Do Horto ao Santo Sepulcro: Lugares Sagrados de Juazeiro do Norte podem virar ‘Patrimônio do Brasil’

Prazo para contribuições da comunidade se encerra neste sábado (5); veja como participar

Escrito por
Ana Alice Freire* ana.freire@svm.com.br
Vista aérea da estátua de Padre Cícero no Horto, em Juazeiro do Norte (CE), durante o dia. O monumento branco se destaca sobre uma grande praça com visitantes circulando e observando a paisagem do entorno. Ao fundo, aparecem áreas urbanas, vegetação e colinas sob céu azul com nuvens dispersas.
Legenda: A Colina do Horto, um dos equipamentos que pode se tornar Patrimônio Cultural do Brasil, também ocupa papel central na experiência religiosa dos visitantes. Além da estátua do Padre Cícero, o local abriga espaços de contemplação e memória que atraem milhares de peregrinos todos os anos.
Foto: Gustavo Pelizzon

Os Lugares Sagrados de Juazeiro do Norte, complexo de espaços de peregrinação e devoção popular, estão em processo de inscrição no Livro de Registro dos Lugares, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), etapa que pode garantir o reconhecimento do conjunto como Patrimônio Cultural do Brasil.

A iniciativa abrange ainda a colaboração da comunidade. Desse modo, habitantes, devotos, pesquisadores e outros interessados podem fornecer propostas, pontos de vista e conhecimentos para apoiar a deliberação do processo junto ao Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural.

O reconhecimento no livro mira em proteger espaços onde a cultura é vivenciada e transmitida. Feiras, mercados, praças e santuários são alguns dos locais inscritos, que evocam a efervescência das práticas culturais e sociais que acontecem ali, formando a identidade das comunidades locais.

A proposta contempla espaços da cidade marcados pela trajetória do Padre Cícero Romão Batista, pelas memórias do chamado Milagre de Juazeiro, ocorrido em 1889, e pelas práticas religiosas que transformaram o município em um dos principais centros de peregrinação do país.

A candidatura reúne locais que integram a experiência de fé dos romeiros e que, ao longo de mais de um século, passaram a compor uma geografia sagrada construída pela devoção popular. Entre eles estão:

  • Santuário Basílica de Nossa Senhora das Dores;
  • Capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, onde repousam os restos mortais do Padre Cícero;
  • Fundação Memorial Padre Cícero;
  • Santuário de São Francisco das Chagas;
  • Igreja Matriz de São João Bosco;
  • Geossítio Colina do Horto;
  • Santo Sepulcro - trilha no Geossitio Coluna do Horto onde estão a Pedra do Pecado, da escada e da coluna, a Capela de Santa Edwirges,o túmulo do Beato Manoel Joao (um dos beatos que viveram na época do Padre Cícero), a Capela de Santana e uma outra capelinha.
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Como participar da consulta pública

Os posicionamentos podem ser encaminhadas para o e-mail conselho.consultivo@iphan.gov.br ou por correspondência ao Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural. 

O exame dos subsídios coletados deve ocorrer no próximo dia 10 de junho. Havendo a anuência do projeto pelo Conselho Consultivo do Iphan, os Sítios Sagrados de Juazeiro do Norte passarão a constar no Livro de Registro de Lugares.

Fotografia tirada pelas costas de um padre de túnica verde, que celebra uma missa campal na imagem anderson araújo.jpeg. Diante dele, fiéis e vaqueiros montados a cavalo assistem à cerimônia em uma área rural. Ao fundo, há uma grande cruz de madeira fixa no chão, fumaça dispersa e uma casa simples com telhado de barro. O dia está ensolarado.
Legenda: A Basílica Santuário Nossa Senhora das Dores, inaugurada em 1875 pelo Padre Cícero, é um dos principais destinos de peregrinação de Juazeiro do Norte
Foto: Divulgação/Basílica Santuário Mãe das Dores.

Presidente da Fundação Memorial Padre Cícero, Teresa Maria explica que os lugares escolhidos guardam uma relação direta com a vida e a obra do sacerdote. “São lugares por onde o Padre Cícero passou, onde ergueu monumentos e deixou marcas que permanecem vivas na memória dos romeiros”, afirma.

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Entre os espaços destacados está a Igreja do Socorro, onde o religioso celebrou missas e onde hoje se encontra seu túmulo. Já o Memorial Padre Cícero preserva documentos, objetos pessoais, vestimentas e outras relíquias ligadas ao sacerdote. Segundo Teresa Maria, o local ultrapassa a função museológica e se tornou um espaço de devoção.

“O romeiro vem pedir, agradecer, chora diante da batina do Padre Cícero. Temos cartas escritas por ele, vestimentas que utilizou e diversos objetos que ajudam a contar sua história”, destaca.

A Colina do Horto também ocupa papel central na experiência religiosa dos visitantes. Além da estátua do Padre Cícero, o local abriga espaços de contemplação e memória que atraem milhares de peregrinos todos os anos. Para Teresa Maria, a cidade vive hoje um fluxo permanente de visitantes religiosos.

Geografia da fé no Cariri

A proposta de registro dos Lugares Sagrados de Juazeiro do Norte é resultado de um processo de pesquisa iniciado há mais de duas décadas.

