Rede global vai estimular boas ações
Projetos premiados se reuniram para estimular outros a adotarem boas práticas em gestão dos recursos hídricos
Foz do Iguaçu. A transição entre o pequeno produtor que só plantava soja, usava agrotóxico e hoje produz 40 espécies em sistema agroecológico e serve almoços 98% orgânicos para visitantes só precisou de um empurrão de um programa de conservação de águas de uma gigante e mais alguns pequenos incentivos governamentais de aquisição de alimentos. O Sítio de Luís Antônio Arruda, no Município de São Miguel do Iguaçu, no Paraná, parece um oásis em meio à vizinhança que só produz no sistema da monocultura.
Além de preservar a qualidade do solo e da água e de fornecer produtos de qualidade para visitantes e para a merenda escolar do Município, propriedades como o Sítio Arruda garantem a formação de uma rede de bem-estar, formada também por nutricionistas, farmacêuticos e médicos que prescrevem fitoterápicos para os seus pacientes.
Não muito longe dali, uma outra iniciativa apoiada pelo mesmo programa se destaca. A Fazenda Santa Maria, no Município de Santa Terezinha de Itaipu, investe nos tradicionais cultivos da região, de milho, soja e pecuária de leite. Mas, em seus 1.800 hectares, reconstituiu uma área de reserva legal que forma um corredor de biodiversidade e constitui-se na maior reserva de Mata Atlântica da região Sul, com 183 mil hectares no lado brasileiro, ligando o Parque Nacional do Iguaçu a Guaira, em 240 Km em linha reta (ou 1.340 Km em ziguezague), segundo informações de Nelton Miguel Friedrich, diretor de Coordenação e Meio Ambiente da Itaipu Binacional, responsável pelo programa.
O administrador da fazenda, Fernando Freitas, garante que a adoção do plantio direto melhorou muito a qualidade do solo. "Esse programa nos incentivou a cuidar do meio ambiente. Começamos em 2003, com as seis nascentes existentes dentro da propriedade e hoje somos referência em conservação ambiental", conta. Ações como as do Sítio do Arruda e as da Fazenda Santa Maria foram premiadas, na semana passada, como forma de reconhecimento e incentivo, e formam uma ampla rede, e que ainda pretende crescer.
Experiências pioneiras
Como elemento mais essencial à existência da vida, a água precisa ser preservada para garantir o futuro. Disso todos sabemos. Mas como trabalhar neste sentido ainda é uma meta a ser perseguida. Visando isso, o "Encontro Experiências Pioneiras e Inovadoras de Iniciativas Sociais da Gestão da Água" reuniu 20 países, na semana passada, em Foz do Iguaçu, no Paraná.
O evento reuniu experiências premiadas pela Organização das Nações Unidas (ONU). Criado em 2010 para fomentar iniciativas voltadas à gestão sustentável dos recursos hídricos alinhadas às Metas do Milênio, Agenda 21 e mais recentemente os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS); e para apoiar as ações da Década da Água (2005-2015) da ONU, o prêmio Water for Life destaca, a cada ano um aspecto diferente relacionado à temática geral.
Desde 2011, a ONU Água premiou iniciativas da Índia, Singapura, Japão, Bolívia, África do Sul, Moldávia, Filipinas e Brasil, em duas categorias: melhores práticas de gestão da água e melhores práticas na gestão da água e melhores práticas de participação, comunicação, despertar da consciência e educação. Neste ano de 2015, foi vencedor da primeira categoria o Programa Cultivando Água Boa (CAB), da Itaipu Binacional e de mais de dois mil parceiros dos 29 municípios da Bacia Hidrográfica do Paraná 3 (BP3).
Num contexto nacional de escassez de recursos hídricos, que impacta tanto no abastecimento humano quanto na produção de alimentos e na própria geração de energia elétrica, já que a principal fonte brasileira ainda é a hidrelétrica, o CAB é executado na margem brasileira do reservatório da usina, no Oeste do Paraná. O prêmio "Water for Life" foi o maior reconhecimento concedido ao Programa, afirma o diretor-geral brasileiro da Itaipu, Jorge Samek, que destaca a necessidade de estendê-lo aos parceiros, já que a responsabilidade é compartilhada por todos.
Nelton Friedrich, que é coordenador geral do CAB, destaca que ele segue a pedagogia do educador Paulo Freire, de organizar as comunidades em uma metodologia que assegure grande participação local, nas fases de diagnóstico, planejamento, execução e avaliação das ações.
Uma das principais ações é a recuperação de microbacias hidrográficas, com ênfase na proteção de nascentes, recomposição de matas ciliares, conservação de solos, estradas readequadas, instalação de abastecedouros comunitários e implantação de cisternas para o reúso de água, além de atuar com sistemas de produção mais sustentáveis, com novos arranjos produtivos locais. Com o incentivo do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) à aquisição direta, 60% do alimento nas escolas municipais dos municípios envolvidos são produzidos por agricultores familiares da região. O trabalho de inclusão social e produtiva de segmentos vulneráveis envolve comunidades indígenas, quilombolas, catadores de material reciclável, jovens e pequenos produtores.
Iniciado em 2003, o programa já chega a 30% do território de aproximadamente 800 mil hectares, com cerca de um milhão de habitantes, com 206 microbacias trabalhadas.
Exemplo
Josefina Maestu, diretora do Escritório da ONU de Apoio à Década Internacional da Água (2005-2015), destacou que a Itaipu está dando um grande exemplo a todos, mas que a escassez é real e global, deve estar na agenda de todos e nos obriga a repensar tudo, inclusive serviços básicos e estratégias de desenvolvimento. "É preciso ter em mente que as soluções não são sempre as mesmas e que não há soluções perfeitas. O importante é termos instrumentos para a mudança social e, para isso, é fundamental um marco institucional. Porque, se o governo é ineficiente, corrupto ou não dá conta, a sociedade precisa dar as suas respostas por iniciativas locais", resumiu.
Ao fim do evento, os projetos premiados apresentaram, como resultado de uma oficina, o esboço de uma rede global, formação como o objetivo de fomentar experiências semelhantes ao redor do planeta.
A jornalista Maristela Crispim viajou a convite da Itaipu