Getúlio Abelha lança ‘Autópsia’, EP com cumbia, bolero e funk proibidão que abre nova fase artística

Cinco faixas inéditas farão parte do segundo álbum do artista. Show de lançamento acontece neste domingo (23), em São Paulo

Escrito por
Ana Beatriz Caldas beatriz.caldas@svm.com.br
Getúlio Abelha investe em novas sonoridades em fase mais madura da carreira
Legenda: Getúlio Abelha investe em novas sonoridades em fase mais madura da carreira
Foto: Luan Martins/Divulgação

Após o grande sucesso da era “Marmota”, disco de estreia lançado em 2021, o cantor Getúlio Abelha decidiu investir em novos caminhos sonoros e provar que sua musicalidade vai muito além do forró. O ritmo – aliado a elementos do pop e performances bem humoradas –, foi o responsável por torná-lo conhecido nacionalmente na última década, mas é apenas parte do novo trabalho do artista, “Autópsia”.

Capa de 'Autópsia'
Legenda: Capa de 'Autópsia'
Foto: Luan Martins/Divulgação

Lançado no último dia 14 como EP, “Autópsia” é o segundo disco do artista,  mas teve apenas a primeira parte disponibilizada nas plataformas de streaming. Ao todo, são cinco faixas: a cumbia “Freak”, que ganhou videoclipe na estreia; “Toda Semana”, um forró eletrônico com pitadas de emocore, que deve ganhar clipe em breve; o funk pop “Engulo ou Cuspo”, com participação de Katy da Voz e As Abusadas; “Armação”, uma aposta de Getúlio no ritmo do momento, o piseiro; e “Zezo”, seresta em que o artista explora novos timbres homenageia o cantor e tecladista potiguar de mesmo nome.

Em entrevista ao Verso, Getúlio conta que “Autópsia” ainda é um projeto em andamento – a decisão de lançar o álbum em duas partes envolve a vontade de testar, aos poucos, as novas vontades musicais junto ao público e a si mesmo, uma análise que leva tempo.

O álbum completo deve ser divulgado  até o fim do ano e terá entre 10 e 13 faixas. Muitas delas, segundo Getúlio, ainda não foram escolhidas ou finalizadas pelo artista, que tem encarado o novo momento sem pressa, com cuidado e estratégia. A produção musical é assinada por glhrmee – que também produziu o álbum Marmota – e direção e co-produção musical do próprio Getúlio.

“Não estou pronto ainda para para ter o lançamento completo com todas as faixas. Eu não tinha certeza também de como o público receberia essa minha mudança, essas referências novas que eu quero trazer”, conta o artista, que há três anos reside na capital paulista e, a partir da mudança geográfica, decidiu trazer outras referências musicais e visuais.

Artista divulgou novo EP no último dia 14, junto aos visuais de 'Autópsia'
Legenda: Artista divulgou novo EP no último dia 14, junto aos visuais de 'Autópsia'
Foto: Luan Martins/Divulgação

“O segundo [disco] é delicado porque é nele que você confirma ou não algo que você já fez antes. Eu acho que é a hora que você define ‘sim, eu só faço isso, só quero fazer até aqui’ ou tipo ‘não, é hora de desviar da curva, quem quiser continuar comigo vai, quem não quiser já pode ficar aqui pelo meio do caminho”, explica. “Mas durante todas as músicas eu não deixo que esqueçam que elas vêm de mim, que eu estou ali fazendo”, destaca.

Não se trata, portanto, de abrir mão ou renegar o forró como gênero musical e parte importante de sua trajetória, mas de um momento mais maduro da carreira, em que o artista se sente pronto para explorar outras nuances.

O forró por si só é rico, daria para ter um álbum, um ‘Autópsia’ inteiro com esse conceito, em cima das variedades do forró, mas eu queria esgarçar logo isso também, me descompromissar dessa coisa de ser essa pessoa que faz forró.”
Getúlio Abelha
Cantor

As vivências pessoais e profissionais em São Paulo – onde Getúlio tem circulado como nome forte na cena alternativa, sendo inserido como artista da nova MPB –, são grandes componentes das primeiras faixas de “Autópsia”, que explora de noites de bebedeira, sexo e mundos de fantasia a temas mais profundos, como solidão, perdas e desilusões amorosas.

