Como é a educação nas melhores cidades do Ceará no Ideb?

Investimentos em avaliações de diagnóstico, recursos humanos e material complementar estão entre as principais ações de redes municipais de ensino

Escrito por Nícolas Paulino e Theyse Viana , ceara@svm.com.br
Legenda: Em Mucambo, alunos passam por avaliações diagnósticas extras duas vezes por ano.
Foto: Prefeitura de Mucambo

A divulgação dos resultados da última edição do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) mostra que o Ceará continua ocupando posição de destaque no Brasil. Prova disso é que os municípios mais bem avaliados pelo levantamento são do Estado.

Tanto nos anos iniciais (1º ao 5º anos) quanto nos anos finais (6º ao 9º anos), as cinco melhores redes de ensino são do Ceará. Já no Ensino Médio, o topo também é ocupado por uma cidade cearense. Veja os resultados:

Anos iniciais

Ararendá 9,5
Mucambo 9,4
Frecheirinha 9,2
Jijoca de Jericoacoara 9,1
Pires Ferreira 9,1

Anos finais

Ararendá 8,1
Pires Ferreira 7,9
Uruoca 7,7
Cruz 7,6
Catunda 7,3

Ensino Médio

Ararendá 6,4
Quixaba (PE) 6,3
Santana da Ponte Pensa (SP) 6,3
Ibateguara (AL) 6,2
São José do Inhacorá (RS) 6,2

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Compromisso dos professores, realização de diagnósticos constantes e ensino em tempo integral. A combinação é listada pelo secretário de Educação de Ararendá, José Felício Silva, como explicação para o destaque nacional do município no Ideb 2021.

Com uma rede municipal composta por 10 escolas e menos de 3 mil alunos, a cidade obteve a melhor nota geral no Ideb, superando municípios como Fortaleza e São Paulo. Das 10 escolas situadas em Ararendá, 3 estão entre as melhores do Brasil no ensino fundamental.

Legenda: Ararendá tem turmas que receberam tempo integral e atividades no contraturno.
Foto: Prefeitura de Ararendá

Trabalhamos muito em Ararendá com a questão do diagnóstico. Apesar do trabalho remoto, constantemente os professores viam formas de acompanhar a evolução dos nossos alunos, por avaliações e reuniões. 
José Felício Silva
Secretário de Educação de Ararendá

O “diagnóstico” mais importante na pandemia, segundo Felício, foi sobre quais famílias tinham acesso à internet ou não. “Aos que não tinham acesso, cada escola tinha 2 professores que levavam as atividades até a família. O que fez a diferença foi esse suporte”, avalia.

Outra preocupação foi a questão socioemocional dos alunos. “Passamos 2 semanas apenas em acolhimento, no retorno ao presencial, trabalhando de forma mais direcionada com os alunos com dificuldades.”

Quase todas as turmas da rede municipal já são de tempo integral, o que foi determinante para o destaque de Ararendá no Saeb e no Ideb. “Temos um trabalho muito voltado pra língua portuguesa e matemática. No contraturno, aprofundamos esses conhecimentos, com participação dos alunos, de forma dinâmica. O tempo integral fez e faz diferença, foi fundamental”, conclui o secretário.

Legenda: Escola de Ararendá que foi a 4ª melhor escola do Brasil nos anos iniciais do Ensino Fundamental.
Foto: Prefeitura de Ararendá

Mucambo, no Sertão de Sobral, foi a 2ª melhor cidade do Brasil nos anos iniciais - repetindo a nota de 9,4 alcançada em 2019 - e está entre as 25 melhores nos anos finais. Atualmente, a rede municipal de ensino é formada por 10 escolas e atende 2.956 alunos.

Carlos Gomes, secretário de Educação de Mucambo, revela que o sucesso do trabalho está no “básico bem feito”. Um dos pilares mais executados é a avaliação escolar, que permite o monitoramento da aprendizagem de cada aluno. O município promove duas avaliações nos meses de junho e novembro, o que permite o planejamento de cada semestre.

Os diagnósticos já fazem parte do nosso cotidiano, não é algo pontual. Também trabalhamos para fortalecer as lideranças escolares, a formação de professores e a ação do coordenador pedagógico. Os resultados aparecem como consequência.
Carlos Gomes
Secretário de Educação de Mucambo

O município também participa de estratégias pactuadas a nível estadual, como o Programa de Aprendizagem na Idade Certa (Mais Paic), e realiza a compra própria de material estruturado complementar para os professores trabalharem em sala de aula - principalmente nas séries-chave da alfabetização, 5º ano e 9º ano.

