Entenda por que o preço das passagens aéreas subiu em Fortaleza

Em setembro, a inflação para 'passagem aérea' subiu 43,7%. Especialistas dizem que dólar, demanda e pandemia explicam escalada de preços

Legenda: Com o avanço da economia após o período mais crítico da pandemia e a demanda represada por viagens, preços dos bilhetes aéreos caminham para recompor os patamares de 2019
Foto: Shutterstock

Diante de fatores como a retomada gradual do turismo e a escalada do dólar (que afeta os preços do combustível utilizado pelas aeronaves), a tarifa aérea de voos de e para Fortaleza calculada pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) ficou, em média, 5,4% mais cara em 2021. Com o resultado, os valores dos bilhetes se aproximam gradualmente de patamares pré-pandêmicos.

O percentual representa aumento real das tarifas, que é quando são considerados os efeitos da inflação, e é resultado da comparação entre os voos realizados nos sete primeiros meses de 2021 (R$ 417,99) contra os sete primeiros meses de 2020 (R$ 395,51).

Considerando apenas o mês de julho deste ano comparado a igual mês de 2020, a diferença nas tarifas é ainda maior. Enquanto no sétimo mês de 2021 a tarifa aérea média real ficou em R$ 503,33, em 2020 ela era R$ 305,20 – salto de 64,9% no período.

A reportagem fez ainda um levantamento das principais rotas tendo como ponto de partida ou de chegada o Aeroporto de Fortaleza. O bilhete médio mais caro em 2021 entre as cidades observadas foi o Rio de Janeiro (R$ 564,85).

O que mais subiu em 2021 na comparação com 2020, porém, foi o trecho Fortaleza-Recife, que ficou em média 74,9% mais caro. A tarifa média real foi calculada pela Anac em R$ 323,52.

Veja como se comportaram os valores neste ano:

  • Fortaleza (SBFZ) - Guarulhos (SBGR)

Tarifa média: R$ 466,03

Variação jan-jul/21 x jan/jul/20: 2,1%

  • Fortaleza (SBFZ) - Recife (SBRF)

Tarifa média: R$ 323,52

Variação jan-jul/21 x jan/jul/20: 74,9%

  • Fortaleza (SBFZ) - Rio de Janeiro

Tarifa média: R$ 564,85

Variação jan-jul/21 x jan/jul/20: -3%

  • Fortaleza (SBFZ) - Brasília (SBBR)

Tarifa média: R$ 407,57

Variação jan-jul/21 x jan/jul/20: 22,8%

Setor ainda não recuperou patamar pré-pandemia

Apesar da elevação das tarifas em 2021 na comparação com o ano de 2020, os valores ainda estão abaixo da média calculada pela Anac nos sete primeiros meses de 2019, quando o setor aéreo no País operava pleno antes da pandemia do coronavírus.

Entre janeiro e julho de 2019, a tarifa aérea média real em Fortaleza era R$ 428,77.

Inflação

Em setembro deste ano, viajar de avião também ficou bem mais caro para os fortalezenses em relação ao mês de agosto, tomando como base as variações da inflação medida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A alta no subitem “Passagens Aéreas” foi de 43,7% no mês passado. Apesar da elevação, de janeiro a setembro deste ano, as passagens aéreas acumulam deflação de 9,05%.

Na avaliação do economista Ricardo Coimbra, fatores como o preço do combustível de aviação e um desequilíbrio que ainda é percebido entre oferta e demanda podem estar influenciando os preços.

Legenda: Passagens aéreas em Fortaleza tiveram inflação de 43,7% e se destacaram entre os produtos e serviços com maiores altas em setembro
Foto: Helene Santos

"As empresas tiveram redução significativa de suas margens em função do número menor de passageiros. Elas voltaram com rotas que ainda estão ociosas, então para compensar o número menor de passageiros nas aeronaves, as tarifas acabam sendo elevadas"
Ricardo Coimbra
Economista

Em relação ao combustível, Coimbra pontua dois aspectos: a escalada do dólar e o nível de produção de petróleo. "Houve elevação significativa do preço do combustível e do câmbio, que é outro fator determinante para os preços. Para que a gente pudesse ter uma melhora nesse cenário, seria interessante termos um aumento na produção de petróleo", detalha Coimbra.

Perspectivas

O aumento na produção de petróleo, porém é um tema que já foi descartado em recente reunião da Organização dos Produtores e Exportadores de Petróleo (Opep), o que torna mais difícil qualquer previsão sobre o cenário futuro. "Essa questão pode dificultar a redução no preço do combustível", diz.