“Acho que se eu morasse em outro lugar, provavelmente tudo seria diferente”, comenta o artista, que costuma escrever suas canções com componentes autobiográficos, sejam experiências individuais ou coletivas. “Não tem como eu fingir outra coisa. Tanto que eu acho que o ‘Marmota’ é muito a cara de Fortaleza também, fala sobre a minha vida em Fortaleza”, completa.

Além do novo show, Getúlio planeja projeto de São João e quer voltar a Fortaleza

Videoclipe de 'Freak' traz referências bem humoradas ao tema do álbum
Legenda: Videoclipe de 'Freak' traz referências bem humoradas ao tema do álbum
Foto: Luan Martins/Divulgação

As primeiras cinco faixas inéditas de “Autópsia” serão apresentadas ao público pela primeira vez ao vivo neste domingo (23), na Casa Natura Musical, em São Paulo, onde Getúlio apresenta um show com elementos teatrais, talvez o mais profissional da carreira, focado não apenas em dança, mas também na interpretação.

A nova performance foi pensada em parceria com a coreógrafa Fernanda Fiúza, responsável por dirigir shows de artistas como Iza, Juliette, Júnior e Marina Sena. “Ela consegue – não só tecnicamente, mas criativamente também – fazer com que os meus sonhos sejam mais organizados e eu consiga montar com mais estrutura o que eu estou a fim”, elogia Getúlio.

“É um show muito mais teatral do que o ‘Marmota’ foi. Acho que o ‘Marmota’ tinha uma coisa tipo: eu e minha gangue, estamos aqui, num grupo de pessoas loucas, fazendo isso. Nesse show, eu tô direcionando para que as pessoas do balé/elenco não sejam só corpos que dançam”, explica. “Mas também vai vir dança pesado, com coreografias mais difíceis”, promete.

Em dezembro, o artista esteve na Capital e concedeu entrevista ao podcast 'Que Nem Tu'
Legenda: Em dezembro, o artista esteve na Capital e concedeu entrevista ao podcast 'Que Nem Tu'
Foto: Davi Rocha

Após a apresentação que marca oficialmente a estreia a nova era, o artista irá se dedicar à agenda de Carnaval, com shows no Recife e em Goiânia. “O sonho é que tivesse rolado Carnaval de Fortaleza”, lamenta, afirmando que a agenda não permitiu apresentações por aqui.

“Mas, também, Fortaleza é uma das cidades que hoje em dia, se eu for fazer show, eu tenho que fazer num lugar que consiga de fato suprir o tipo do show que eu estou fazendo. Tem cidades que eu só volto agora se for para ser muito mais legal, para voltar forte, sabe?”, aponta, e afirma que está aberto a convites, mas também “mexendo os pauzinhos”, em busca de editais e outros projetos que ajudem a viabilizar alguns dos shows da nova era.

“Quem sabe quando a gente tiver uma estrutura legal [em Fortaleza] – sei lá, um palco aí na praia, alguma coisa bem bonita”, planeja.

Além do show de “Autópsia”, a ideia é voltar à capital cearense também com um projeto especial de São João, com repertório que mistura músicas de seus dois álbuns autorais e regravações de clássicos do forró.

“Isso vai acabar atravessando um pouquinho o processo do ‘Autópsia’, mas eu não tô com medo nem com pressa disso. Só sei que eu vou entregar essa segunda parte ainda esse ano”, conta. “Vai bagunçar tudo, mas eu quero fazer”, brinca.

Mesmo na correria da preparação para os novos shows, Getúlio destaca que não se sente ansioso – também quer curtir o novo momento da carreira e se manter aberto para o que vier. Felizmente, a produção afinada das faixas inéditas e as primeiras impressões do público, apontam para bons ventos.   

