O valor do silêncio: a brasa que a gente guarda no peito

No meio do barulho do dia, às vezes é só uma pausa — daquelas da hora do almoço ou de fim de tarde — que devolve o rumo e o ânimo.

Escrito por
Adalberto Barreto producaodiario@svm.com.br
Legenda: Evocadas pelo silêncio, as boas lembranças reacendem a esperança e recuperam energias vitais.
Foto: Shutterstock/KieferPix.

Tem silêncio que não é falta. É presença. Não é aquele silêncio sem graça de quem travou na conversa ou de quem não tem o que dizer. Não se trata do silêncio do carneiro, que se mantém calado mesmo quando estão matando-o. Ele não berra nem exprime sua dor; é imolado em silêncio.

O silêncio de que falo é diferente: não é resignação nem sufocamento. É uma escolha consciente, uma presença que acolhe, que permite sentir e entender o que está dentro, sem precisar gritar ou implorar por atenção. É um silêncio que chega manso, como vento que atravessa o alpendre, e põe a casa por dentro em ordem.

A gente vive cercado de som: motor, rádio, televisão ligada “só pra fazer companhia”, mensagem apitando no celular, opinião de todo lado. E, nessa zoada, o silêncio verdadeiro vira quase artigo de luxo — desses que não se compra, só se cultiva.

Quando a gente desliga um pouco do barulho do presente — do lado de fora e do lado de dentro — acontece uma limpeza que nem sempre dá para explicar.

Parece que o pensamento cria asas, o peito desamarra e a gente volta a escutar o que vinha sendo empurrado para debaixo do tapete: lembrança, saudade, medo, gratidão. Para muita gente, esse recolhimento é também lugar de fé: um canto onde o divino se aproxima sem alarde, como quem chega devagarinho, respeitando a porta entreaberta. 

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O silêncio não vem vazio; ele vem cheio. E talvez o mais bonito seja isso: o silêncio vem cheio de recordações. No silêncio, a memória faz seu serviço de costureira e junta pedaços da gente que ficaram espalhados — e aí eu lembro do filósofo Blaise Pascal, quando disse que boa parte do nosso aperreio vem de não sabermos ficar quietos por um instante.

Às vezes, basta fechar os olhos para voltar à casa de nossos avós no sertão: o terreiro varrido, a panela no fogo, o cheiro de café, a conversa baixa na cozinha, o conselho dito sem pressa.

Essas boas lembranças — principalmente as da infância, vividas com nossos avós — reacendem a esperança e recuperam energias vitais. Como se a vida dissesse, baixinho: “Tu já passaste por muita coisa e ainda estás aqui. Vai dar certo de novo”. 

O silêncio é o oxigênio que acende a brasa que nos aquece e nos ilumina. 

Eu penso no silêncio como penso numa brasa de fogão a lenha que ficou do almoço. A brasa está viva, vermelhinha, mas precisa de ar. Um sopro e ela clareia. Sem esse oxigênio, vai se apagando até virar carvão, escuro e frio. No sertão, a gente conhece bem o silêncio do meio-dia: o sol de rachar, o terreiro vazio, a sombra apertada debaixo do cajueiro ou do juazeiro, e até o mundo parece falar mais baixo.

E tem outro silêncio que o Ceará guarda na lembrança: o do cochilo, a ciesta depois do almoço, quando o sol esquenta, a chaleira chia no fogão e a rede nos convida ao repouso. Nesse intervalo, a cabeça desacelera, o corpo refaz as forças e a gente volta diferente, mais inteiro.

Dentro da gente também mora uma brasa: o ânimo de levantar-se, os valores que seguram a mão quando a vida aperta, a coragem de pedir desculpa, o cuidado com quem caminha com a gente. O silêncio é esse sopro — e essa pausa — que reacende por dentro. 

Quando a brasa se afasta do fogo, perde o brilho. Com a vida da gente é parecido: quando a gente se distancia do que norteia — respeito, gratidão, reconhecimento, responsabilidade, fé, compromisso com o outro —, vai ficando opaco, sem luz, como carvão no canto do fogão.

E repare: não é falta de correria ou do que fazer, não. Às vezes é correria demais. A pressa vira costume, a cabeça vira chaleira fervendo ou feira agitada, e a gente vai esquecendo de onde é que vem o calor que aquece a alma e sustenta a caminhada. 

Fogo, para se manter aceso, precisa de ventilação

No Ceará, a gente sabe o valor de um vento bom: ele refresca, ele varre, ele muda o ar da casa. Guardadas as proporções, criar espaço para o silêncio é como abrir a janela do peito para esse vento entrar. E tem uma frase antiga, atribuída a Lao Tsé, que cai como luva: “quem sabe, cala; quem fala demais, se perde”.

Cada um encontra seu jeito: um começo de manhã com a rua ainda acordando e o café coando na cozinha; um pedaço de sombra no quintal, só escutando o chiado do vento nas árvores; um fim de tarde na calçada olhando o tempo e cumprimentando quem passa.

No sertão, pode ser a estrada de chão ainda fresca, o canto do passarinho antes do calor apertar, o silêncio da noite cheia de estrelas, ou a chuva miúda batendo no telhado quando ela resolve chegar. Seja aonde for, a pausa não se impõe — a gente é que precisa dar passagem. 

No fim das contas, soprar sobre a própria brasa interior é um cuidado de todo dia. Não pede retiro grande nem cenário bonito: pede decisão e um tantinho de constância. Cinco minutos já ajudam. Dez, então, nem se fala. O silêncio reorganiza a bagunça, clareia a escuridão miúda e devolve a gente para si.

E, se eu pudesse deixar uma última imagem, deixava esta: a vida da gente é como casa em dia de ventania — se a gente não fecha uma porta aqui e abre uma janela ali, o ar não circula e tudo fica pesado; ou então o vento espalha tudo. O silêncio é essa janela. É quando a gente para, respira e lembra de onde veio, para onde quer ir e quem ainda vale a pena levar junto.

Tem outra frase, atribuída a Thomas Merton, que ajuda a entender esse recolhimento: “o silêncio é a linguagem de Deus; o resto é má tradução”. Faça um combinado simples com você mesmo: todo dia, um pedaço de tempo sem barulho, nem que seja pequeno. Porque é nesse intervalo, quase invisível, que o fogo da esperança volta a acender — e a brasa que mora no peito aprende, de novo, a aquecer e iluminar.

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.