"Histórias que andam": oficina teatral on-line enfatiza identidade cultural nordestina

Contemplada pelo Rumos Itaú Cultural, atividade acontece entre 4 e 7 de fevereiro com o ator, diretor e produtor baiano Jackson Cavalcante; inscrições estão abertas

Legenda: Jogos, dinâmicas, objetos e outros elementos devem favorecer a ampliação do olhar artístico durante as oficinas
Foto: Carlos Nunes

459 quilômetros separam Salvador do município de Paulo Afonso. Localizada na divisa entre os Estados de Alagoas, Sergipe e Pernambuco, a cidade do interior baiano é nacionalmente conhecida pelo complexo de usinas hidrelétricas, o terceiro maior do País. Contudo, por detrás da imponente construção, há muitas histórias e identidades soterradas. Resquícios culturais de comunidades inteiras, desapropriadas há décadas para dar lugar ao empreendimento.

É a partir dessa inquietação que o ator, diretor e produtor cultural Jackson Cavalcante lança as bases para o projeto "Histórias Andantes", contemplado pelo Programa Rumos Itaú Cultural 2017-2018.

A ação conta com a oficina teatral on-line "Histórias que andam", cujas inscrições estão abertas para a região Nordeste, podendo ser realizadas por meio do perfil @traquinagemdecabeca. No total, são 60 vagas ofertadas. Os encontros virtuais acontecerão entre os dias 4 e 7 de fevereiro, via Zoom.

Em entrevista ao Verso por telefone, Jackson, natural de Paulo Afonso, conta que a atividade deverá levantar pertinentes reflexões, sobretudo a respeito de temáticas como identidade cultural, memória e costumes a partir do lugar de onde o artista parte.

"A construção de tantas barragens no município desencadeou uma série de questões relevantes, prejudicando, por exemplo, a identidade das pessoas. Fiz, então, uma pesquisa com base nisso e percebi que muita coisa foi apagada. Foi retirada a memória desses moradores, registros que sequer foram substituídos", dimensiona.

Atrelado às artes cênicas, o resultado desse levantamento se converterá em 12 horas de conhecimentos sobre técnicas e criação de contação de histórias, repassados de forma gratuita, oportunizando novos olhares sobre o panorama memorialístico de povos e regiões. A iniciativa conta também conta com exibição virtual da leitura dramática do texto do espetáculo homônimo, além de uma live sobre o processo criativo de Cavalcante.

Legenda: As práticas trabalhadas na oficina serão contextualizadas por meio de contos, fábulas, causos e estórias pertencentes ao Nordeste
Foto: Carlos Nunes

Foco na prática

A proposta de Jackson é utilizar uma metodologia que abrace uma perspectiva mais prática que teórica. Nesse sentido, a primeira parte dos encontros contemplará a base conceitual da contação de histórias, fomentando discussões sobre a preservação da oralidade para a educação, por exemplo. Vídeos, rodas de conversas, bem como criação e produção de textos ajudarão nesse processo inicial.

Logo em seguida, entram em cena jogos, dinâmicas, objetos e outros elementos que favoreçam a ampliação do olhar artístico, contextualizados por meio de contos, fábulas, causos e estórias pertencentes ao Nordeste. Aqui, ganha relevo na fala do ator a necessidade de respeitar a identidade cultural de cada participante.

"A criatividade vai ser uma das coisas que eu vou mais trabalhar, até porque eles podem repassar os métodos de criação desenvolvidos na oficina para outras pessoas", sublinha.

Algumas perguntas são importantes nesse processo: O que os participantes podem trazer para os encontros? O que sabem da cidade onde vivem? Como podem construir uma história voltada para a sua realidade? De que maneira podem usar o próprio corpo para contar narrativas? 

"Há uma série de saídas, inclusive utilizando artifícios muito trabalhados, que custam caro. Então, a voz, a expressão corporal e, de novo, a criatividade vão ser pontos fundamentais, tendo em vista que eles podem contar uma história até com uma sacola de plástico, ou com alguma coisa que encontram na rua. O foco, assim, é na exploração natural dessas possibilidades", completa Jackson Cavalcante.

Por fim, o profissional reflete sobre a efervescência, Brasil afora, de atividades que valorizem as contações de histórias. Segundo ele, a prática é uma tentativa de reviver tradições. "Acredito que surge como forma de valorizar o processo de rememorar. Inclusive, pode ser que, a partir de uma contação de história, possa vir um estímulo para uma outra coisa, como uma peça de teatro, por exemplo. Meu intuito é favorecer o surgimento disso, dessa novidade, de alguma pulsão artística".

Fomento

Um dos maiores editais privados de financiamento de projetos culturais do país, o Programa Rumos é realizado pelo Itaú Cultural desde 1997, fomentando a produção artística e cultural brasileira. A iniciativa recebeu mais de 64,6 mil inscrições desde a sua primeira edição, vindos de todos os estados do país e do exterior.

Destes, foram contempladas mais de 1,4 mil propostas nas cinco regiões brasileiras, que receberam o apoio do instituto para o desenvolvimento dos projetos selecionados nas mais diversas áreas de expressão ou de pesquisa.

Na edição de 2017-2018, os 12.616 projetos inscritos foram examinados, em uma primeira fase seletiva, por uma comissão composta por 40 avaliadores contratados pelo instituto entre as mais diversas áreas de atuação e regiões do país.

Em seguida, passaram por um processo de avaliação e análise por uma Comissão de Seleção multidisciplinar, formada por 21 profissionais, incluindo gestores da própria instituição. No total, foram selecionados 109 projetos, contemplando todos os estados brasileiros.

Serviço
Oficina "Histórias que andam", com o ator, diretor e produtor cultural Jackson Cavalcante
De 4 a 7 de fevereiro, das 14h às 17h, por meio da plataforma Zoom (link enviado por e-mail). Inscrições gratuitas via @traquinagemdecabeca ou pelo telefone (75) 99101-1270. 60 vagas disponíveis (inscrições abertas até completar o total)

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