“A partir desse lançamento aí, a gente vai ver essa procura e para que caminho isso vai levar, quais oportunidades vão aparecer – quem é o público que está me acompanhando, quem são as pessoas que não me conheciam antes e que vão conhecer agora, onde eu vou chegar através disso”, conclui.

Autópsia – Faixa a Faixa

1. Freak

“Acho que não tinha outra música que poderia representar esse começo de álbum – tanto para ser a primeira faixa do disco, quanto a primeira a ter clipe, porque a letra dela não tem um tema específico, não fala de uma coisa só. Ao mesmo tempo, eu acho que ela introduz para o público quem estou sendo nesse momento aqui, o que eu estou pensando, por onde anda minha cabeça, quais os meus interesses.

A sonoridade é muito dançante, o que eu acho importante. Acho malicioso a música ser dançante, porque eu vou ganhando as pessoas pela dança, enquanto eu estou tentando falar de coisas meio filosóficas.

Veja o videoclipe da música:

2. Toda Semana

É uma das músicas em que eu sinto que trabalho uma coisa que eu gosto de fazer, que é trazer para as pessoas a sensação de já ter ouvido essa música. Pela sensação em si, não por samplear ou por nada disso, mas pela sensação que ela traz. Acho que ela é nostálgica, tanto pelo estilo de forró que tem nela quanto por essa coisa meio emo, adolescente. 

Fala de solidão, de fato é sobre isso, a letra dela é muito direta – eu acho que às vezes eu sou um compositor muito direto também, eu não fico enrolando muito, inventando muita metáfora. Acho que ela resume um fim de semana qualquer que eu vivo aqui quando não tô trabalhando e tô só tentando ser feliz e encontrar pessoas ou amigos.

3. Engulo ou Cuspo (part. Katy da Voz e As Abusadas)

Sou eu falando proibidão diretamente, que é algo que eu nunca fiz. Tiveram músicas com palavrão, com provocações, mas nunca estou só falando ‘sim, eu vou ser safado, vou ser putão e eu vou falar essas obscenidades’. E eu trouxe o funk forte, porque é um estilo musical que também prevalece aqui, que está na minha noite.

Convidei a Katy da Voz e As Abusadas porque eu sinto que elas são uma nova voz nessa linguagem e, ao mesmo tempo, quando eu vejo elas performando, criando, o jeito que eu vejo acontecendo as coisas para elas nesse momento eu sinto muito parecido com quando eu tinha ‘Laricado’, ‘Tamanco de Fogo’.

4. Armação

Armação é um ‘golpe’ contra forrozeiros e ‘piseiros’, porque eu imagino que sensorialmente é uma música que quando começou a tocar você fala ‘ah, vou dançar um forrozinho, faz até assim com a mão, puxa alguém para dançar junto e no meio suas pernas são quebradas (risos). 

Eu acho que o jeito de cantar e escrever ela é completamente sobre esse piseiro que tocam na indústria nos últimos cinco anos, e não estou tentando fugir disso ou ser experimental em cima disso. É tipo: é o momento de fazer piseiro, estou fazendo um, diretamente.

5. Zezo

Acho que a letra dela conclui [o EP] bem, porque é a única que fala diretamente de morte. Todas as outras músicas falam de partes do corpo, até de escatologia, talvez, mas essa é a única em que eu falo, tipo: ‘alguém te matou e eu fiquei com uma dor’. Que aí também pode ser uma morte simbólica, ou alguém só levou essa pessoa. Ela só quis ir embora? Eu fui trocado ou a pessoa morreu literalmente? Essa pessoa que morreu é o quê? É um pai, um irmão, um ex-namorado? É isso. 

Também acho que eu experimento um tipo de voz que eu nunca tinha gravado antes. Mas isso também é parte do álbum, né, essa versatilidade. É não ter medo de parecer um ‘velhão’ cantando nessa e parecer besta cantando outra. E nessa eu deposito um lado meu muito maduro.

Serviço
EP “Autópsia”, de Getúlio Abelha
Ouça nas plataformas digitais
Acompanhe o artista: @getulioabelha

Este conteúdo é útil para você?