Médica e cordelista Paola Tôrres assume presidência da Academia Brasileira de Literatura de Cordel

Pernambucana radicada no Ceará, ela é a primeira mulher a ocupar o posto na instituição, fundada há 32 anos

Legenda: O nome da escritora foi referenciado por unanimidade pelos participantes da assembleia virtual, tornando-a a gestora da entidade
Foto: Arquivo pessoal

Foi em julho do ano passado quando a médica e cordelista Paola Tôrres tomou posse na Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC). Indisfarçável, a alegria pelo almejado passo era expediente comum no semblante da artista – também professora de Medicina da Universidade de Fortaleza e da Universidade Federal do Ceará.

Ela passou a ocupar a cadeira de número 38, cujo patrono é o poeta Manoel Monteiro (1937-2014) e era assumida pelo músico e cordelista Moraes Moreira (1947-2020). Agora, passados nove meses da conquista, outro importante êxito preenche o horizonte de trabalho da pernambucana radicada no Ceará.

Paola Tôrres é a nova presidente da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, tornando-se a primeira mulher a estar no cargo em 32 anos de fundação da agremiação. A Plenária Ordinária aconteceu no último sábado (24), de forma virtual, com a presença do até então presidente da casa, o poeta, contista, ensaísta e cordelista Gonçalo Ferreira. 

O nome da escritora foi referenciado por unanimidade pelos participantes da assembleia, tornando-a a gestora da entidade. “Foi, para mim, uma grande surpresa a indicação do meu nome para suceder o Mestre Gonçalo Ferreira, considerando o meu tempo de atividade como acadêmica”, confessa Paola. 

“Afinal, a Academia possui em seu quadro grandes nomes, ocupando suas fileiras há mais tempo do que eu. Após a validação em Plenária Ordinária do meu nome, aceitei o cargo me sentindo muito honrada e estou ciente da minha responsabilidade em representar a instituição”, completa.

A formalização completa da posse – tendo em vista a necessidade de uma ritualística presencial, conforme os ditames da ABLC – deve ser realizada no dia 19 de junho, na própria sede da casa, localizada no Rio de Janeiro. Ambos, Paola Tôrres e Gonçalo Ferreira, respeitando todos os cuidados necessários frente à pandemia, participarão de forma física da cerimônia. O momento será transmitido pela internet.

Perspectivas

A nova presidente da entidade explica que a casa passa por um período de transição de estatutos. Assim, ela ainda não sabe ao certo durante quanto tempo ocupará a presidência.  “Mas, com certeza, o primeiro passo é dar início à estatuinte, que definirá novos rumos na Academia”, situa.

Paola pretende continuar o trabalho iniciado pelo seu patrono, Manoel Monteiro, e abraçado por muitos outros cordelistas, de levar o cordel para as salas de aula. Um outro ponto importante é prospectar essa arte como Patrimônio Imaterial da Humanidade frente à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), um projeto que igualmente já foi iniciado. 

“Planejo também enfatizar a criação de cordeltecas nas universidades, como foi o caso da Cordelteca Maria das Neves Baptista Pimentel, da Biblioteca da Universidade de Fortaleza. Por meio do nosso precioso acervo e com o material humano de poetas e pesquisadores da Academia, um dos meus objetivos é implantar cursos de letramento em cordel, que poderão ser feitos on-line, sobre a mentoria de renomados cordelistas, para que possamos preservar o maior patrimônio dessa arte, que é o estilo literário”, enumera.

Além disso, entre as mais relevantes iniciativas que deseja tocar, está a valorização e o fomento da presença e do papel da mulher na Literatura de Cordel. Paola enxerga um panorama desafiador, considerando estarmos em uma sociedade que sempre relegou o papel da mulher a uma categoria de coadjuvante, e nunca de protagonismo. 

