45% dos medalhistas de olimpíadas aprovados na UFC são de escola pública do CE

Novidade em 2026, edital abre caminho ao ensino superior para alunos com mérito científico.

Escrito por
Clarice Nascimento clarice.nascimento@svm.com.br
Três jovens estudantes cearenses de destaque: um segura um protótipo de foguete, o central cruza os braços e o terceiro exibe um certificado de premiação da Olimpíada Brasileira de Matemática.
Legenda: Na sequência: Guilherme Fernandes, Leonardo Ramos e Nathanael Ferreira.
Foto: Arquivo Pessoal.

Em 2026, a Universidade Federal do Ceará (UFC) adotou uma nova alternativa para ingresso na instituição: o edital de acesso por meio das olimpíadas científicas. Nesta semana, o resultado final mostrou que 73 alunos foram aprovados e outros 153 estão classificáveis. Mesmo sem reserva de vagas por cotas, 45% dos aprovados são de escola pública.

Complementar ao Sistema de Seleção Unificada (Sisu), a novidade visa ampliar as oportunidades para estudantes que se destacam pelo talento e pela dedicação ao conhecimento.

A iniciativa também fortalece a cultura científica e contribui para a formação de profissionais e pesquisadores. As olimpíadas de conhecimento são competições intelectuais entre estudantes que estimulam a excelência acadêmica e a formação científica dos alunos.

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Para os estudantes que conquistaram uma vaga pelo edital, essa modalidade valoriza a participação nas competições e estimula os estudantes a encontrarem ações para além do currículo escolar.

Atividades extracurriculares, as olimpíadas do conhecimento incentivam o aprimoramento dos alunos nas áreas que possuem mais afinidade e também auxiliam na transformação de vidas.

É o que acredita Leonardo Ramos, cearense de 18 anos, egresso da Escola Estadual de Educação Profissionalizante Adriano Nobre, de Itapajé, a 128 km de Fortaleza.

“As olimpíadas incentivam que o aluno desenvolva autonomia em pesquisar o que tem que estudar, aprender por conta própria, quanto instiga o aluno pela curiosidade”, diz Leonardo Ramos, ex-aluno da rede pública.

Aprovado em Medicina na UFC pelo Sisu e em Física pelo edital, ele conta que conheceu o universo científico ainda no ensino fundamental, quando fez a Olimpíada Brasileira de Astronomia e Aeronáutica (OBA).

“Nunca havia tido nenhum contato com esse tipo de coisa. Até porque na escola fundamental a gente só tinha aula de ciências. E eu sempre gostei da matéria de ciências, só que era uma forma bem não aprofundada. Quando conheci a astrofísica, por conta da OBA, foi quase uma paixão à primeira vista”, diz

O jovem passou a se encantar com as constelações, planetas, luz e outros aspectos que envolvem a astro ciência. “Primeiro ganhei bronze e depois fui estudando, fazendo ouro no oitavo, nono e nos três anos do ensino médio”, diz. 

Com duas opções de curso em áreas diferentes, Leonardo diz que escolheu a Medicina pelas amplas possibilidades do mercado de trabalho. “Infelizmente, a pesquisa no Brasil não é tão valorizada”, ressalta. 

“Acho que as olimpíadas de conhecimento já desde a infância despertam essa curiosidade, essa vontade de ser um estudioso, um cientista no Brasil. Vou para a Medicina ainda com um olhar a mais para tentar ir para o laboratório”, diz. 

Essa transformação da vida por meio das olimpíadas também aconteceu com Nathanael Santos Ferreira, de 17 anos, ex-aluno da Escola de Ensino Médio Plácido Aderaldo Castelo, em Caririaçu, no Cariri. O jovem iniciou a trajetória com a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), no 9º ano. 

Jovem sorridente segura certificado e usa medalha em frente a painel da 19ª OBMEP. O documento confirma a premiação de Nathanael dos Santos Ferreira com medalha de bronze na Olimpíada de Matemática.
Legenda: Em 2025, Nathanael Ferreira conquistou a medalha de prata nacional e de ouro regional da OBMEP.
Foto: Arquivo Pessoal.

Apesar de ter uma “base fraca” de Matemática, ele resolveu se inscrever visando os benefícios da prova, como o Programa de Iniciação Científica Jr. (PIC).

“Consegui passar mesmo assim e, durante minhas férias, aproveitei para me preparar para a 2ª fase. Gostei da prova, me diverti bastante e consegui uma menção honrosa”, conta.  

