Quais os efeitos colaterais das viagens espaciais para o ser humano?
Astronautas da Artemis II retornaram à Terra nessa sexta-feira (10).
A Artemis II foi lançada em 1º de abril de 2026 a partir do Kennedy Space Center e marcou o primeiro voo tripulado do programa Artemis em direção à Lua. A tripulação, composta por Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen, realizou um sobrevoo lunar histórico, alcançando a maior distância já registrada por humanos em relação à Terra: 406.777 km.
Durante os nove dias de missão, a cápsula Orion percorreu mais de 1 milhão de quilômetros, realizando manobras de correção e aproximação da Lua. Esse feito demonstrou a capacidade da nave para futuras missões de pouso lunar e exploração de Marte.
O retorno ocorreu na última sexta (10), com a cápsula Orion realizando a reentrada atmosférica e o pouso controlado no Oceano Pacífico. A operação de resgate foi conduzida pela Marinha dos Estados Unidos, com o navio USS John P. Murtha, responsável por recuperar a cápsula e a tripulação.
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Após o resgate, os astronautas foram vistos em bom estado físico, embora visivelmente cansados pelo esforço da missão e pela reentrada. Relatos oficiais da NASA destacaram que eles estavam sorridentes, demonstrando satisfação pelo sucesso da missão e pela conquista histórica.
A readaptação ao ambiente terrestre exigiu acompanhamento médico imediato, já que o corpo precisa se ajustar novamente à gravidade após dias em microgravidade.
O que acontece com o corpo no espaço?
Depois de longos períodos em microgravidade, o retorno à Terra exige esforço para recuperar equilíbrio, força muscular e densidade óssea.
O sistema vestibular, responsável pelo equilíbrio, precisa se reajustar quando a gravidade volta a atuar. Esse processo pode gerar tontura, fadiga e dificuldade para caminhar nos primeiros dias.
Durante a estadia no espaço, os fluidos corporais se redistribuem, músculos se fortalecem em algumas áreas e se enfraquecem em outras.
Na Terra, a gravidade mantém líquidos corporais distribuídos de forma equilibrada entre membros inferiores e superiores. No espaço, sem essa força, os fluidos migram para a cabeça e o tórax.
Isso causa inchaço facial, sensação de congestão nasal e aumento da pressão intracraniana. Essa redistribuição também afeta o sistema cardiovascular, já que o coração precisa se adaptar a um novo volume de sangue circulando em regiões diferentes.
Os músculos usados para estabilizar o corpo contra a gravidade, como os das pernas e da coluna, ficam menos ativos em órbita e tendem a se enfraquecer.
Já músculos envolvidos em atividades específicas, como braços e ombros, podem se fortalecer devido ao uso constante em tarefas dentro da estação espacial.
Para reduzir perdas, astronautas realizam cerca de duas horas de exercícios diários com equipamentos adaptados, como bicicletas ergométricas e resistências elásticas.
O brasileiro Marcos Pontes relatou que, após sua missão espacial em 2006, enfrentou alterações temporárias na visão. Ele descreveu que a redistribuição de fluidos corporais em microgravidade pressionou o globo ocular, causando desconforto e visão turva.
Esse efeito é consistente com o que a NASA denomina Spaceflight Associated Neuro-ocular Syndrome (SANS), condição observada em vários astronautas que passam períodos em órbita. Pontes destacou que, ao retornar à Terra, precisou de acompanhamento médico para monitorar essas mudanças e garantir que não houvesse danos permanentes.
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Treinamento e reabilitação
A microgravidade também acelera processos semelhantes à osteoporose, tornando os ossos mais frágeis e aumentando o risco de fraturas após o retorno à Terra.
Essa perda ocorre porque o corpo deixa de usar os músculos e ossos contra a gravidade, o que reduz a formação óssea e aumenta a reabsorção.
Para mitigar esses efeitos, astronautas realizam exercícios resistidos diariamente em equipamentos específicos a bordo da Estação Espacial Internacional, além de seguirem protocolos nutricionais e médicos. Mesmo assim, a recuperação completa da densidade óssea pode levar meses após o retorno.
Ao retornar, muitos astronautas relatam que a sensação de realização supera os desafios enfrentados. A oportunidade de ver o planeta do espaço e participar de pesquisas únicas gera uma perspectiva renovada sobre a vida.
Essa experiência faz com que valorizem ainda mais momentos simples, como estar com a família em um almoço, reforçando que o sacrifício compensa. Em seus relatos, astronautas deixam claro que, mesmo diante das dificuldades, afirmam que vale a pena. Eu mesmo teria coragem e quero embarcar numa viagem dessas!
*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.