Fortaleza lidera ranking de estudantes que se sentem tristes e negligenciados, diz IBGE

Pesquisa evidenciou ausência de rede de apoio emocional.

Escrito por
Nícolas Paulino nicolas.paulino@svm.com.br
(Atualizado às 10:27)
Uma menina sentada no chão de pedra contra uma parede escura, com a cabeça baixa e escondida entre os braços cruzados sobre os joelhos, transmitindo um sentimento de solidão ou tristeza.
Legenda: Percentual de desamparo e tristeza é maior entre meninas, mostra pesquisa.
Foto: JangJ Atthaniti/Pexels.

Fortaleza atingiu indicadores preocupantes de saúde mental entre adolescentes, ocupando o topo do ranking nacional de meninos e meninas que se sentem negligenciados e com tristeza persistente, considerando todas as capitais brasileiras. A constatação é de um levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na população de estudantes entre 13 e 17 anos.

Os dados são da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, divulgada nesta quarta-feira (25), que reúne informações essenciais sobre fatores de risco e proteção à saúde de adolescentes em escolas públicas e privadas do País. O recorte abrange do 7º ano (antiga 6ª série) do Ensino Fundamental até a 3ª série do Ensino Médio.

⚠️ Atenção! O texto a seguir pode conter gatilhos emocionais. Se você considera que necessita de atendimento psicológico ou psiquiátrico, ou tem pensamentos suicidas, busque ajuda. O Centro de Valorização da Vida (CVV), por exemplo, oferece apoio através de chat na internet ou pelo telefone 188.

Segundo o levantamento, a capital cearense registra o maior percentual do País entre escolares que se sentem negligenciados, pois responderam que “ninguém se preocupa com eles” — atingindo a marca de 32,5% dos estudantes. O índice é maior entre meninas (36,6%, contra 28,1% entre meninos) e na rede pública (35,2%, contra 24,6% na rede privada).

A percepção geral da falta de apoio é significativamente maior que o observado em outras grandes metrópoles, como Porto Alegre, que registrou o menor percentual nacional, com 23,2%. Em São Paulo, o índice foi de 25,8%.

O IBGE considera que a percepção do indivíduo de que é importante para alguém ou de que se faz parte de algo é relevante para sua saúde e bem-estar mental e social. Assim, pessoas desprovidas de apreço ou pertencimento tendem a apresentar comportamentos de desesperança.

A nível nacional, o percentual de adolescentes que respondeu se sentir assim, na “maioria das vezes” ou “sempre”, nos últimos 30 dias, foi de 26,1%. A análise revela que 19% dos meninos declararam desamparo, enquanto entre as meninas o percentual chegou a 33,3%.

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Tristeza permanente

Além do sentimento de negligência, Fortaleza se destaca no topo do ranking das capitais no relato de tristeza persistente. Segundo a American Psychiatric Association, esse sentimento é um indicador clássico para a investigação de depressão.

De acordo com as respostas coletadas pelo IBGE, 37,1% dos alunos afirmaram estar tristes “sempre” ou “na maioria das vezes” nos 30 dias anteriores à entrevista. Em comparação, a média nacional foi de 28,9%.

Novamente, o índice foi maior entre meninas, chegando a quase metade delas (47,8%, contra 28,1% entre meninos); e na rede pública (39,8%, contra 28,8% na rede privada).

Confira o ranking nacional de alunos que afirmaram estar tristes “sempre” ou “na maioria das vezes” nos 30 dias anteriores à entrevista:

  1. Fortaleza - 37,1%
  2. Macapá - 36,5%
  3. Manaus - 34,9%
  4. Salvador - 34,4%
  5. Rio Branco - 33,2%
  6. São Luís - 32,6%
  7. Aracaju - 32,1%
  8. Cuiabá - 31,7%
  9. Maceió - 31,5%
  10. Teresina - 31,4%
  11. Goiânia - 31,2%
  12. Boa Vista - 31,1%
  13. João Pessoa - 31,1%
  14. Porto Velho - 30,8%
  15. Palmas - 30,7%
  16. Recife - 30,7%
  17. Média das capitais - 30,3%
  18. Rio de Janeiro - 29,8%
  19. Belém - 29,7%
  20. Belo Horizonte - 29,7%
  21. Campo Grande - 29,4%
  22. Brasília - 29,2%
  23. Porto Alegre - 29%
  24. Natal - 28,9%
  25. Curitiba - 27,6%
  26. Vitória - 27,4%
  27. São Paulo - 27,2%
  28. Florianópolis - 26%

O Instituto lembra que a PeNSE 2024 foi a primeira a captar os efeitos da pandemia da Covid-19 na vida dos estudantes, já que a edição imediatamente anterior ocorreu em 2019. Assim, sugere que o distanciamento social pode ter afetado a vida dos jovens. 

“Muitos estudantes enfrentaram desafios como incertezas sobre o futuro, solidão, atraso nos estudos, aumento das responsabilidades individuais, sobrecargas com cuidados gerais ou doenças suas, de parentes ou de amigos”, ilustra a pesquisa.