No ensino médio, Nathanael teve o incentivo do professor de Matemática para continuar estudando para as competições, como a Olimpíada Itabirana de Matemática e a Olimpíada Mandacaru de Matemática. As dificuldades com a disciplina foram um empecilho no início, mas também um combustível para que o jovem estudasse ainda mais

Nathanael conquistou uma medalha de prata nacional e bronze estadual na OBMEP, medalha nacional na Olimpíada Canguru e na Mandacaru, bem como menção honrosa na Itabirana. “Isso me deixou muito feliz porque eu estava vendo uma evolução de toda luta que eu tava fazendo e vi que estava conseguindo”, diz. 

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“Quando fiz as olimpíadas, não pensava tanto na questão das universidades. Pensava em outros benefícios. Fiquei feliz quando soube porque era uma oportunidade de ingressar na universidade de excelência perto aqui da minha casa”, conta. 

Recentemente, o jovem foi aprovado em Ciências da Computação no Campus Quixadá da UFC e na Universidade Federal do Cariri (UFCA). Ele escolheu a última instituição por ser mais próxima da cidade onde mora. 

Mais de 100 participações em olimpíadas

No Sertão de Sobral, Guilherme Fernandes, de 17 anos, conquistou o 1º lugar no curso de Engenharia de Software na UFC de Quixadá por meio do edital. O egresso da EEEP Guiomar Belchior Aguiar, de Cariré, também foi aprovado em Engenharia de Computação na mesma instituição no Campus de Sobral. 

Ao Diário do Nordeste, ele conta que o interesse pelas olimpíadas científicas surgiu no 1º ano do Ensino Médio, impulsionado por uma professora.

“Ela me colocou num grupo na Olimpíada Internacional de Ciência e Engenharia Espacial e nisso a gente acabou tirando medalha de prata e fomos para São Paulo na premiação”, conta. 

Estudantes com uniformes escolares verdes e brancos e diversas medalhas no peito em um palco. Ao fundo, uma TV exibe o logo da OBR (Olimpíada Brasileira de Robótica) e fotos de premiados.
Legenda: Guilherme (à frente na esquerda) conta que estudava para as olimpíadas científicas junto dos amigos, compartilhando a resolução de questões.
Foto: Arquivo Pessoal.

Para ele, esse foi o “divisor de águas” na experiência olímpica. Guilherme conquistou, ao longo de todo o Ensino Médio, mais de 40 medalhas em pouco mais de 100 participações. 

“Gosto muito de frisar isso porque, da mesma maneira que consegui, acredito muito que qualquer outra pessoa tem a capacidade de conseguir até mais”, declara.

Ele explica que estudava com os amigos fora do horário escolar para as provas. “Às vezes, a gente fazia videochamadas em grupos para um ir ajudando o outro, e ia tentando fazer questão nas escolas mesmo”, diz. 

Agora, o jovem escolheu a graduação no Campus de Sobral por ser mais próximo de onde mora e acredita que vai estar mais preparado devido às participações nas olimpíadas.

“Vou estar melhor adaptado com questões mais difíceis e também em questões e conhecimentos de tecnologia. Foi algo que tive que aprender e me esforçar na parte de programação, uma área que almejo muito”, diz. 

Como funcionou o edital

Para participar da seleção, os candidatos devem ter sido medalhista ou destaque de olimpíada e outras competições do conhecimento entre 2022 e 2025, e precisam ser recém-formados do Ensino Médio ou que esteja próxima da conclusão até a data de matrícula, em fevereiro.

No edital, a UFC define quais competições são válidas e qual colocação é aceita. Cada curso considera olimpíadas diferentes para a composição da nota, variando os valores para a menção honrosa, medalha de bronze, de prata e de ouro.

Foram ofertadas 104 vagas em 41 cursos de graduação — entre bacharelado, licenciatura e tecnológico — distribuídos nos campi na Capital e no Interior. Desse número, foram 73 aprovados e 153 classificáveis. 

Em caso de empate nas notas, a ordem de critérios para o desempate é:

  • Candidatos que tenham cursado integralmente o ensino médio em escolas públicas;
  • Aplicação de bônus de 20% (vinte por cento) sobre a pontuação obtida na olimpíada apresentada pelo candidato, caso a participação tenha ocorrido no ano de 2025;
  • Aplicação de bônus de 10% (dez por cento) sobre a pontuação obtida na olimpíada apresentada pelo candidato, caso a participação tenha ocorrido no ano de 2024;
  • Idade em ordem decrescente, sendo convocado primeiro o candidato de maior idade.

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