"O pessoal do bairro gosta de arte", diz dono de videolocadora no José Walter que resiste ao tempo

Comércio de Ricardo Padilha completou 20 anos em janeiro. Outra em atividade é a Chaplin Vídeo, localizada no bairro Pan Americano. Estudo do IBGE aponta que o número de lojas no Brasil supera o total de livrarias e até salas de cinema

Legenda: "Eu gosto de locadora. Gosto de ter essa conversa com o cliente, trocar ideia, essa relação", detalha o comerciante
Foto: Fabiane de Paula

As videolocadoras gradualmente saem de cena no Brasil. No entanto, significativa parcela da memória em torno destes comércios continua firme no quesito da afetividade. A reportagem acerca dos últimos dias da Distrivídeo ganhou comentários nostálgicos no Instagram do Diário do Nordeste. Clientes e muitos ex-funcionários dividiram alguma lembrança positiva do lugar. Alguns, até refletiram as alterações tecnológicas e as consequentes mudanças na maneira de consumir um bom filme.

No sábado (23), uma leitora atenta fez contato via e-mail. O conteúdo da mensagem citava a matéria "Com o fim da Distrivídeo, 'rebobinamos' a memória de algumas locadoras de Fortaleza" e o melhor, a autora informava ser cliente de uma locadora. Esta, ainda em plena atividade na capital cearense.

"Parte do funcionamento é devido aos filmes, mas, acredito que o sucesso maior é pela atenção, conhecimento e diversidade de produtos encontrados ali. Sou cliente e admiradora do trabalho do proprietário, Sr. Ricardo", escreveu a cinéfila. 

A preciosa dica nos levou até a Ricardo Vídeo. São exatos 20 anos de atuação na Avenida J. do bairro José Walter. O proprietário, Ricardo Padilha, compartilhou um pouco da trajetória. Afinal, quais razões explicam manter as portas abertas e manter um modelo de negócio quase extinto

Do VHS ao Blu-ray

Curiosamente, a resposta para seguir trabalhando remete ao início de toda essa jornada. Ricardo começou a trabalhar na locadora de um tio. Primeiro, aos domingos. Com o fim dos estudos e maior disponibilidade, passou a operar nas semanas. Quatro anos e meio se passaram. Era hora de montar a própria loja.

"Troquei o carro pelo acervo de uma locadora que ficava lá em Itaitinga. Era tudo VHS. Em janeiro de 2001 coloquei a loja. Foi dois anos só investindo. Me sufoquei e minha irmã ajudava trabalhando aqui", resgata. 

As contas chegavam e a labuta tomava de domingo à domingo, sem feriado. Some aí o esforço de entender a lógica por detrás da administração de um comércio. "Na transição do VHS para o DVD foi o tempo que me desafoguei mais. Pude comprar as coisas que eu gosto", explica Padilha.

O lojista, garante, foi pioneiro no José Walter no aluguel de DVDs. Nos tempos áureos, 22 locadoras concorrentes existiam no bairro. "Sem contar os 'pirateiros' que existiam na região", faz questão de frisar. 

'Streaming é ficção'

O Blu-ray não "engatou", argumenta o entrevistado. Nestas duas décadas, a Ricardo Vídeo lidou com a pirataria e sobrevive diante do streaming. A pandemia da covid-19 é o "adversário" mais recente. Padilha aponta que o atual volume de locações corresponde a 1% do passado. "Os meus clientes, 70% são moradores do José Walter. Crianças que hoje são adultos e jovens. São professores que alugam filmes para dar aula", enumera.

"O pessoal do bairro gosta de arte. É igual a quem lê. Quem se acostuma nunca troca um livro de verdade", argumenta.

A loja conta com cerca de cinco mil filmes. O dono recusa qualquer proposta de venda. Manter o espaço também reserva um certo cuidado à relação com os moradores. O diferencial está na troca, no contato com o público. Algo estranho à tecnologia vigente.

Ricardo Vídeo
Legenda: Ricardo Vídeo foi pioneira no bairro na locação de DVDs
Foto: Fabiane de Paula

"Não é uma ficção, é uma verdade. O filme streaming é uma ficção. É tudo digital. Aqui não, o cara vem pegar, sentir a vibração. Isso não custa nada, o bom é essa interatividade", enumera. 

No tocante a seguir no ramo, Ricardo Padilha cita a fé e agradece a Deus por estar onde ele o colocou. A chave para continuar advém da mesma lógica do início de carreira. É não parar. "Gosto muito da profissão. Sempre penso positivo, que vai dar certo. É como naquele tempo onde tudo começou. 'Eu não olho para trás, olho para frente'", finaliza. 

Videolocadoras no Brasil

Divulgado em dezembro de 2019, a pesquisa "Perfil dos Municípios Brasileiros 2018" entrega o mais recente panorama das videolocadoras no País. O estudo feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) avalia o desempenho da economia do setor cultural. 

23% das 5.570 cidades brasileiras ainda contam com videolocadoras. O dado representa 1.281 municípios atendidos com essa categoria de serviço. A queda é significativa. Em 2009, o índice estava na marca de 69,6%.

No entanto, se comparamos com o número de livrarias, temos uma constatação alarmante. Apenas 17,7% (o correspondente a 985 cidades) contam com estes espaços. As videolocadoras superam as bancas de jornais (com 20,3%) e os até os cinemas. Apenas 10% dos municípios contam com alguma sala.  

Fachada anuncia os serviços à população. Segundo Regina Araújo, além da venda, é possível alugar os filmes
Legenda: Fachada anuncia os serviços à população. Segundo Regina Araújo, além da venda, é possível alugar os filmes
Foto: Fabiane de Paula

Em Fortaleza, além da Ricardo Vídeo, outros empreendimentos precisaram ampliar a oferta de serviços. O nome da locadora é sugestivo. Referencia um dos grandes quando o assunto é sétima arte. A Chaplin Vídeo segue atuando no bairro Pan Americano.

Além da venda e aluguel de DVD e Blu-ray, a loja oferece serviços de fotocópia (a popular "xerox"), plastificação, encadernação, impressão e venda de itens ligados à papelaria. A escolha por estas outras atividades foi uma forma de garantir a movimentação do local.

São 18 anos de atendimento no endereço situado na Rua Piauí. Por telefone, Regina Araújo detalha que "as portas estão abertas para quem quiser adquirir os filmes".

Sérgio Parente era proprietário da Mega Filmes, que atendia as adjacências do bairro Parquelândia. Nada de se desfazer dos 5.500 filmes da coleção. Eram 20 anos de ramo e lojas em outros bairros. Com a queda do setor, o comerciante migrou à área de gráfica rápida. 

"Tudo tem mudanças. Tudo muda e você tem que inovar. Veio o streaming e hoje temos que aceitar no final. O que deixa saudade é mais a amizade, a proximidade com os clientes, participar dessas das famílias. A locadora era um local de encontro", completa o comerciante.

Serviço:

Ricardo Vídeo. Av. J., 341. Bairro José Walter. Horário de atendimento: 10h às 12h e de 16h às 20h. Contato: (85) 9 8892-8970

Chaplin Vídeo. Rua Piauí, 1111. Bairro Pan Americano. Horário de atendimento: 8h às12h  e  de15h às 19h. Contato: 3032.1258

 

 

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