Casa dos Ventos estuda investir em usina hidrelétrica reversível na Serra da Ibiapaba
Caso projeto saia do papel, será o primeiro empreendimento do tipo no Brasil
A empresa cearense Casa dos Ventos, gigante do setor de energias renováveis e idealizadora do projeto de data center bilionário em Caucaia, também avalia investir em uma usina hidrelétrica reversível no Estado, na região da Serra da Ibiapaba.
A informação foi revelada nesta quinta-feira (25) por Itamar Lessa, diretor de comercialização da Casa dos Ventos, durante participação no Proenergia Summit 2025, no Centro de Eventos do Ceará. Em entrevista ao Diário do Nordeste, ele deu detalhes da situação do projeto.
A gente está trabalhando soluções inteligentes que equacionem. Aqui no Ceará, três semanas atrás, a gente observou uma super oportunidade na região da Serra da Ibiapaba de ter uma das primeiras usinas reversíveis do Brasil.
Lessa explica que o modelo da usina funciona como uma caixa d’água. A caixa é enchida ao meio-dia, quando há excesso de geração de energia renovável, e essa água é usada para gerar energia no horário de maior consumo, que também é um dos problemas do sistema.
Segundo o diretor da empresa, ainda é uma oportunidade em fase de estudo, principalmente por causa do relevo da região, que facilita a instalação de hidrelétricas, e pela grande quantidade de água disponível. Para que uma usina reversível funcione, a água será retirada de um aquífero que existe na região.
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"Ela nada mais é do que uma bateria gigante. Usa o recurso natural, que é esse desnível da Serra da Ibiapaba, que são quase 800 metros de altura. Quanto maior essa diferença de altura, melhor é para a eficiência desse sistema", explica.
"Pode ser a nova grande oportunidade para o setor desenvolver projetos que vão enfrentar menos desafios ambientais. Em vez de os desenvolvedores buscarem projetos de geração de energia solar, eu diria que identificar locais para a instalação dessas usinas será uma oportunidade no futuro", completa Lessa.
O que são usinas hidrelétricas reversíveis?
Para gerar energia, as hidrelétricas utilizam desníveis, as chamadas quedas d'água, para gerar eletricidade por meio da transformação da energia potencial em cinética (movimento). Em um complexo sistema de dutos, elas movimentam turbinas que geram a luz que chega em casas e estabelecimentos.
Elas são o principal meio de geração de eletricidade do Brasil, responsável por cerca de 50% da matriz elétrica do País, segundo dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
No caso das hidrelétricas reversíveis, o conceito adotado é relativamente parecido. A diferença fica no uso do reservatório, que é adaptado conforme as necessidades de cada uma das usinas.
"As usinas hidrelétricas reversíveis consistem em empreendimentos capazes de gerar energia elétrica e armazenar energia hidráulica em reservatórios, por meio de turbinas especiais que operam como geradores ou como bombas hidráulicas, dependendo das necessidades operacionais do sistema elétrico", detalha o Ministério da Casa Civil.
Ainda segundo a pasta do Governo Federal, "não existem usinas hidrelétricas reversíveis instaladas no Brasil, mas o potencial do país é promissor para futuros empreendimentos" pelo crescente investimento em energias renováveis. Caso o empreendimento do Ceará se concretize, será o primeiro do gênero no País.
Itamar Lessa observa que não existe um município específico, haja vista que os espaços que podem ser escolhidos para a instalação da usina no Ceará são em diferentes lugares. "É mais estratégico a questão da localidade em si, mas identificamos diversas", pondera o diretor da Casa dos Ventos.
Casa dos Ventos também vai apresentar projeto de armazenamento de energia por baterias
Os investimentos da empresa cearense estão focados, nas palavras de Itamar Lessa, no "equilíbrio da oferta e da demanda". Em fevereiro do ano passado, a Casa dos Ventos estabeleceu uma trinca de desenvolvimento de negócios de demanda, alicerçados em:
- Uma "linha virtual de transmissão" Brasil-Europa, com o hub de hidrogênio verde no Complexo Industrial e Portuário do Pecém (Cipp);
- Na eletrificação de componentes fósseis;
- No desenvolvimento de projetos de data center de hiperescala.
"O foco é que o Brasil continue com competitividade e matriz limpa e renovável. Por isso, fizemos a adicionalidade. A gente tem um portfólio hoje equivalente a três usinas de Itaipu, como projetos para abastecer essa geração de demanda. A gente desenvolve o projeto de demanda, constrói uma usina renovável para abastecer à demanda", lista.
Um deles é o armazenamento de energia por baterias, chamado pela sigla em inglês BESS. São equipamentos que funcionam como carregadores portáteis: são carregados com energia produzida por usinas e que não é consumida (excesso de geração), sendo aproveitada posteriormente conforme a demanda.
De acordo com Itamar Lessa, a Casa dos Ventos já tem um projeto de armazenamento de energia por baterias pronto para ser cadastrado no Brasil. A empresa aguarda apenas a realização do leilão de reserva de capacidade para esses equipamentos, que, segundo previsões atualizadas do Ministério de Minas e Energia (MME), pode ocorrer em 2026.
"Economicamente, a bateria hoje já é mais eficiente do que as termelétricas a combustíveis fósseis. Consegue-se monetizar a energia hoje que está sendo desperdiçada ao meio-dia e descarregar essa energia no momento que o sistema está precisando", argumenta o diretor da Casa dos Ventos.
Para ele, é necessário "armazenar vento e sol" no Ceará, referindo-se à energia gerada pelos parques eólicos e solares no Estado, que são os principais responsáveis pela transição para fontes renováveis.
"Com uma regulação correta e dispositivos apropriados, isso é possível. Em outros países do mundo, já vem sendo feito e é economicamente viável. É muito mais competitivo do que incentivar a instalação de novos parques termelétricos. O que é necessário, nesse sentido, é dar indicações, estabelecer regras e criar condições de entorno para que os empreendedores instalem esse sistema de armazenamento para vento, sol e água", vislumbra.