Guardião da história de Fortaleza, cemitério São João Batista completa 160 anos
Campo-santo mais antigo da Cidade, o local guarda restos mortais de nomes como Dragão do Mar, Frei Tito e General Sampaio.
O Cemitério São João Batista, destino final de personalidades que moldaram a essência cearense, como o abolicionismo de Dragão do Mar, a irreverência satírica de Quintino Cunha e a resistência de Frei Tito, completa 160 anos neste mês. Mais do que o campo-santo mais antigo em atividade em Fortaleza, o espaço, localizado no Centro, é um guardião da memória da Cidade.
Embora a Irmandade Beneficente da Santa Casa da Misericórdia da Capital, administradora do equipamento, celebre o aniversário com base na fundação, em 5 de abril de 1866, há quem afirme que ele seja de 1862. O historiador P.A. Damasceno, colunista do Diário do Nordeste, explica que a cronologia se confunde com a ocupação da área, que já recebia sepultamentos quatro anos antes da inauguração formal.
Criado para abrigar os restos mortais de diferentes classes sociais e crenças nos extramuros da Cidade, após a inundação do Cemitério São Casimiro, o primeiro campo-santo de Fortaleza, o São João Batista surgiu da necessidade de modernização e de preservação da saúde, quando a maioria dos mortos era enterrada sob igrejas.
Hoje, mais de um século e meio depois, segue ativo, narrando a história em suas lápides e recebendo novos nomes diariamente.
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Cemitério reflete três séculos de história de Fortaleza
A longevidade do cemitério o transformou em um verdadeiro museu a céu aberto. No local, é possível observar como se organizava a sociedade fortalezense há 160 anos. Por exemplo: a posição e a aparência dos túmulos reflete a antiga exclusão dos não-cristãos, com judeus e pagãos não batizados sepultados além dos antigos muros do cemitério, que atualmente estão dentro das paredes.
“É um cemitério que tem um setor associado à elite, um intermediário e um mais pobre, inclusive, com muita gente enterrada em covas coletivas que não se sabe nem a origem familiar. Então, era um retrato da Cidade. É diferente de hoje, em que você tem cemitérios mais populares, mais elitizados. Ali era um cemitério que atendia à Cidade”, analisa o historiador.
Ele reproduz uma geografia social da morte, mas que espelha a geografia social da vida. Por isso que ele é tão importante para entender a Fortaleza desse período.”
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Local reúne desde heróis do passado a santa popular
Em visita ao local, a reportagem do Diário do Nordeste testemunhou como a morte preserva essa estratificação ao longo dos três séculos de Fortaleza. Entre o silêncio e o mármore, mausoléus imponentes, como os dos Barões de Aratanha e de Camocim, do Senador Pompeu e do General Sampaio, contrastam com a simplicidade das quadras populares e com os jazigos mais modernos.
Outra figura sepultada no espaço é Francisco José do Nascimento, mais conhecido como Dragão do Mar, que teve o túmulo descoberto em 2020, cerca de 106 anos após a morte. Frei Tito, frade católico símbolo de resistência à Ditadura Militar, também descansa no solo do São João Batista, assim como o político desenvolvimentista Virgílio Távora, ex-governador do Ceará, e o discente João Nogueira Jucá, homenageado pelo Dia do Estudante.
Além de personalidades históricas, o cemitério guarda nomes que alimentam a fé popular, como o da Menina Lúcia. Embora não reconhecida pelo Vaticano, a criança foi “beatificada” pelo povo: em seu túmulo, o historiador P.A. Damasceno destaca a presença constante de brinquedos, doces, terços e mensagens, depositados por fiéis que buscam ou agradecem por graças alcançadas, especialmente em datas como o Dia das Crianças.
Lendas e mistérios inspiram visitas guiadas ao campo-santo
A mistura de devoção e história converteu os jazigos em paradas "obrigatórias" de roteiros guiados, como o projeto “Fortaleza Necrópole”, organizado pelo historiador. A iniciativa privada é uma das várias que tentam explorar o potencial do campo-santo, embora o equipamento ainda careça de uma estrutura de sinalização comparável às de cemitérios de São Paulo, Rio de Janeiro ou Belo Horizonte, cidades onde o turismo cemiterial já é uma prática consolidada.
Mas nem só a fé e os fatos do passado inspiram o imaginário do espaço, pontua o professor. Lendas e mistérios também fazem parte da história do cemitério, como a da mulher que se transformaria em serpente, e costumam atrair curiosos para visitas noturnas. As narrativas, no entanto, esbarram no ceticismo de quem frequenta o local diariamente há anos.
“Trabalho aqui há 18 anos e nunca vi nada. Já acompanhei tour à noite e é sempre muito tranquilo. O pessoal conta muitas histórias, diz que ouve vozes, vê criança, mas nunca vi nada”, frisa o administrador geral do São João Batista, Thiago Frota.
Visando fortalecer o potencial turístico do local e preservar a história, o profissional ressalta que a Irmandade Beneficente da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza pretende realizar diversas obras de melhorias e de manutenção do Cemitério São João Batista ao longo deste ano.
O desafio de preservar a memória em solo privado
Embora seja considerado uma espécie de "museu a céu aberto", o Cemitério São João Batista enfrenta desafios de degradação e de abandono. Para o historiador, o estado de conservação de algumas alamedas é o reflexo direto de como a Capital trata o patrimônio: uma memória que, muitas vezes, esbarra no descaso e no esquecimento.
“Você tem jazigos importantíssimos do ponto de vista artístico, arquitetônico, urbanístico, e que estão em descaso, abandono, se desfazendo, pois interessa ao poder público, à memória da Cidade, mas é um espaço privado”, ressalta P.A. Damasceno.
Esse cenário de fragilidade encontra eco nos números da administração. Em uma extensão de nove hectares que abriga milhares de túmulos, a manutenção é dever dos donos de cada jazigo. Segundo Thiago Frota, cerca de 4 mil famílias estão inadimplentes, um vácuo agravado pelo anonimato, já que metade dessas sepulturas ainda não teve o proprietário identificado.
Fortaleza é uma cidade que tem dificuldade de lembrar, que prefere demolir e construir o novo, e tradicionalmente tem dificuldade de lidar com seu patrimônio material. O Cemitério São João Batista é um lembrete diário de como somos finitos e também de como podemos ser permanentes na coletividade, na memória, na materialidade.”
“Se eu sou o dono do jazigo com uma importância histórica, mas, mesmo assim, se eu quiser demolir e construir um novo, tenho esse direito”, comenta o professor, ilustrando o desafio de preservação do local.
Cemitério tem tombamento provisório
Apesar de algumas pessoas alterarem estruturas do cemitério, ele possui tombamento provisório no âmbito municipal, por ser reconhecido como um dos mais importantes patrimônios históricos e guardião de significativa parte da memória e identidade de Fortaleza, conforme a Secretaria Municipal da Cultura de Fortaleza (Secultfor).
A medida visa assegurar que, independentemente da vontade dos proprietários ou do desgaste do tempo, a essência do local seja mantida. Na prática, isso significa que qualquer intervenção no cemitério deve ser previamente comunicada e autorizada pela Pasta, por meio da Coordenadoria de Patrimônio Histórico-Cultural (CPHC).
O próximo passo é o tombamento definitivo, que atualmente tramita para conclusão administrativa após ter a instrução analisada e aprovada pelo Conselho Municipal de Proteção ao Patrimônio Histórico-Cultural (Comphic).