Fotografia diurna da fachada e lateral de uma grande igreja de arquitetura clássica, pintada em tons de amarelo claro e ocre. A construção possui telhado de barro avermelhado, janelas em arco com detalhes em azul e uma imponente torre sineira ao fundo com um relógio e um teto pontiagudo branco coroado por uma cruz. O céu está azul com poucas nuvens e há árvores verdes na base.
Legenda: Foi o próprio Padre quem abriu as portas da cidade para acolher os frades franciscanos e erguer o Santuário de São Francisco das Chagas.
Foto: Divulgação/Prefeitura Municipal de Juazeiro do Norte.

Segundo Igor de Menezes, técnico do Iphan Ceará e responsável pela coordenação técnica do dossiê, a iniciativa surgiu no contexto do Projeto Cariri, desenvolvido pelo Instituto a partir dos anos 2000 para identificar e documentar referências culturais de destaque na região.

A Região do Cariri foi identificada como um território de grande riqueza cultural, reunindo diversas manifestações e referências culturais de relevância para o país. A partir dessa constatação, alguns bens culturais da região foram selecionados para estudos mais aprofundados e ações de pesquisa. Entre eles estavam os Lugares Sagrados de Juazeiro do Norte, a Festa do Pau da Bandeira, as Bandas Cabaçais, a obra de Patativa do Assaré e a produção artística do escultor Manuel Graciano, entre outros
Igor Menezes
Técnico do Iphan no Ceará

Desenvolvido em parceria com a Universidade Regional do Cariri (Urca), o projeto reuniu pesquisadores e professores em um amplo trabalho de documentação e pesquisa. Inventários, levantamentos documentais e entrevistas com praticantes e detentores dessas manifestações culturais subsidiaram a elaboração dos estudos. No caso dos Lugares Sagrados, o material produzido serviu de base para a construção do dossiê atualmente analisado pelo Iphan.

"Esse conjunto de pesquisas foi fundamental para reunir informações e aprofundar o conhecimento sobre sua importância histórica, cultural e religiosa", destaca Menezes. Entre os pesquisadores envolvidos esteve a professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Regional do Cariri (Urca), Renata Marinho Paz, que coordenou uma das etapas dos trabalhos.

O reconhecimento em âmbito nacional se soma a medidas recentes de valorização do patrimônio religioso de Juazeiro do Norte. Em setembro de 2025, o município reconheceu oficialmente o Ciclo de Romarias e a Estátua de Padre Cícero, na Colina do Horto, como patrimônios culturais da cidade, por meio das Leis nº 5.900/2025 e nº 5.901/2025.

Enquanto a primeira norma reconhece as romarias e demais manifestações populares ligadas à fé e à identidade histórica do município, a segunda concede à estátua do Padre Cícero o título de Patrimônio Cultural, Material, Turístico e Religioso de Juazeiro do Norte. Caso seja aprovado pelo Iphan, o registro dos Lugares Sagrados representará mais um passo no reconhecimento institucional da importância histórica, cultural e religiosa da cidade-santuário.

Lugares construídos pela devoção popular 

Para Renata Marinho Paz, os Lugares Sagrados são definidos não apenas pelas construções ou monumentos, mas pela relação estabelecida pelos romeiros com esses espaços.

Ela destaca, por exemplo, a importância da Basílica de Nossa Senhora das Dores, considerada pelos devotos a “casa da mãe”, e da Colina do Horto, vista como um espaço de forte proximidade com o sagrado.

“Uma romeira me disse certa vez que ali é um lugar onde a gente pisa mais leve. O Horto foi constituído pela expressão devocional dos romeiros e guarda uma ligação muito forte com a memória do Padre Cícero”, explica.

É um coroamento da importância das romarias de Juazeiro do Norte. Mas é importante lembrar que elas não dependem dessa chancela para existir. Foram constituídas pela mobilização do povo, pela fé dos romeiros e pela devoção ao Padre Cícero e a Nossa Senhora das Dores
Renata Marinho Paz
Docente de Ciências Sociais da URCA

Além do reconhecimento simbólico, Renata ressalta que o registro cria instrumentos de acompanhamento e salvaguarda capazes de contribuir para a preservação dos espaços diante das transformações provocadas pelo crescimento do turismo religioso.

“Esses lugares vêm passando por mudanças muito rápidas. O registro implica um acompanhamento permanente do que acontece com eles e mobiliza tanto o Iphan quanto a sociedade para garantir que continuem sendo importantes para as futuras gerações”, avalia.

O que muda se o registro for aprovado

O registro dos Lugares Sagrados de Juazeiro do Norte pelo Iphan abre caminho para a implementação de políticas permanentes de preservação. Segundo Igor de Menezes, uma das principais consequências do processo é a construção de instrumentos voltados à proteção e à continuidade das práticas culturais associadas ao bem.

"O reconhecimento dá início ao desenvolvimento de uma série de ações de salvaguarda. Entre elas está a elaboração do Plano de Salvaguarda, construído de forma coletiva e participativa com a comunidade detentora", explica Igor.

De acordo com o técnico, o plano deverá estabelecer ações de curto, médio e longo prazo voltadas à valorização e à sustentabilidade dos Lugares Sagrados. "Os principais efeitos desse reconhecimento são, de um lado, a formalização do valor cultural do bem por meio de um órgão federal especializado e, de outro, a perspectiva de implementação de ações futuras destinadas a fortalecer sua preservação e sua viabilidade ao longo do tempo", afirma.

A medida busca garantir que os espaços de devoção e as práticas religiosas ligadas às romarias continuem preservados diante das transformações sociais, urbanas e econômicas que vêm marcando a cidade-santuário nas últimas décadas.

*Estagiária sob supervisão da jornalista Dahiana Araújo. 

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