“Quando eu, matuta, saída do sertão de Pernambuco, estudante de escola pública, entro na universidade e chego ao cargo de Professora Titular, todas as meninas sertanejas na mesma condição veem a possibilidade de fazer o mesmo trajeto, ou qualquer outro que escolham”, rememora. A partir desses passos, a cordelista diz que as mulheres enxergam que é possível escalar muros e abrir trincheiras. 

Legenda: À frente da ABLC, Paola Tôrres quer valorizar e fomentar a presença e o papel da mulher na Literatura de Cordel
Foto: Éder Bicudo

Não à toa, após o anúncio de que seria a nova presidente da ABLC, recebeu felicitações de pessoas de todo o Brasil pelas redes sociais, o que a surpreendeu e alegrou bastante. “Penso que toda vez que uma mulher dá um passo, todas as mulheres caminham junto com ela, em qualquer lugar ou atividade em que esteja”, destaca.

Esse movimento de reconhecimento pela importante conquista rendeu um emocionante momento já na plenária virtual, no sábado (24). A neta de Maria das Neves Baptista Pimentel (1913-1994) reverenciou Paola pelo passo. Maria foi a primeira mulher a publicar um cordel, em 1938. Intitulado “O violino do diabo ou o valor da honestidade”, o texto foi escrito por ela, mas referenciado com o pseudônimo Altino Alagoano, proveniente do primeiro nome do marido.

“Sueli Pimentel, neta da Maria das Neves Baptista Pimentel, ficou muito emocionada na plenária porque eu toquei no nome da avó dela, e também por ver uma mulher na presidência da ABLC. É um pequeníssimo passo, quando a gente fala em todas as distorções que existem em relação a isso. Mas é com um pequeno passo que a gente começa”, considera a escritora.

“Erros históricos não se reparam, eles permanecem erros. Eu acho que a gente pode estar dando outros passos. Passos além. A minha eleição para a presidência da Academia Brasileira de Literatura de Cordel não corrige erro algum. Os erros permanecem, ficam como lições. É um ponto de partida para que as novas gerações olhem para isso de uma forma mais concreta. E elas só podem fazer isso se esse erro for apontado, historicamente revelado, como foi o que houve. Somente quando a gente olha para a história, para o nosso passado, podemos refletir no presente e fazer um futuro diferente”.

Desafios

Questionada sobre os principais desafios a serem superados no ramo de atuação – sobretudo ao ocupar a presidência da ABLC – Paola Tôrres afirma que estamos vivendo em um país sem Ministério da Cultura e cujas leis de incentivo não são suficientes para amparar a efetiva subsistência das manifestações culturais e dos artistas. 

Legenda: “Erros históricos não se reparam, eles permanecem erros. Eu acho que a gente pode estar dando outros passos. Passos além", afirma a cordelista
Foto: Camila Lima

Com a pandemia, a sobrevivência das pessoas ligadas à literatura de cordel também foi bastante afetada, principalmente aqueles que tiravam o sustento da venda de cordéis em feiras e eventos literários. “Tive um mestre que dizia que temos que aprender a nadar antes de sermos pegos pela correnteza, e acho que o grande ensinamento dessa pandemia foi mostrar que nós não estávamos preparados para este cenário, em nenhuma instância das nossas vidas”, analisa a cordelista.

“Temos uma Instituição que, embora tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patrimônio Imaterial do povo brasileiro, não possui nenhum tipo de ajuda governamental para sobreviver. Não possui auxílio sequer para manter o seu acervo catalogado e disponível para pesquisa a nível nacional e internacional. Somos como um mendigo que carrega em seu embornal uma jóia muito preciosa, sem reconhecer o quão valiosa ela é”, ilustra.

Segundo ela, a literatura de cordel é valorizada e reconhecida no mundo todo e, sem dúvidas, começa a ser valorizada e consumida pela própria sociedade brasileira. Porém, é preciso galgar muitos degraus nessa escala. “Esse é o nosso desafio, levar o cordel e os seus artistas para o Brasil, pelo Brasil e além do Brasil”.

