ArcelorMittal foca em aços especiais contra tarifaço e prevê manter R$ 1,69 bi em compras no Ceará
Atualmente, a empresa conta com mais de 5 mil funcionários no Pecém.
Frente a um prejuízo líquido de R$ 168,6 milhões em 2025, causado pelo tarifaço americano, a ArcelorMittal Pecém encontrou na produção de aços especiais uma forma de mitigar os efeitos negativos das taxações.
Segundo o CEO da empresa, Erick Torres, o produto, exportado majoritariamente para os Estados Unidos e a Europa, possui um valor agregado superior ao do aço comum, ampliando a margem de lucro do negócio.
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Em 2025, os produtos da indústria siderúrgica brasileira chegaram a ter uma sobretaxa de 50%.
Das pouco mais de 3 milhões de toneladas de aço produzidas no ano passado pela ArcelorMittal Pecém, segundo declarações de Erick Torres, 30% tinha como destino o mercado estadunidense e foi impactado pelo tarifaço.
Praticamente todos os principais resultados operacionais da empresa registraram forte queda no comparativo entre 2025 e 2024.
“O grande impacto do ano passado foi a tarifação, porque a tarifação entra no preço, fazendo com que a minha margem de retorno de lucro fique menor”, observou.
ArcelorMittal prevê manter valor de compras no Ceará
De acordo com ele, São Gonçalo do Amarante e Caucaia responderam por R$ 1,14 bilhão (67%) do total de compras da ArcelorMittal Pecém no Ceará em 2025.
O acréscimo foi de 19% em comparação com 2024. A previsão para 2026 é manter o mesmo patamar de compras registrado no Estado.
Mercado americano
Conforme explica Erick Torres, nos últimos três anos, a produção de aços especiais da ArcelorMittal Pecém passou de 25% para 40% do total fabricado pela planta.
Esse número representa, atualmente, cerca de 1,2 milhão de toneladas de aço especial produzidas ao ano.
De acordo com o CEO, a produção do aço especial é uma estratégia clara para 2026, já que a planta do Pecém apresenta a tecnologia e a capacidade necessárias para a atividade, e o mercado americano continua atrativo para a empresa.
"O mercado americano necessita dos aços especiais e a ArcelorMittal Pecém é uma planta com uma capacidade muito boa de produzir. É uma planta estável, que tem processos bem controlados, e tudo isso favoreceu bastante para manter o custo da placa muito competitivo", ressalta.
Ele explica que o aço especial é utilizado, principalmente, para tubulações que demandam maior resistência estrutural.
Para o aumento dessa produção, esclarece o CEO, não foi realizado investimento financeiro extra, mas sim melhorias em processos, aprendizado, desenvolvimento de pessoas e tempo de produção.
Atualmente, a ArcelorMittal Pecém conta com mais de 5 mil funcionários.
“Ao longo desses três anos teve essa capacitação da equipe. Além disso, estabelecemos condições de processos mais estáveis, investimos muito em manutenção para termos equipamentos disponíveis. É uma vocação da ArcelorMittal Pecém, impossível de abandonar”
Segundo o CEO, a produção da empresa deve acompanhar a demanda do mercado pelo aço especial.
Impacto das importações
Em 2025, a ArcelorMittal Pecém também teve uma queda na receita líquida de vendas, que voltou a ficar abaixo dos R$ 10 bilhões.
Os lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização (conhecidos pela sigla EBITDA) da ArcelorMittal Pecém alcançaram R$ 690 milhões no ano passado, 60% a menos do que em 2024.
O lucro bruto foi de R$ 205,8 milhões, 82,8% menor no comparativo entre os anos. Já a receita líquida de vendas foi de R$ 9,2 bilhões, queda de 12%.
Com os preços mais pressionados nos EUA, outros produtores de aço acabaram redirecionando a produção para o mercado brasileiro, com preços mais baixos do que os das siderúrgicas locais.
De acordo com Erick, enquanto a média de penetração de importação no mercado interno era em torno de 10% a 12%, em 2025, esse número subiu para 25%, representando quase 6 milhões de toneladas de aço importadas.
Erick avalia que os avanços do Governo Federal em conjunto com a indústria do aço foram importantes, mas insuficientes para conter a entrada de aço importado a preços baixos.
Para tentar frear a concorrência chinesa, o Governo tem aplicado taxas extras sobre determinados tipos de aço importado e limitado a quantidade que pode entrar no país sem sobretaxa. Para Erick, essas tarifas precisam aumentar para defender a produção nacional.
Apesar do panorama delicado, o CEO da empresa ressalta que não houve redução de produção nem cortes de funcionários diretos.
Cenário de 2026 ainda é desafiador
Segundo Erick, os resultados do primeiro trimestre de 2026, ainda não divulgados, estão dentro da margem planejada pela empresa, compondo uma realidade mais positiva do que a do ano passado.
No entanto, frisa que o cenário continua tão desafiador quanto o de 2025. De acordo com ele, em 2025 a empresa foi surpreendida pelo cenário, mas agora conta com um planejamento mais sólido e alternativas para manter a competitividade.
"Já houve uma evolução que nos levou a ter uma condição um pouco melhor do que no ano passado. Está longe ainda do que já realizamos, mas acredito que o cenário é positivo nesse sentido: saber o momento pelo qual passamos e os desafios pela frente", reflete.
Demissões de terceirizados não têm relação com resultado negativo
O CEO também ressaltou que a demissão dos funcionários da empresa terceirizada Evsa não está relacionada com os resultados negativos do balanço financeiro.
O contrato entre as empresas foi encerrado no início de abril. No dia 8 do mesmo mês, os 398 funcionários da Evsa foram impedidos de acessar o local de trabalho e não receberam esclarecimentos sobre o processo de desligamento formal da empresa.
O Tribunal Regional do Trabalho da 7ª Região determinou, em 24 de abril, que todo o material da Evsa que se encontra no pátio da ArcelorMittal Pecém seja penhorado para pagar R$ 15 milhões em rescisões aos trabalhadores que serão demitidos.
A ArcelorMittal informou que a prestação de serviços firmada foi encerrada devido a diversos descumprimentos, e frisou que é de responsabilidade da Evsa o pagamento dos colaboradores e fornecedores, além de garantir que não existem pendências com a terceirizada.
“Encerramos o contrato sem nenhuma relação com o tarifaço, até mesmo porque todos os postos de atividades exercidos por essa empresa vão continuar existindo”, explica Erick.
Segundo ele, algumas vagas já foram substituídas, enquanto outros contratos estão sendo finalizados para dar seguimento às atividades. O trabalho envolve manutenções de pequeno porte e serviços de acabamento da placa.