prejuízos à saúde dos animais);
- Não é permitido o uso de fogo, isqueiro, velas, entre outros;
- Proibido fazer brincadeira de correr, pular, pegar ou esconder na área dos animais.