Sentimentos

Ao visualizar a trajetória de Gonçalo Ferreira, Paola Tôrres sublinha a dedicação do profissional durante mais de três décadas à frente da ABLC. De acordo com ela, a obra do cordelista fala por si e essa é a verdadeira grandeza de uma poeta.

Legenda: Perseverança, habilidade, determinação e humildade são alguns dos sentimentos que devem reger a gestão de Paola Tôrres na ABLC
Foto: Éder Bicudo

Por isso mesmo, a nova presidente da entidade elenca os sentimentos mais urgentes na condução das atividades da Academia: perseverança, uma vez ser a cultura popular um movimento de resistência no Brasil; habilidade, para lidar com os reveses do tempo pandêmico, em que todo o mundo todo passa por escassez de recursos para toda e qualquer atividade. 

Determinação, uma vez compreendendo que a arte é essencial para a sobrevivência do ser humano. “Um outro sentimento que me vem é o de humildade. Pretendo dar o meu melhor e sou plenamente consciente que o meu melhor nunca será consenso, será apenas ‘o meu melhor’”, aponta.

“Quero, ao terminar minha gestão, olhar para essas palavras e ter a certeza de que vivi conforme o que professei, ou seja, farei o meu melhor pela Literatura de Cordel e por todos que a ela são atrelados, em qualquer instância. Na verdade, jamais pensei em presidir a Academia, mas me sinto honrada pela confiança em mim depositada pelos meus confrades e confreiras e espero, no futuro, ter orgulho desse momento”, conclui.

Recepção

Cordelista, escritora e publisher da Ganesha Produções, a cearense Julie Oliveira conta que recebeu com surpresa a notícia de que Paola Tôrres seria a nova presidente da ABLC – levando em conta a trajetória de um espaço que há 32 anos está sob a mesma direção, sem nenhuma alternância de poder.

Ela também reflete sobre a importância da presença de uma mulher no cargo mais alto da Academia. “Quando Paola, Marias, Joanas, Joaquinas, Micheles e Elizabeths, que mostram cotidianamente sua capacidade e competência no que fazem, são ao mesmo tempo tão alijadas desse reconhecimento, parece que há um favor e não um mérito real, como vemos. Na verdade, é o contrário: a Academia está ganhando uma poeta, professora, médica e escritora muito competente, o que esperamos que seja uma oportunidade de abertura de espaços para outras mulheres que queiram estar nesse lugar”, torce.

A própria trajetória de Paola, de notório conhecimento e reconhecimento, é apontada por Julie como uma das peças fundamentais para que sua condução à frente das atividades da ABLC seja reflexo de todo esse esmero e potência.

“Eu não sou membro da Academia, portanto, não sei acerca do regime interno da instituição, de suas perspectivas. No entanto, desejo que seja uma gestão bem-sucedida, com ganhos para a literatura de cordel como um todo”, diz.

Também cordelista cearense, Klévisson Viana caracteriza Paola Tôrres como talentosa e comprometida com a cultura popular. “Ela tem muita coragem, e creio que a ABLC vai ganhar muito com a sua chegada. Nosso presidente Gonçalo Ferreira fez um excelente trabalho, mas está com a idade bastante avançada e creio que estava na hora de passar essa responsabilidade para alguém que tenha respeito pelas tradições, mas que também traga ideias novas para tocar a instituição”, observa.

Colocando-se à disposição para colaborar com ela no que for possível, o poeta também comenta a respeito da conquista da presidência da ABLC por uma mulher. “A presença feminina, da forma como se apresenta atualmente, é algo recente na história desse gênero literário, mas de imensa relevância. É uma nova forma de enxergar o mundo. As mulheres têm muito a contribuir e ensinar para todos os poetas da Literatura de Cordel”.

“Espero que ela tenha muita saúde e disposição. Se for presenteada por Deus com essas graças, não tenho a menor dúvida de que realizará um grande trabalho”, vibra.

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