"Já a taxa de câmbio depende de outras variáveis. O mercado estima que pode haver redução, mas não se tem certeza. Em um ambiente interno, poderia contribuir positivamente uma atenção maior do governo para as reformas, gerando um cenário mais interessante para a nossa economia. Se isso não ocorre, podemos ter um mecanismo de pressão em relação ao câmbio”, avalia Coimbra.

Na avaliação do engenheiro aeronáutico Igor Pires, a retomada da malha aérea aliada à demanda represada por viagens pode explicar a forte inflação registrada em Fortaleza no mês de setembro. Ele pontua, porém, que em agosto os patamares estão compatíveis com os preços de 2019, o que mostra uma certa recomposição dos valores dos bilhetes aos patamares pré-pandêmicos.

“O que eu vejo das companhias é que todas estão extremamente entusiasmadas com a retomada e é crescente o aumento no número de voos de junho para cá”, detalha Igor, ressaltando que Fortaleza já está com 80% do mercado restabelecido em relação ao ano de 2019, observando os períodos de julho a agosto.

“Nós temos uma boa quantidade de viagens de lazer que estavam represadas em praticamente um ano e meio. A classe média em home office poupou com viagens na pandemia, então são pessoas com vontade de viajar e com algum dinheiro estocado. Quando as companhais enxergam esse entusiasmo, eu entendo que ela eleva esse preço e as pessoas pagam”, reforça Igor Pires.

Companhias aéreas

A reportagem buscou as companhias aéreas sobre o assunto. Em nota, a Latam informou que trabalha com sistema de precificação dinâmica e que os preços variam de acordo com uma série de fatos, "tais como a compra antecipada, preço do combustível, sazonalidade, origem e destino de voo".

De acordo com a companhia, 65% dos custos da empresa são dolarizados e o combustível de aviação representa em torno de 35% das despesas. "O preço do combustível é um indicador importante na composição do preço da passagem, sendo que 65% dos custos da empresa são dolarizados e o combustível da aviação representa em torno de 35% das despesas. Esses indicadores quando sofrem aumento têm impacto direto na composição de custos das passagens aéreas".

A Latam também destacou que o preço médio da tarifa em 2020 foi o mais baixo em 20 anos em função da pandemia e que, por isso "não pode ser utilizado como parâmetro de comparação".

A Gol também disse que adota o modelo de precificação dinâmica e disponibiliza as vendas, em geral, 330 dias antes da partida, possibilitando planejamento e aquisição de passagens mais baratas.

"Este modelo faz com que as tarifas tenham oscilação constante – considera a antecedência de compra da passagem e a ocupação da aeronave – permitindo que, em contrapartida, os passageiros que não conseguem se planejar e necessitam adquirir de última hora um bilhete também tenham opções disponíveis (muitos dos casos dos clientes corporativos, ou aqueles de viagens de emergência)", diz a companhia aérea.

A companhia arremata que, seguindo esta dinâmica, os preços praticados em Fortaleza tiveram, durante setembro, a mesma tendência de oscilação em relação a meses anteriores.

A Azul também afirmou, em nota, que os preços dos bilhetes variam de acordo com fatores como trecho, sazonalidade, compra antecipada e disponibilidade de assentos. A empresa também destacou os impactos da alta do dólar e dos combustíveis.

"Além disso, a companhia ressalta que a alta do dólar e do combustível, algo que vem ocorrendo sistematicamente, também são elementos que influenciam nos valores das passagens", arremata a Azul.

Brasil

A variação observada na tarifa aérea média real em voos de e para Fortaleza ficou abaixo da média nacional. Considerando as rotas operadas em todo o Brasil, os bilhetes aéreos ficaram 7,8% mais caros neste ano (R$ 403,83) na comparação com 2020 (R$ 374,74), ainda de acordo com os dados da Anac.

A tarifa aérea doméstica em 2020, considerando os 12 meses, chegou a R$ 376,29 - menor patamar em 20 anos. O valor representa uma queda de 14,5% na comparação com 2019.

Com a retomada da atividade econômica, porém, a malha aérea brasileira também segue aos poucos rumo à normalidade. Em setembro, o presidente da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), Eduardo Sanovicz, vinculou a recuperação da malha aérea ao ritmo de vacinação e não agravamento da pandemia.

"Importante lembrar que a continuidade desse desempenho está vinculada ao ritmo de vacinação e ao não agravamento da pandemia. Temos também de enfrentar o Custo Brasil, que pode inibir uma recuperação mais consistente da aviação", destacou Sanovicz.

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