Legenda: Formação continuada de professores é outro ponto de investimentos em Mucambo, de acordo com a gestão municipal.
Foto: Prefeitura de Mucambo

Em Pires Ferreira, cidade cearense com 11 mil habitantes, 3 das 16 escolas da rede municipal aparecem entre as melhores do Brasil no ensino fundamental. Rosa Ferreira, secretária de Educação, destaca “é fruto de um trabalho de décadas”, e destaca a atenção personalizada aos alunos como diferencial.

“Temos hoje 100% da rede atendida, sem evasão nem desistência ou infrequência. Na pandemia, contratamos psicólogos e assistentes sociais para acompanhar as famílias, que são a base de tudo. Se a criança teve uma infrequência, já se faz busca ativa para impedir que a ausência se prolongue”, pontua.

A maior dificuldade, não só de Pires Ferreira mas de toda a rede, foi a tecnologia. Providenciamos formações pra ensinar o professor a lidar com o momento. Outro desafio foi saber como chegar em todas as crianças, garantir que todas participassem das aulas.
Rosa Ferreira,
Secretária de Educação de Pires Ferreira

A gestora complementa que “o acompanhamento pedagógico a todas as escolas, crianças e professores, dando materiais pra que pudessem trabalhar”, também foi determinante para a boa colocação da cidade no Ideb.

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Gargalo no Ensino Médio

Apesar dos bons resultados no Ensino Fundamental, o Ceará não atingiu a meta para as três séries do Ensino Médio, que era de 5,1. No ranking geral (incluindo todos os tipos de rede), ficou em 7º lugar nacional, com 4,3. 

Jucineide Fernandes, secretária executiva de Ensino Médio e Profissional da Secretaria de Educação do Ceará (Seduc), responsável pela oferta dessa etapa, ressalta que a rede estadual manteve o rendimento de 4,4 alcançado em 2019.

“A gente analisa que o Ensino Médio cearense vem consolidando os avanços dos últimos anos, mostrando sua força. Mesmo com a pandemia, foi feito um esforço por todos os profissionais da rede estadual para garantir o vínculo dos alunos e a aprendizagem das aprendizagens essenciais”, destaca.

Segundo a gestora, o diagnóstico do Ideb permitirá a continuidade do trabalho de “recomposição das aprendizagens” com o auxílio do programa Ceará Educa Mais, organizado em oito eixos para que os alunos concluam a Educação Básica com as habilidades previstas para essa etapa de ensino.

Análise cautelosa

A professora Luiza Aurélia, conselheira da Câmara de Educação Básica do Conselho Estadual de Educação do Ceará (CEE), presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) - Ceará e secretária de Educação de Crateús, afirma que se pode comemorar o resultado do Ideb, “mas com um pé atrás”.

Isso porque, embora a participação maciça de estudantes garanta confiabilidade ao Índice, não se pode negar as perdas geradas pela virtualização do ensino durante a pandemia, “de forma prematura e sem nenhum preparo da maioria das redes municipais”. 

Além disso, lembra que foram aprovadas resoluções nacionais, estaduais e municipais recomendando que escolas públicas e privadas evitassem a reprovação dos estudantes por causa do período atípico, o que comprometeu a taxa de aprovação.

Ainda assim, ela destaca que o Ceará ocupa posição de destaque no levantamento pela integração entre Estado e Municípios na resposta à pandemia, “buscando soluções para não perder a conexão com os alunos”, muitos deles sem nem acesso à educação virtualizada. 

“Esse resultado é fruto do regime de colaboração pactuado e focado nos resultados, tendo o aluno como principal objetivo, contemplando mudanças nos currículos, nas rotinas pedagógicas e na formação dos professores”, descreve.

Para que serve o Ideb?

O Ideb permite o monitoramento do sistema de ensino do País através do diagnóstico e norteamento de ações políticas. Ele ajuda a:

  • detectar escolas e/ou redes de ensino cujos alunos apresentem baixa performance em termos de rendimento e proficiência;
  • monitorar a evolução temporal do desempenho dos alunos dessas escolas e/ou redes de ensino;
  • direcionar programas para promover o desenvolvimento educacional de redes de ensino em que os alunos apresentam baixo desempenho. 
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