Estudantes denunciam problemas em prédios da UFC em Fortaleza
Universidade é uma das melhores do País, mas enfrenta desafios de infraestrutura.
Classificada como uma das principais instituições de ensino do Brasil e da América Latina, a Universidade Federal do Ceará (UFC) enfrenta um paradoxo: conta com alguns dos pesquisadores mais renomados do mundo, enquanto enfrenta desafios de infraestrutura, como insegurança, falta de transporte e deterioração.
Ao Diário do Nordeste, estudantes dos cursos de Educação Física e Publicidade e Propaganda relataram problemas que acompanham turmas há alguns anos.
Um dos locais que apresentaria problemas é o Instituto de Educação Física e Esportes (Iefes), no campus do Pici, em Fortaleza. O bloco abriga as graduações de Educação Física (licenciatura e bacharelado), que são nota máxima no conceito do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) — indicador que avalia a qualidade de cursos.
Embora oferte ensino de excelência, a infraestrutura do Iefes não acompanharia o mesmo nível do desempenho acadêmico. Segundo denúncias de alunos, o local enfrenta degradação ou interdição de instalações essenciais para a formação dos discentes, como piscinas, ginásios poliesportivos, campo de futebol e bebedouros.
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Recentemente, o relato de uma universitária do instituto viralizou nas redes sociais. No vídeo, ela afirma que os graduandos têm aulas práticas de futebol e de futsal em uma área inadequada, com buracos e grama alta, além de conviverem com a irregularidade de transporte.
A situação é corroborada pela presidência do Centro Acadêmico (CA) Ayrton Senna — representante das graduações de Educação Física da UFC —, que acrescenta que algumas instalações do Iefes, fundamentais para formação acadêmica, estão em reforma ou em construção. Apesar do investimento, eles indicam que uma lentidão das intervenções atrapalharia aulas.
Um exemplo dessa situação seria o ginásio poliesportivo do bloco, desativado desde 2018. Um novo espaço foi prometido, mas a construção está atrasada mais de 10 anos. Enquanto aguardam a entrega, os alunos se deslocam para outro campus para ter aulas quando necessitam do equipamento.
Outros recursos essenciais para a formação prática dos alunos e que também estão interditados ou em manutenção são as piscinas. “A gente tinha duas piscinas: uma olímpica e uma semiolímpica. A olímpica teve um problema de vazamento e ficou inutilizada durante bastante tempo; aí a gente usava a outra, [...] mas ela parou de funcionar depois de 2024, quando começou a passar por reforma”, relata o CA.
Em nota, a UFC informa que atualmente o Iefes tem duas obras em andamento: a construção de duas piscinas, vestiário e uma sala para treinamentos; e a retomada das obras do ginásio poliesportivo. Representando um investimento de R$ 12 milhões, a previsão de entrega é para 2026: as piscinas em maio e o ginásio no início de agosto. A instituição ainda destacou que, recentemente, o instituto entregou aos estudantes duas quadras para práticas de esportes de areia.
Mesmo com as intervenções, o CA tem receio de haver adiamento do cronograma ou não conclusão. “Num cenário histórico da Educação Física, este talvez seja o melhor momento que recebemos obras, mas o temor de que ela não sejam finalizadas, como sempre, é grande”.
Alojamento para as Olimpíadas de 2016 nunca concluído
Um exemplo que alimentaria a desconfiança da entidade estudantil é um alojamento para atletas que deveria ter sido entregue durante as Olimpíadas de 2016, realizadas no Rio de Janeiro. No entanto, uma década depois, a estrutura segue sem conclusão.
“A estrutura foi construída e está abandonada. O alojamento já tinha chegado na etapa de detalhes, tipo cerâmica, privada, janela, detalhes de banheiro, porta-toalha... Com o tempo, esse material não só se estragou como foi levado, pois conseguiram invadir.”
Ao Diário do Nordeste, a universidade afirma que, a partir da autorização de licitação, um edital para reforma do local, no valor de R$ 11 milhões, deve ser publicado em abril.
Isolamento geográfico: um desafio de 2,5 km
A presidência do CA Ayrton Senna afirma que a deterioração da infraestrutura do bloco aconteceu nas últimas décadas, após o fim da obrigatoriedade da prática de educação física para estudantes do ensino superior. Até meados do início dos anos 2000, a legislação brasileira exigia que universitários cursassem disciplinas esportivas, semelhante ao que acontece na educação básica.
