Poeta Manoel de Barros é referência para ‘Modo de falar às coisas’, livro sobre a força das miudezas

De autoria do sergipano Francisco Pippio, obra adentra o universo da natureza como forma de multiplicar sentimentos nas palavras

Legenda: Tendo sido acometido pela Covid-19, ficando internado por 23 dias, Francisco Pipio tem como alimento a poesia
Foto: Divulgação

Francisco Pippio alicerça a própria escrita em camadas de busca. Como quem sai em rastreio por tantos caminhos e se percebe célula do universo. A palavra, nesse sentido, cumpre função primordial em dizer ou desdizer as coisas, os atravessamentos. Nessa teia de cenários, recobra os sentidos e instaura o inédito, em poderosas conexões consigo e com o entorno. 

“era a chuva que fazia desfaltar as ausências/ dos dias desalegres, de estio, de nossa/ meninice”, escreve o poeta sergipano em “Ode à chuva”. Os versos, espécimes dessa vocação à observância, são alguns dos vários impressos em “Modo de falar às coisas”.

Publicado pela Confraria do Vento, o livro tem como referência conceitual e fonte de inspiração o poeta matogrossense Manoel de Barros (1916-2014), detentor, feito Pippio, de uma particular afeição às miudezas do cotidiano.

Legenda: O poeta acredita que o novo livro de sua autoria pode alimentar e realimentar o esperançar do cotidiano de pandemia
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Em entrevista ao Verso, Francisco explica que Ferreira Gullar (1930-2016) e Manuel Bandeira (1886-1968), dois outros nomes incontornáveis de nossa poesia, nunca chegaram a ser seu parâmetro, apesar de terem-no introduzido à lírica textual. Barros, pelo contrário, tornou-se esse distinto farol.

“Mirei o horizonte azul desaberto à minha frente, equipei-me de palavras, coisas desúteis e úteis, e permiti que a hipérbole mandasse e desmandasse no projeto”, contextualiza o poeta sobre este seu mais recente trabalho. “Pensei desde o início num livro breve, para ser provado numa sentada rápida antes de ser relido”.
Francisco Pippio
Poeta

Acertou. Contudo, esse vagar pelas páginas da publicação, longe do aspecto veloz da rotina, merece ser acompanhado de modo dedicado. São sinfonias que irrompem de um desdito para, nele, encontrar um caçar passarinhos, uma jabuticaba roxa, uma lonjura que adia o eu.

Voz poética

Apesar da boa recepção de seu livro anterior – “As Cidades” (7Letras, 2006) – Francisco Pippio conta que ficou “se remoendo” por reparar que o volume, assim como os poemas avulsos compostos desde a adolescência, ainda não definia sua voz poética. 

“Modo de falar às coisas” nasce, portanto, dessa inquietude e investigação pelo próprio singrar profissional. “Montei o projeto desse livro como quem entra numa carpintaria, ‘pelejando para botar sentimentos nas palavras’. O título da obra, inclusive, é homônimo ao poema que abre o exemplar, o primeiro que compus para ele”, diz.

Trata-se de um trabalho cujo foco é a crença na força da palavra, propriamente da hipérbole. A observação da atmosfera circundante, do universo rural que nunca saiu do poeta – nem mesmo quando esteve mais ligado ao universo urbano – tiniram a dinâmica da concepção dos versos. O próprio autor elenca “Carpintaria” como a criação que mais indica o propósito de navegar pela temática do natural.

Legenda: Iniciando a estrada pelos versos ainda na adolescência, o poeta teve produções publicadas em cadernos e suplementos literários, chegando a ser premiado pelo ofício
Foto: Marcio Garcez

“(...) o carpinteiro/ desbastava madeira bruta para entalhar/ portas. a linguagem das palavras não se/ põe em pé feito portas, ele dizia. as/ portas tinham incumbências de apartar/ as pessoas, o menino alegava. o carpinteiro/ revidava: não ergo portas desabertas”, proclama o poema. Tendo sido acometido pela Covid-19, ficando por 23 dias internado, Pippio encara a si como esse carpinteiro das paisagens, permitindo-se também ser moldado por elas.

“Na minha convalescença, meu alimento tem sido poesia. Retornei à poesia completa de Manoel de Barros. Observo que a de ‘Modo de falar às coisas’ – que concebi com horizonte ali, à minha frente, bem perto – pode alimentar e realimentar o esperançar dos acometidos por esse famigerado vírus, ou mesmo dos que não foram infectados”, torce.
Francisco Pippio
Poeta

Simetrias

É, de fato, uma feliz perspectiva, gestada a todo momento pela pena precisa do poeta. Em “Algodeiros”, por exemplo, pirilampos desmancham o piche da noite desinfinita e bem-te-vis vigiam o fazer do pastoreador; já “Cavalo de pau” traz um menino montado no animal insone, que se enviesa em um outeiro até postar-se de frente para a lua pendida no céu; “Amanhar”, por sua vez, é testemunho premente de quem se desescurece todo santo dia.

Quanto questionado sobre como a espinha dorsal do livro se conecta às outras obras gestadas por ele, Francisco Pippio afirma que percebe correspondências sobretudo com “Cutucando a onça com vara curta” (Cortez, 2016) – este a adaptação de um conto folclórico. 

Já em relação a ‘As Cidades’, penso que não há simetria. Veja, por exemplo, como se amostra alguns trechos desse livro: ‘Definitivamente/ a cidade tem coração/ apesar de ser apenas ação/ o que corre em suas veias de concreto…’; e ‘A cidade cabe na lua/ sem descontar São Jorge/ e o seu cavalo’, compara.

Iniciando a estrada pelo versejar ainda na adolescência, o poeta teve produções publicadas em vários cadernos e suplementos literários, chegando a ser premiado pelo ofício. Os primeiros poemas possuíam uma faceta politicamente engajada, algo que depois ganhou outras texturas.

Em março deste ano, Francisco finalizou o romance “Boi Serafim”. A obra, ambientada no sertão nordestino dos anos 1930, fala sobre o animal do título, que não aceita canga e cabresto e enfrenta os coronéis, ao mesmo tempo que se identifica com os vaqueiros e a população rural sujeita ao trabalho alugado. Nesse panorama, o cangaço igualmente aparece como temática ascendente na narrativa

“Na gaveta, descansa ainda, já há tempo, um livro de contos e dois livros infantis”, adianta o autor, ao mesmo tempo que brada sobre o mais recente volume: “Sabe-se que lê-se pouco poesia. Mas até onde esse livro pode chegar, a aceitação do leitor não podia ser melhor”.

Modo de falar às coisas
Francisco Pippio

Confraria do Vento
2019, 54 páginas
R$ 35

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