Sob perspectiva feminina, jornalista cearense publica livro sobre redescoberta

Durante pandemia, a escritora Lorena Portela produz livro ambientado em Jericoacoara com narrativa feminina de elos de vivências

Legenda: A edição traz ilustrações de dez artistas mulheres
Foto: Maria Eduarda Luz

Por vezes, ela é fim, mas nem sempre a morte é aquela definitiva. Existe o morrer diário, simbólico, quase que imperceptível sob os olhos gerais. Em “Primeiro eu tive que morrer”, romance de estreia da jornalista Lorena Portela, a morte tratada é a que antecede os muitos renascimentos pelos quais uma mulher pode passar ao longo de sua vida. Com fluidez e sonoridade coloquial, a narrativa traz personagens femininas de gerações e classes sociais distintas para falar de assuntos comuns a todas: violência, traumas, amor e redescobertas.

Ambientada na Praia de Jericoacoara, no Litoral Oeste do Ceará, a trama é conduzida por uma publicitária que, em meio ao cotidiano agitado, enxerga-se doente e perdida. Há quem acredite que se trata de uma história autobiográfica, já que a autora, embora jornalista, atuou na área da publicidade por sete anos. 

Lorena explica que “é um livro de ficção, não é uma biografia. Muitas situações ali foram criadas, mas foram baseadas sim em coisas que eu vivi e em experiências também de outras pessoas com quem eu convivo e que conheço na história”.

Entretanto, a escritora confessa que viveu na pele sentimentos parecidos com os de sua personagem. O fim de um relacionamento e a insatisfação no âmbito profissional desembocaram em uma sequência de recomeços. O primeiro foi a mudança para Portugal. O novo emprego e o novo amor vieram em seguida, acompanhados de fôlego e coragem para colocar em prática um sonho há muito almejado: escrever sobre essa síndrome da impostora que ronda as mulheres o tempo inteiro e também sobre os demônios que temos que matar para prosseguirmos.

É no elo de vivências compartilhadas que Lorena abre novos caminhos para a protagonista de seu livro. Ao se ver abalada psicológica e emocionalmente, tendo que enfrentar fantasmas passados, a personagem foge para a vila misteriosa e se conecta com seis diferentes mulheres.

Segundo a autora, esse momento é decisivo, pois o vínculo de amor e acolhimento criado entre elas foi essencial para o processo de questionamento da vida, de si e das relações presentes na sociedade.

“Ela, muito provavelmente, não passaria por isso sozinha e nem longe daquele lugar. Isso é um retrato meu também, e de muitas amigas que encontraram no seio de uma comunidade feminina um lugar de renascimento pessoal. Se enxergar no feminino, enxergar força e potência nessas relações, que tanto desacreditamos”, salienta.

Com o mesmo vigor da criação, Lorena segue no desafio de concretizar o material totalmente independente. Atualmente morando em Londres, cidade onde escreveu o livro nos primeiros meses do isolamento social imposto pela Covid-19, ela abriu uma pré-venda online para que seu trabalho possa ir além do lançamento previsto para acontecer em Lisboa, capital lusitana.

Legenda: Ilustrações de artistas mulheres estampam as páginas do livro
Foto: Jaqueline Arashida

Potência

A força do feminino é fator que percorre toda a produção da obra, visto que esta é construção de muitas mãos, todas de mulheres. Ao decidir lançar o romance de forma independente, Lorena reuniu jornalistas, designers, artistas visuais, cantoras, tatuadoras e pintoras para a auxiliar a contar a história que envolve todo esse universo compartilhado. 

A edição e revisão foram feitas por Raquel Lima, a diagramação e editoração eletrônica, por Camilla Leite, a revisão técnica ficou por conta de Juliana Espanhol e o prefácio é da escritora Cris Lisbôa. As páginas internas da tiragem especial de primeira edição também contam com dez ilustrações criadas por Karina Buhr, Dani Acioli, Azuhli, Flávia Rodrigues, Bia Penha, Jaqueline Arashida, Monica Maria, Íldima Lima, Maria Eduarda Luz e Lis Areia.

Já a capa do livro foi pintada à mão pela artista Carolina Burgo, que, com sua filha recém-nascida nos braços, imortalizou corpos de mulheres nas dunas de Jericoacoara.

Legenda: Capa do livro com ilustração da artista Carolina Burgo
Foto: Divulgação

Com contornos modificados pelo vento e pelo mar, as montanhas de areia vêm como impermanência, como representação da efemeridade da vida, como afirmou a artista em uma publicação no Instagram. “Eu queria pintar um sonho, um desejo, uma vontade de sentir o sol tocando a pele e saber que estou irreversivelmente misturada a todas as mulheres que já me atravessaram. Eu queria pintar uma morte morna e suave, que não acaba em si, mas que anuncia o fim de um dia, de um ciclo, um entardecer da alma, um descanso, o momento que antecipa nosso fechar de olhos para o renascer do dia seguinte”, sublinha Carolina.

Localidade

Se a energia que envolve a trama tem origem nas relações entre suas personagens, esta também emana do palco que a apresenta. “É o lugar que eu mais gosto de ir. Sempre achei que tem uma coisa muito inexplicável, você tenta explicar, mas não consegue dizer com precisão como é estar lá”, manifesta Lorena sobre a escolha de Jericoacoara como cenário principal da narrativa. Fortaleza também aparece no início do livro. 

“Eu queria que fosse ambientado no lugar que eu nasci, cresci e que é uma parte indissociável de quem eu sou. E também porque eu não conheço muitos livros contemporâneos que tenham um enredo voltado para o público jovem adulto e que tenha Fortaleza, Ceará como cenário. É claro que existem, mas não é comum, sabe? Estamos sempre lendo livros que se passam em São Paulo, no Rio de Janeiro, ou em Nova York. Por que não estamos lendo livros que se passam na nossa cidade?”, analisa.

Entre mergulhos no mar, sob raios de sol ou luar, o litoral paradisíaco serve como impulso para que a protagonista questione o caos do cotidiano. Abandono, excesso de trabalho e assédio são alguns dos temas que surgem de tais reflexões. 

“Espero que (os leitores) sintam alguma coisa, que desgostem até, mas que se emocionem de alguma forma. Se nesse processo de emoção, as pessoas também puderem questionar essa engrenagem que nos diz a forma de ser feliz, como que temos que trabalhar, as relações de abuso que são desenvolvidas ao longo da vida e o papel fundamental dessa comunidade de mulheres de acolhimento e empoderamento, vai ser um lucro e tanto”, completa Lorena.

Primeiro Eu Tive Que Morrer
De Lorena Portela
Edição Independente
2020, 140 páginas
R$32,90

Serviço
Pré-venda do livro “Primeiro Eu Tive Que Morrer”, de Lorena Portela
Compra online: @portelori no Instagram
Contato por e-mail: primeiroeutivequemorrer@gmail.com

 

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