Pandemias já foram temas de livros de ficção ou não; veja alguns títulos

De Lira Neto a José Saramago, um guia de obras sobre distintos cenários em que cotidianos, feito o nosso, foram drasticamente alterados devido a pandemias

Foto: Ilustração: Thyagão

Longe de ser recente, o desenvolvimento de tramas distópicas na literatura ganhou novo capítulo no começo desta década.

Com a adaptação para o cinema de “Jogos Vorazes” (“The Hunger Games”, no original), em 2012, da escritora e americana Suzanne Collins, o mercado editorial voltou o olhar com bastante afinco para essa temática, compondo um filão de obras infanto-juvenis nas quais o futuro do planeta é posto em xeque. 

Na sequência, foram adaptadas ainda séries como “Divergente”, de Veronica Roth; “Mazze Runner”, de James Dashner; e “O Doador de Memórias”, de Lois Lowry, entre várias outras – uma porção delas, contudo, ainda existente apenas no papel.

São tramas mais pueris, claro (nada que se compare a clássicos absolutos, como “A Máquina do Tempo”, de H. G. Wells, e “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury, para citar apenas dois), mas bastante válidas para mostrar ao público leitor o quanto o assunto é diverso e pode ganhar camadas cada vez mais profundas. 

Foto: Ilustração: Thyagão

Corta para 2020. Mal o ano começa e já estamos enfrentando um cenário digno dessas histórias em que o fim de tudo parece logo ali. Dá para sentir no ar, nas telas, nas ausências.

Mas há algo específico neste caso: trata-se de uma pandemia, outro assunto já bastante explorado na literatura, com obras que conseguem se sobressair àquelas devido à maneira mais contundente de aproximação dos contextos narrados com os nossos, próprios. 

Nesse movimento, o Verso lista alguns dos títulos mais importantes dentro desse caldeirão de referências de modo a fazer com que reflitamos sobre o início, os desdobramentos e o fim de cada ameaça pandêmica. Que personagens emergem? Que decisões são tomadas em situações-chave? Como líderes políticos e a própria população se posicionam quando nesse panorama?

Eis algumas perguntas que norteiam o olhar sobre os exemplares. São livros de ficção e não-ficção, assinados pelo cearense Lira Neto e o mineiro Pedro Nava, passando pelo português José Saramago e a canadense Margaret Atwood. Confira:

“O poder e a peste: a vida de Rodolfo Teófilo”, de Lira Neto (Fundação Demócrito Rocha, 1999)

Ao fundir jornalismo, história e literatura, a obra conta a trajetória do baiano radicado no Ceará Rodolfo Teófilo – misto de cientista, industrial, escritor e divulgador científico – a partir de dois contextos de varíola, doença que vitimou milhares de pessoas na Fortaleza do final do século XIX e início do século XX. Sem apoio do poder público, o homem travou um verdadeiro duelo pessoal para combater a peste de seu tempo, lutando contra a falta de recursos, o medo daqueles que temiam a vacina e as consequências da seca e da fome. Tamanho esforço gerou resultados: só em 1902, Teófilo vacinou 1940 pessoas, não sendo registrado nenhum caso de varíola na capital cearense naquele ano. Com inteligência e munindo-se de acessível linguagem, Lira Neto oferece um livro que traz um importante exemplo do quanto epidemias foram vencidas pela teimosia e, sobretudo, crença na ciência, salvando milhares de vidas. Qualquer comparação com a situação do Brasil de hoje não é mera coincidência.

“Ensaio sobre a cegueira”, de José Saramago (Companhia das Letras, 1995)

Um dos livros mais famosos do escritor português José Saramago (1922-2010) – tendo sido adaptado para o cinema em 2008, pelo diretor brasileiro Fernando Meirelles, com Julianne Moore e Mark Ruffalo no elenco – narra a realidade diante de uma terrível “treva branca”, que vai deixando cegos, um a um, os habitantes de uma cidade. Resguardados em quarentena, eles se perceberão reduzidos à essência humana, numa verdadeira viagem às trevas, desenvolvendo sentimentos que vão evoluir sob diversas formas: compaixão pelos doentes e necessitados, como idosos ou crianças; atos de violência e abuso sexual; lutas entre grupos pela pouca comida disponibilizada; embaraço por atitudes que nunca antes seriam cometidas, entre outras. Assim, a partir de uma fantasia sufocante, em 300 páginas de pura aflição, o autor, ganhador do Nobel de Literatura, guia a audiência no sentido de que feche os olhos e veja, recuperando, dentre outros valores, a lucidez e o afeto. 

“Chão de Ferro”, de Pedro Nava (Companhia das Letras, 2012)

Considerado o maior memorialista brasileiro, o médico e escritor mineiro Pedro Nava (1903-1984) relata,  no Capítulo III de “Chão de ferro”, a experiência com a pandemia de gripe espanhola no Rio de Janeiro de 1918. Em alguns trechos, ficam evidentes questões essenciais para a compressão do impacto da doença na até então capital do País. “Seu contágio já andou a pé, a passo de cavalo, à velocidade de trem de ferro, de navio e usa, nos dias de hoje, aviões supersônicos – espalhando-se pelo mundo em dois, três, quatro dias”, descreve o autor em certo momento. Em outro, conta: “Tornou-se calamidade de proporções desconhecidas nos nossos anais epidemiológicos nos dias terríveis da segunda quinzena de outubro e sua morbilidade e mortalidade só baixaram na ainda trágica primeira semana de novembro”. Uma obra, portanto, que recorda, a partir de uma perspectiva bastante íntimas, as proporções do surto que paralisou o mundo.

“O Ano do Dilúvio”, de Margaret Atwood (Bertrand Editora, 2011)

Mundialmente conhecida pelo livro “O Conto da Aia” – que inspirou série homônima da Hulu –, a canadense Margaret Atwood detém pena atenta a contextos distópicos, especialmente envolvendo repressão e controle de camadas sociais, como ocorre em seu romance mais famoso. Neste “O Ano do Dilúvio”, ela expande os contextos e ameaças. Ambientado no futuro, apresenta a consequência do quanto a sociedade e as espécies têm mudado rapidamente, e o pacto social em pouco tempo se torna tão frágil quanto a estabilidade ambiental. Nesse cenário, diferentes vivências se avolumam: formas de vida ligadas à manipulação genética estão proliferando e há uma seita dedicada à fusão da ciência e religião, bem como à preservação de toda a vida vegetal e animal. Descrita como sombria, irônica e provocadora, a obra é a segunda da trilogia MaddAddão, atestando a força da ficção especulativa de Atwood.

Tire as dúvidas sobre o novo coronavírus: 

A Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou pandemia do Covid-19, no dia 11 de março. O órgão alertou que o número de pacientes infectados, de mortes e de países atingidos deve aumentar nos próximos dias e semanas.

O termo pandemia se refere ao momento em que uma doença já está espalhada por diversos continentes com transmissão sustentada entre as pessoas.

TRANSMISSÃO E CUIDADOS

O novo vírus é transmitido por vias respiratórias, pelo ar, e por gotículas de saliva que saem em um espirro ou tosse, por exemplo, e também podem ser transferidas por contato físico ou superfícies contaminadas.

SINTOMAS

Os principais sintomas são tosse seca, febre e cansaço. Algumas pessoas podem sentir dores no corpo, inflamação na garganta, congestionamento nasal e diarreia.

PREVENÇÃO

As pessoas devem ter cuidado com a higienização das mãos e evitar tocar mucosas do olho, nariz e boca.