Em meio a dívidas, empresas de turismo e eventos do Ceará sofrem para sobreviver à crise

Diante de um drama financeiro, segmentos de eventos, hotéis e turismo relatam dificuldades, endividamento e malabarismos para não fechar de vez

Legenda: O acúmulo de prejuízos com a pandemia levou os setores de eventos e turismo do Ceará ao endividamento e ao limite da subsistência
Foto: Paulo Alberto

O acúmulo de prejuízos com a pandemia levou os setores de eventos e turismo do Ceará ao endividamento e ao limite da subsistência, relatam empresários do setor. Sem perspectivas de retorno tão cedo, quase a totalidade das empresas de eventos permanece fechada. Os hotéis estimam ocupação em torno de 10% em abril e as agências de viagem apostam em pacotes turísticos para um futuro ainda incerto. 

“O setor de eventos carrega o endividamento e os problemas advindos do ano passado. A maioria está realista quanto à dificuldade de vencermos os números da pandemia que a segunda onda trouxe. Não nos iludimos com o breve retorno das atividades”, diz a presidente do Sindicato das Empresas Organizadoras de Eventos e Afins do Estado do Ceará (Sindieventos-CE), Circe Jane. 

O mesmo vem sofrendo o setor de hotelaria do Estado, cujas equipes foram reduzidas ao mínimo e, em alguns casos, com apenas um apartamento ocupado, segundo afirma o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis no Ceará (ABIH-CE), Régis Medeiros. 

“Ainda temos hotéis fechados, vários. Os grandes estão ali abertos se aguentando, mas tem vários pequenos hotéis ainda estão com suas portas fechadas porque ainda não justificou abrir. Estamos com uma ocupação realmente muito baixa e a situação financeira muito complicada. Ano passado a gente pelo menos ainda tinha caixa, antes da Covid-19, e agora foi um ano inteiro (sem recursos)", aponta.

"Além do fechamento e ocupações muito baixas, este ano também não se recuperou e entramos em lockdown de novo, jogando novamente o faturamento para baixo. Particularmente, tenho um hotel fechado e o que ficou aberto chegou a ter só um apartamento ocupado”
Régis Medeiros
Presidente da ABIH-CE
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Eventos virtuais

Apesar das dificuldades, as medidas de apoio estabelecidas pelo governo estadual para o setor de eventos, como o lançamento de edital com R$ 4 milhões destinados a eventos virtuais, trouxe alguma esperança de recuperação, diz a presidente do Sindieventos-CE. 

“As medidas anunciadas pelo governo estadual trouxeram algum alento, como o edital para eventos corporativos virtuais. Se outros editais similares forem lançados, o setor tenderá a se recuperar mais rápido. E o auxílio aos profissionais que sairá no final deste mês, aliás a decisão do governador em acatar a solicitação de todos os cadastrados foi muito assertiva e festejada pelos profissionais beneficiados dos eventos e da cultura”, pondera. 

Circe Jane também afirma que o setor continua em diálogo para estabelecer melhorias quanto à isenção de impostos, também parte do pacote de apoio do governo, e com objetivo de estabelecer novo plano com ações de curto, médio e longo prazo. 

“Trataremos também de um plano de recuperação para o setor de eventos com ações de curto, médio e longo prazo. As de curto prazo estão sendo tratadas agora; as de médio e longo prazos devem ser planejadas quanto antes, objetivando a retomada sustentável do setor”, ressalta. 

Foto: Natinho Rodrigues

Dívidas  

Para a hotelaria, os maiores desafios do momento são arcar com folha de pagamento de funcionários e com o IPTU, enfatiza Régis Medeiros. 

“A equipe está o mínimo do mínimo, mas com uma dificuldade enorme de pagar a folha de pagamento. Não temos ainda aquela medida provisória como a MP 936 do ano passado, onde a gente tinha aquela redução, suspensão temporária do contrato de trabalho. As linhas de crédito também muito difíceis. Como as empresas estão endividadas, a receita e o faturamento muito baixos, não tem mais o crédito para pegar dinheiro novamente”, salienta.  