“Historicamente, o Iefes foi criado para garantir o acesso de todos os alunos. Se você perguntar a quem se formou há 20 anos, vai ouvir que era obrigatório para todos os cursos fazer uma disciplina de educação física. Naquela época, esse lugar era muito movimentado, bem cuidado e amplamente utilizado. No entanto, atualmente, esse esvaziamento parece ser intencional: quanto mais distante está o aluno da UFC do Iefes, menos atenção o instituto recebe.”
O distanciamento apontado pela entidade é, inclusive, físico. O Iefes está localizado perto dos limites do Campus do Pici, a cerca de 2,5 quilômetros de uma das principais entradas do centro de ensino, situada na avenida Humberto Monte. A pé, o percurso mais curto para chegar ao Iefes leva mais de 30 minutos.
Para chegar até ao bloco, os graduandos de Educação Física possuem somente o micro-ônibus fornecido pela UFC, já que o bloco não está no trajeto da linha “020 - Campus do Pici”, rota do Sindiônibus que faz o trajeto interno no campus. Essa dependência, contudo, esbarra na precariedade do serviço: estudantes relatam que o coletivo quebra com frequência, deixando-os sem qualquer alternativa de deslocamento.
Em resposta às observações, a UFC esclarece que problemas como funcionamento do ar-condicionado ou a substituição temporária de veículos foram ocorrências pontuais. “Em algumas dessas situações, houve interrupções no serviço por algumas horas ao longo do dia, sem que fosse verificada a suspensão total das atividades”, afirma.
Sempre que é identificada qualquer irregularidade, a empresa responsável é imediatamente acionada para realizar a reposição do veículo com a maior brevidade possível ou a devida correção do problema, buscando reduzir ao máximo os impactos para os usuários."
Transporte lotado e demorado afetaria todo o campus
O cenário de precariedade, contudo, não é um caso isolado do Iefes. Outros blocos do mesmo campus, como o Instituto de Cultura e Arte (ICA), enfrentam dilemas semelhantes: apesar de inclusos no itinerário da linha 020, os alunos sofrem com superlotação e demora.
“Nos horários de pico, ele é sempre muito lotado. Geralmente, há transporte de 20 em 20 minutos, mas em horários de pico, às vezes esse tempo aumenta para 30, 40 minutos”, conta o universitário Victor Viana, membro do CA Gilmar de Carvalho, que representa o curso de Publicidade e Propaganda.
Em nota, a UFC explica que, atualmente, há somente um veículo executando o trajeto, de responsabilidade do Sindiônibus. A redução aconteceu em setembro do ano passado, quando houve suspensão da linha. Para reverter o cenário, o Gabinete da Reitoria da instituição encaminhou à Etufor, na última segunda-feira (16), um ofício reforçando a necessidade de restabelecer o pleno funcionamento da linha.
“Adicionalmente, estão sendo avaliadas medidas para reforçar a regularidade da frota e estabelecer padrões mais rigorosos de qualidade, assegurando maior conforto e confiabilidade ao transporte”, completa.
Falta de bebedouros e buracos no teto
Os alunos do Iefes ainda apontam problemas relacionados a um item básico: a redução do número de bebedouros, que garante o acesso à água potável. “Antes tinham três. Só que um deles parou de funcionar há mais ou menos um ano, enquanto o outro não tem filtro e nem gela”, aponta o CA Ayrton Senna.
A demanda não é exclusiva dos discentes da Educação Física. A ausência dos equipamentos de hidratação se repete no ICA, conforme Victor. “Nos últimos cinco meses, os bebedouros foram todos retirados para uma manutenção e estão retornando lentamente”, relata.
Outro problema denunciado pelo estudante é a deterioração da estrutura, com a presença de buracos no teto em banheiros e corredores, chegando a expor a fiação e o encanamento. O jovem completa que o prédio enfrenta problemas com ar-condicionado, mobiliário quebrado, presença de mofo e computadores defasados ou insuficientes.
Em resposta ao Diário do Nordeste, a UFC destaca que a manutenção dos equipamentos é realizada de acordo com os recursos disponíveis para custeio, e as manutenções corretivas são feitas de forma constante. “Sempre que é identificada alguma questão, o setor demandante abre um chamado e o caso é colocado no cronograma de atendimento”, frisa.
*Estagiária sob supervisão das jornalistas Mariana Lazari e Dahiana Araújo.