O cearense não investe por medo?

Dados nacionais revelam que o problema não é a falta de dinheiro. É a falta de direção.

Escrito por
Alberto Pompeu producaodiario@svm.com.br
Legenda: 32 milhões de brasileiros guardaram dinheiro em 2024 e mesmo assim não investiram nada.
Foto: Shutterstock/Jirapong Manustrong.

Seu Raimundo, 41 anos, trabalha como motorista de aplicativo em Fortaleza. Todo mês, depois de pagar aluguel, mercado e conta de luz, sobra algum troco. Não muito, mas sobra.

O que ele faz com esse dinheiro? Guarda embaixo do colchão, figurativamente falando: deixa parado na conta corrente, rendendo zero. Quando alguém pergunta por que não investe, a resposta é sempre a mesma: "Isso é coisa de rico. Eu não entendo nada disso."

Seu Raimundo não está sozinho. Segundo o Raio X do Investidor Brasileiro, pesquisa da Anbima com o Datafolha, 52% da população se encaixa no perfil "Sem Reservas": não economiza e não investe.

Esse grupo é predominante exatamente entre moradores do Nordeste e das classes C e D/E. Mas o dado que mais incomoda não é esse.

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O dado que mais incomoda é o seguinte: cerca de 32 milhões de brasileiros guardaram dinheiro em 2024 e mesmo assim não investiram nada. Tiveram o recurso na mão. E deixaram ele parado.

Não é falta de dinheiro. É falta de conhecimento, de confiança ou de alguém que explique de forma honesta como dar o primeiro passo. Por outro lado, há uma mudança acontecendo aqui na nossa região que poucos estão percebendo.

Entre 2020 e 2025, o número de investidores no Norte e Nordeste cresceu mais de 100%, segundo dados da B3. Em um único ano, de 2024 para 2025, a base de investidores pessoa física avançou quase 4% no Nordeste. O nordestino está acordando. Devagar, mas está.

Então qual é o real obstáculo? Na minha leitura, são três barreiras que se somam. A primeira é cultural: investir ainda soa como coisa de classe alta, de quem tem sobra de dinheiro no fim do mês.

A segunda é o medo de errar: a pessoa guarda o pouco que tem e não quer perder. A terceira, e talvez a mais traiçoeira, é a ilusão de segurança da poupança.

Hoje, com a Selic em 14,75% ao ano, deixar dinheiro na caderneta enquanto o Tesouro Selic rende mais, com a mesma liquidez e a mesma segurança, é uma escolha que custa caro no longo prazo.

Não estou dizendo que todo mundo precisa virar especialista em renda variável. Longe disso. Estou dizendo que existe um caminho seguro, simples e acessível entre o colchão e a bolsa de valores.

E esse caminho começa com um passo pequeno: abrir uma conta em uma corretora, aplicar R$ 30 no Tesouro Selic e entender que o dinheiro pode trabalhar por você enquanto você dirige, ensina, costura ou cuida da família.

Se você leu até aqui e tem algum dinheiro parado sem render nada, faça uma pergunta honesta a si mesmo: o que está te impedindo? Se a resposta for "não sei por onde começar", esse é exatamente o problema que esta coluna existe para resolver. Uma semana de cada vez.

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.