Além disso, o presidente da ABIH-CE afirma que a flexibilização para o funcionamento da área de alimentação dos hotéis não é suficiente para segurar as contas.

“A gente já pediu inúmeras vezes, por todos os caminhos, um apoio da Prefeitura no que tange ao IPTU, mas não tivemos nenhuma resposta. O IPTU é um imposto muito caro pro hotel e independe de faturamento. E ao nível de Governo do Estado, para hotelaria é muito pouco (liberar) só a área de alimentos e bebidas, então é quase zero de apoio", diz.

Ele relata ainda a dificuldade dos empreendimentos em pagar contas de luz e água. "Tudo isso chega e muitos hotéis não têm mais caixa. Estão deixando de pagar impostos, deixando de pagar água, estão vendo o que fazem com seus funcionários. Realmente, uma situação bem, bem, bem complicada”, enfatiza. 

Legenda: Mercado Central de Fortaleza
Foto: José Leomar

Vendas pela internet 

No Mercado Central de Fortaleza, um dos principais equipamentos turísticos da cidade, 50% dos permissionários mantém os boxes abertos. Porém, o movimento é considerado “muito fraco”, segundo o presidente da Cooperativa de Permissionários e Locatários do Mercado Central (CoopCentral), Jose Aquino Paulino. 

“Retomamos as atividades, mas com muitas restrições para dar segurança aos nossos visitantes. Até os permissionários não estão todos vindo, em média, 50%. Por enquanto, estamos do mesmo jeito da pandemia passada, levou mais de dois meses para voltar ao normal. Esperamos que nessa seja diferente e volte o quanto antes”, anseia. 

Para alimentar as vendas, comerciantes do local têm recorrido às facilidades da internet. “Alguns lojistas adotaram as vendas pela internet ou pelo WhatsApp. Outros botaram lojas virtuais no intuito de sobrevivência. Estamos com muitas dificuldades e com esperança de dias melhores”, frisa Paulino. 

Turismo regional 

No caso das agências de viagem, o faturamento tem se apoiado na busca por destinos no Estado, já que as fronteiras do País permanecem fechadas para o turismo. 

“A retomada está sendo gradual. Os viajantes estão procurando as viagens para pertinho, procurando destinos seguros, viajar com quantidade de pessoas limitadas, no máximo cinco pessoas, somente família. A dificuldade que a gente tem enfrentado é o fechamento das fronteiras, tentar segurar esse mercado internacional. Antigamente, a gente vendia muito pacote para fora, a empresa era 80% emissiva, hoje em dia inverteu, quase 100% da nossa audiência está sendo toda receptiva, vendendo produtos aqui dentro do Ceará”, declara o gestor de lazer da Wee Travel, Renan Silva. 

O malabarismo é vender planos de viagem aos turistas sem garantia de que as coisas estejam na normalidade nas datas escolhidas. A estratégia adotada pela agência é oferecer o “compre agora e viaje depois”. Funciona como uma poupança de viagem, estabelecida conforme o orçamento definido pelo cliente. A escolha da data fica a cargo da disponibilidade da agência e do destino. 

“A gente acredita que com a vacina, que está acelerando um pouco agora, as coisas se normalizem, comecem a flexibilizar a partir do segundo semestre”, vislumbra Silva. 

A procura por viagens para o segundo semestre também é o principal motor da CVC atualmente. O Ceará está entre os cinco destinos mais escolhidos na empresa. 

“A retomada do mercado de turismo deve ocorrer de forma gradativa, principalmente impulsionada pelas viagens de lazer em destinos domésticos. A procura por orçamentos está mais concentrada para embarques futuros, rumo a destinos nacionais. As pessoas têm procurado oportunidades para o 2º semestre de 2021, principalmente para fim de ano, e até para férias de verão de 2022. Nessas buscas, o estado do Ceará se destaca no top 5 destinos nacionais, principalmente para a região de Fortaleza”, afirma a agência. 

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