Covid longa causa sintomas como insônia e perda de libido; saiba por que persistem após a cura

Sequelas físicas e mentais deixadas pelo coronavírus persistem em alguns pacientes por até 1 ano

Escrito por Theyse Viana, theyse.viana@svm.com.br

Ceará
insônia covid
Legenda: Insônia é um dos sintomas da Covid longa identificados por pesquisas no Ceará e no Brasil
Foto: Shutterstock

Subir escadas ou fazer atividades que exijam algum esforço físico se tornou mais difícil para Eronilson Lemos, 31, desde que teve Covid, neste ano. “Canso fácil”, ele lamenta, sendo um dos brasileiros que relatam sequelas físicas e mentais do coronavírus – a chamada Covid longa.

A aposentada Sueli Aragão, 75, ainda convive com o inchaço nos pés e supera a queda de cabelo que vieram após a Covid grave. Os trombos e a insônia, mesmo depois de 2 anos da internação de 2 meses pela qual passou, em maio de 2020, também persistem.

“Quando saí, meu cabelo caiu muito por quase 1 ano. E hoje ainda tô no processo de desmame dos remédios pra dormir”, diz.

O que é Covid longa

A Covid longa – ou síndrome pós-Covid – foi reconhecida oficialmente como doença pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em outubro de 2021. No Brasil, o Ministério da Saúde já a define como “manifestações clínicas novas, recorrentes ou persistentes após o período de infecção aguda pelo coronavírus”.

De pesquisas cearenses a internacionais, são muitas as evidências de que sintomas podem aparecer ou persistir por longos meses depois da recuperação da Covid. 

No Ceará, um estudo da Escola de Saúde Pública (ESP/CE) com 470 pacientes constatou que 4 a cada 10 continuaram com cansaço, tosse, queda de cabelo e outras condições por até 4 meses depois da alta hospitalar.

André Ribeiro, membro da Gerência de Pesquisa em Saúde da ESP/CE e doutorando em enfermagem, pontua que a variedade e a prevalência dos sintomas mudaram na 1ª e na 2ª onda, “possivelmente devido às distintas variantes”. Efeitos psicológicos também avançaram.

As sequelas pós-Covid mais encontradas no estudo, que entrevistou 275 pessoas na 1ª onda e 195 na 2ª onda da pandemia no Ceará, foram:

  • 1ª onda: os principais foram fadiga, cansaço, falta de apetite e falta de ar. Uma em cada 5 pessoas se queixaram de perda de memória por até 4 meses, mesma duração de tosse e dor no peito relatadas por outras. Um terço teve insônia.
  • 2ª onda: os principais foram fadiga, cansaço, falta de ar e queda de cabelo. Alguns cearenses relataram dor no peito por mais de 6 meses; diarreia, náuseas e dor abdominal por até 4 meses. A proporção de pacientes com insônia se manteve. 

Embora a 2ª onda tenha sido mais leve, tem essa questão da Covid longa. Perda de memória e dores nas articulações diminuíram na 2ª onda, mas dificuldade de andar e tosse aumentaram. Além disso, 33% dos pacientes relataram ansiedade e 31%, insônia.
André Ribeiro
Pesquisador da ESP/CE e doutorando em Enfermagem

“Embora sejam pacientes diferentes, os sintomas prevalecem. É um alerta pra população de que a Covid não acabou. Não é porque a 2ª onda foi mais branda que as próximas também serão”, alerta o pesquisador.

Sintomas da Covid longa

Além dos cearenses, pesquisadores da Fiocruz de Minas Gerais acompanharam 646 pacientes que testaram positivo para Covid e foram hospitalizados nas 2 primeiras ondas da pandemia no Brasil. Do total, 50,2% relataram Covid longa.

O estudo monitorou os pacientes por 14 meses e listou os 23 sintomas identificados entre eles:

  • Fadiga;
  • Tosse persistente;
  • Dificuldade para respirar;
  • Perda de paladar e olfato;
  • Dor de cabeça;
  • Dores musculares;
  • Dor no corpo;
  • Olhos vermelhos;
  • Insônia;
  • Mudança na pressão sanguínea;
  • Ansiedade;
  • Diarreia;
  • Dor nas articulações;
  • Trombose;
  • Dor no peito;
  • Tontura;
  • Baixa mobilidade;
  • Manchas vermelhas na pele;
  • Secreção na garganta ou nariz;
  • Corrimento nasal;
  • Taquicardia;
  • Perda de apetite;
  • Dor de garganta.

Já uma pesquisa de cientistas da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, listou cerca de 60 manifestações pós-Covid entre recuperados da doença. Entre as mais comuns, estão:

  • Perda de olfato;
  • Queda de cabelo;
  • Espirros;
  • Dificuldade de ejaculação;
  • Redução da libido.

1 a cada 5
relataram ter transtornos mentais, como ansiedade e depressão, após terem Covid.

Os possíveis impactos da Covid na saúde sexual dos pacientes, citados no estudo inglês, são explicados pela infectologista Christianne Takeda, que atua no Hospital São José, de Fortaleza.

"Pessoas que apresentam sintomas da condição pós-covid apresentam várias complicações que podem afetar adversamente a libido. A própria inflamação sistêmica envolvendo vários órgãos pode também afetar o aparelho urogenital em homens", pontua.

Quanto tempo podem durar os sintomas da Covid longa?

Alguns sintomas e sequelas pós-Covid podem durar de 3 a 6 meses, como mostra um segundo estudo em andamento no Ceará, também conduzido por André Ribeiro, da ESP/CE. O foco, ele explica, é mensurar o tempo de permanência dos sintomas pós-Covid em 202 pacientes de Fortaleza e do interior.

Do total, 49 foram monitorados na 1ª onda, e 153, na 2ª onda. Dados obtidos com exclusividade pelo Diário do Nordeste mostram quanto tempo durou cada sintoma da Covid longa entre os cearenses avaliados na 2ª onda:

  • Fadiga/cansaço: até 3 meses (relatada por 45% dos pacientes)
  • Falta de ar: até 3 meses (relatada por 25% dos pacientes)
  • Queda de cabelo: até 3 meses (relatada por 20% dos pacientes)
  • Falta de apetite: até 3 meses
  • Dificuldade para andar: até 3 meses
  • Dor nas articulações: até 3 meses
  • Perda de memória: até 3 meses
  • Dor de cabeça: até 3 meses
  • Dor muscular: até 3 meses
  • Perda de olfato: até 3 meses
  • Dor abdominal: até 4 meses
  • Tosse: até 3 meses
  • Febre: até 2 meses
  • Perda de paladar: até 3 meses
  • Dor no peito: até 6 meses
  • Diarreia: até 4 meses
  • Náuseas: até 4 meses

Por que sintomas persistem após a Covid-19?

A médica Christianne Takeda aponta que “há indícios de que as pessoas com comorbidades e as não vacinadas têm maior risco de desenvolver sintomas pós-covid”.

O fato é que, no momento, não se sabe ao certo o que realmente pode causar as condições pós-covid. Há três teorias: formação de coágulos sanguíneos, vírus persistentes no organismo ou alguma forma de resposta imune.
Christianne Takeda
Infectologista do Hospital São José

A médica orienta que “pessoas que sofrem de condições pós-covid podem procurar um acompanhamento com um profissional médico para que ele possa ajudar a melhorar os sintomas e a qualidade de vida”. 

Já André Ribeiro reforça a importância de manutenção de cuidados básicos e conhecidos, como seguir orientações médicas corretamente e continuar o uso de máscaras de proteção.

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