Amigos, aliás, também estão em falta para 6% dos pesquisados na capital cearense. Ao responderem “Quantos amigos próximos você tem?”, 7% dos meninos e 5,1% das meninas relataram nenhum. O índice foi maior na rede pública (7%) que na privada (3%).

No contexto nacional, em 2024, o total de estudantes que relatou não possuir amigos próximos marcou 4,5%, meio ponto percentual a mais que em 2019.

Vista aproximada por trás de um menino loiro sentado, com o rosto escondido entre os braços apoiados em um encosto, sugerindo isolamento ou desânimo em um ambiente externo.
Legenda: Um em cada 14 meninos de Fortaleza relatou que não tem amigos próximos.
Foto: Pixabay/Pexels.

Diferenças entre meninos e meninas

A disparidade entre sexos no Brasil reforça a vulnerabilidade emocional de adolescentes do sexo feminino. Enquanto 16,7% dos meninos relataram tristeza profunda no País, o percentual entre as meninas cresce drasticamente para 41%. 

Em Fortaleza, esse cenário é semelhante (25,3% contra 47,8%, com mais de 22 pontos percentuais de diferença), colocando a Cidade em uma posição de atenção para gestores de saúde e educação.

Segundo o IBGE, a literatura científica aponta que as meninas tendem a expressar mais frequentemente sentimentos de tristeza do que os meninos, e que o início da adolescência é justamente o período de maior vulnerabilidade para elas.

Em coluna assinada ao Diário do Nordeste recentemente, a psicóloga Alessandra Silva Xavier ressaltou que as meninas são constantemente expostas a um discurso “que diz que o feminino é submissão, sofrimento e sacrifício diante daquilo que seria o amor”, podendo enfrentar apatia, desinteresse e dificuldade em estabelecer vínculos duradouros. 

“Quando essas experiências de amor não puderam ser constituídas e o olhar do sujeito sobre si é de desprezo, vazio, raiva, desgosto, não conseguindo amar quem se é, abre-se um caminho perigoso para o adoecimento e as violências”, escreveu a professora fundadora do curso de Psicologia da Universidade Estadual do Ceará (Uece).

O estudo do IBGE ainda captou que o sentimento de que “a vida não vale a pena ser vivida” atinge 18,5% dos adolescentes brasileiros, sendo o dobro entre as meninas (25%) em relação aos meninos (12%). No Ceará, o índice foi semelhante. Já em Fortaleza, atingiu 21,8%, mais de três pontos percentuais acima da média.

Os indicadores sugerem que as redes pública e privada de Fortaleza enfrentam um desafio estrutural na saúde mental de seus jovens, demandando intervenções que promovam o pertencimento e o suporte psicológico nas escolas.

Rede de apoio é essencial

O IBGE destaca que os adolescentes passam por intensas transformações físicas, emocionais e sociais, ampliação da autonomia e construção da identidade. “Essa etapa é vivenciada de maneira diversa, influenciada por fatores históricos, sociais e culturais, o que demanda abordagens sensíveis às suas particularidades”, descreve.

A psicóloga Alessandra Silva Xavier destacou em coluna do Diário do Nordeste que a adolescência é um “pedido de amor” diante de uma fase tão complexa, para que o jovem não se inclua “no espaço assustador da rejeição, da violência e do abandono” e possa “ser visto como alguém diferenciado e especial no meio da multidão”. 

“Um pedido de amor para que a família suporte e ajude a lidar com a agressividade, a dúvida, a confusão, que apoie a diferença e fortaleça as potências. [...] Um pedido de amor ao Estado por políticas públicas de cuidado”, recomendou a especialista.

Por isso, uma rede de apoio social sólida é fundamental para que o adolescente lide com sentimentos de desesperança e desamparo.

O que é e para que serve a PeNSE?

Realizada desde 2009 pelo IBGE em parceria com o Ministério da Saúde e apoio do Ministério da Educação (MEC), a PeNSE acompanha temas como hábitos alimentares, atividade física, uso de substâncias, saúde mental, violência e ambiente escolar. 

A metodologia da pesquisa tem duas coletas de dados: questionário do aluno e questionário do ambiente escolar. O primeiro é respondido por estudantes das turmas selecionadas na amostra; já o segundo é preenchido por diretores ou responsáveis das escolas.

A edição de 2024 foi a quinta já realizada e consultou mais de 118 mil alunos de quase 4,2 mil escolas em todo o Brasil - no Ceará, foram 3,4 mil questionários analisados em 142 unidades. 

Os resultados ajudam a orientar políticas públicas e ações voltadas ao bem-estar e à qualidade de vida dos estudantes brasileiros.

O IBGE lembra que, segundo a OMS, fatores de risco como tabagismo, alimentação inadequada, inatividade física e consumo excessivo de álcool respondem pela maior parte das mortes e da carga de doenças relacionadas a doenças não transmissíveis. 

“A maioria desses comportamentos tem início na adolescência, etapa fundamental para intervenções preventivas de longo prazo”, ressalta o Instituto.

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