Atacarejo vê potencial de crescimento, mas concorrência pode tirar custo-benefício

A inflação tem incentivado a busca pelo modelo de negócio, que consegue oferecer preços mais baixos ao consumidor

Escrito por Heloisa Vasconcelos, Heloisa Vasconcelos

Negócios
Legenda: Apesar do potencial de crescimento, atacarejos não devem substituir negócios menores
Foto: Fabiane de Paula

Em expansão no Ceará e no Brasil, os atacarejos são vistos como o segmento do setor atacadista com maior potencial de crescimento em 2022. O cenário de pressão inflacionária motiva a busca dos consumidores ao modelo de negócios, que consegue oferecer preços mais baixos

Ao mesmo tempo, cresce a competitividade dentro do segmento, com a abertura de novas lojas e entrada de empresas. A busca por um diferencial na busca pelo consumidor, contudo, pode levar a uma perda do custo-benefício.  

Para o gerente de atendimento ao varejo da NielsenIQ, Daniel Asp Souza, uma consequência desse movimento pode ser um aumento de custos para a prestação de serviços, o que pode impactar o preço final ao consumidor. 

Ele falou em coletiva de imprensa na 41ª Convenção Anual do Canal Indireto, evento realizado pela Associação Brasileira de Atacadistas e Distribuidores (Abad), em Atibaia, São Paulo. 

Inflação e a busca por atacarejos 

O presidente da Abad, Leonardo Miguel, avalia que o momento atual de preços mais altos levou as famílias a reconhecerem como estratégico o abastecimento próprio. 

Esse crescimento do atacarejo veio em decorrência das famílias entenderem como estratégico o abastecimento próprio e esse abastecimento vem crescendo ao ponto de o atacarejo estar ocupando uma determinada área condizente com a necessidade das famílias
Leonardo Miguel
presidente da Abad

Daniel Asp acrescenta que a intensificação desse modelo de negócios no Brasil foi começou por volta de 2015, quando a inflação fechou o ano em 10,67%, bastante acima da meta oficial do governo. 

“O que veio primeiro foi a inflação mais alta, e isso fez com que o consumidor tivesse que buscar alternativas. Depois veio um mercado para isso e obvio que houve um movimento muito forte do mercado de abertura de lojas nesse segmento, porque se eu consigo ter um custo de operação mais baixo consigo passar para o cliente o preço. Se criou o que era o hipermercado na época de inflação de 1980”, destaca.

O modelo de negócio, inclusive, vem substituindo os hipermercados. De acordo com o Ranking Abad NiensenIQ, divulgado durante a convenção, houve uma troca de quase 70% dos hipermercados para os atacarejos entre os meses de fevereiro e março de 2022.  

A pesquisa ainda aponta que os hipermercados não recuperaram os patamares de penetração frente a 2019, com o consumidor priorizando ainda gastos em outros canais 

Segundo Daniel, enquanto houver um cenário de pressão inflacionária e o empresário perceber a necessidade de oferecer opções mais em conta para a população, o atacarejo tem tendência de crescimento. 

Competitividade e custo-benefício 

A maior demanda por atacarejos tem incentivado a criação de novas lojas, acirrando a concorrência no segmento. O gerente de atendimento da NielsenIQ alerta que as empresas devem ter cuidado no momento de buscar formas de se diferenciarem, sob o risco de perderem em custo benefício. 

Em um mercado que os custos menores são o maior atrativo, a implementação de serviços pode encarecer o preço final para o consumidor. 

“O que a gente precisa analisar é como as empresas vão continuar atuando na composição dos custos, porque é isso que vai fazer com que elas possam ter um menor preço lá na ponta”, coloca. 

Ele relaciona que essa é justamente a armadilha que os hipermercados caíram e que levou eles a perderem espaço no mercado. 

Se o hipermercado foi o atacado do passado, o hipermercado deixou de ser competitivo desde que começou a trabalhar outros atributos
Daniel Asp Souza
gerente de atendimento ao varejo da NielsenIQ

Presente na convenção, o diretor de atacado e logística do Atacadão, Melk Magno Lugarezi, afirma que o negócio está atento à competitividade no mercado e oferecer serviços pode ser um próximo passo. 

“O consumidor tem desejos ilimitados e dentro desse contexto, da simplicidade e do volume, nós vamos adaptando o nosso negócio. Por exemplo, o Atacadão até pouco tempo atrás não aceitava voucher e todas as bandeiras de cartão de crédito, já foi uma evolução. Oferecer serviços é um próximo passo. Mas você não pode tomar uma decisão que venha a atrapalhar seus custos. Sempre está a mesa situações, desejos do cliente para poder atender”, pondera. 

Pequenos mercados 

O presidente da Abad, Leonardo Miguel, ressalta que, apesar do crescimento do atacarejo, ele não deve substituir outras formas de varejo, mesmo com a alta inflacionária.  

Apesar do custo mais baixo, esse modelo de negócio não é característico pela maior comodidade de compras, envolvendo filas e um maior deslocamento até as lojas, que não costumam estar localizadas em pontos centrais. 

“Um não exclui o outro, o abastecimento é necessário para as famílias e a conveniência também é necessária, o que há muitas vezes é o comparativo que as famílias fazem do momento do seu consumo. Ela não põe na conta apenas o carrinho em si, mas também o deslocamento, isso também é importante e também faz parte de toda a composição das despesas”, reforça. 

Conforme o Ranking Abad NiensenIQ, o consumidor tem colocado conveniência como primeiro atributo na hora de escolher onde consumir, o que traz uma perspectiva positiva para lojas pequenas.  

O aumento nos custos de locomoção com a alta dos combustíveis e a modernização dos pequenos negócios, possibilitando compras online, também são atrativos para esse modelo de negócio.  

*A repórter viajou a convite da Abad.

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